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terça-feira, 24 de setembro de 2013

Do encontro


escrito em 04 de fevereiro de 2013

Telefonema
Cinema
Poema

Dedos
Enredos
Brinquedos

Toque
Choque
Enrosque

Cheiro
Faceiro
Passageiro

Lábio
Sábio
Hábil

Beijo
Trecho
Desfecho

Conselheiro


— Não deixe que o entusiasmo faça vocês gastarem tudo de uma vez.

— O problema é que eu sempre fui racional até o último nível. Fico me gabando do meu autocontrole. É a primeira vez que eu fico assim. É a primeira vez que eu me apaixono com essa força. Não tenho prática em administrar isso.

— Não estou falando pra não sentir, não pensar, não se aventurar. O que eu quero dizer é: não ponha o carro na frente dos bois. E outra: ninguém sabe administrar. Não importa quantos namoros a pessoa já teve, nem quantos encontros... Você é você agora e está em constante mudança, assim como a outra pessoa. Nunca se encontra uma mesma pessoa duas vezes, a gente só não estranha porque acompanhamos a mudança um do outro. Quando o coração pulsa num determinado encontro, ele pulsa de forma única. Única porque é você naquele momento, porque é por aquela pessoa naquele momento, naquele dia... Acho que aquele negócio da conquista ser diária tem a ver com isso. Agora pensa: pra que correr? Os momentos acontecem quando tem que acontecer. 

segunda-feira, 4 de março de 2013

Conto de fadas (sem fadas)



O príncipe, contrariando todos os princípios da família real conservadora, casou-se com a plebéia depois de salvá-la das perversidades de uma madrasta viúva. O casamento foi numa tarde fresca, com os convidados cercados por flores do campo amarelas e animaizinhos cantantes; durante a cerimônia, o casal se beijava com os olhares e bem distante os sinos tocavam com gozo e satisfação. E foram felizes para...

— Tu és virgem?

— Príncipe, o que tu esperavas de mim?

— Bem, eu... penso que, no fundo, eu esperava que tu fosses virgem, mas... ainda mais fundo, eu esperava que tu não fosses!

— Como assim? Tu serias capaz de casar-te com uma mulher desvirtuada? Com uma mulher furada? Nosso casamento estaria amaldiçoado antes mesmo de começar.

— O que eu quis dizer é que, de certa forma, eu já sabia que tu eras virgem, mas eu não estava preparado para isso. Eu... não me preparei para lidar com essa situação.

— Príncipe, tu fazes um mal julgamento de minha pessoa. É claro que eu me guardei para o dia da minha noite de núpcias. Apenas.

— Apenas? O que tu quiseste dizer com “apenas”? Quer dizer que... que... apenas na noite de núpcias?

— Bem, na verdade só podemos ir para a cama juntos para aumentar nossa prole, senão seremos excomungados! O demônio nos tenta, mas temos que ser fortes o bastante para resistir.

— Quê? Aumentar nossa prole...?

— Mas é claro!

— Então, bem... Eu não sei muito bem qual a próxima parte da noite de núpcias, mas... eu acho que agora é a hora de tu se despir.

— Eu? Mas é claro que não! Por mais que eu tenha sido criada por uma madrasta horrenda e mal-cheirosa, não quer dizer que eu não tenha pudores e princípios. A mulher nunca pode ficar desnuda na frente do marido.

— Como assim? Mas como que...? Eu não estou entendendo. Eu achei que tu ficarias nua diante de mim, iluminada pela luz da lua, momento em que eu contemplaria a sua pele alva, o seu corpo curvilíneo...

— Com certeza tu tiraste isso de algum poema escrito para uma meretriz! Pare de ler poesia indecente e imprópria para um homem casado!

— Desculpe-me, minha querida esposa, mas isso é a minha falta de tato com virgens.

— Falta de tato com virgens? Quer dizer que tu tens “tato” com meretrizes, mulheres perdidas e de má-nota?

— Não foi isso que eu quis dizer. Eu... bem... Nós, homens, temos... necessidades!

— Nós, mulheres, também!

— Que disparate! Como ousa em comparar os homens com as mulheres? Vocês, mulheres, são encarnações do diabo!

— É claro que temos necessidades...

— ... necessidades demoníacas!

—... mas, em nome da decência e da minha paz eterna, nós, mulheres direitas, decidimos esperar até o dia de nossas núpcias para que nossos corpos sejam deflorados sob as leis dos céus. Não quero que exista nenhuma mácula na minha alma!

— Espere só um instante: eu não estou conseguindo desabotoar esse botão da minha calça. Urrgh! Aaaah! Consegui! Esses alfaiates complicam muito as coisas com esses seus botões de ouro e esses couros duros que cheiram a mofo. Mas... sobre o que tu estavas falando mesmo?

— Nada.

— Bem, já que não vais tirar a roupa...

— Espere! Eu não disse nada sobre beijos!

— Como assim? Sem beijos, sem poemas, sem contato corporal... Como é que tu queres que esse casamento seja consumado?

— Tudo bem. Confesso que estou sendo um pouco exagerada...

— ... um pouco?

— ... mas prometo dar-lhe um beijo caso você lave essa boca. Seus dentes estão todos podres!

— E, por acaso, o seu sorriso é mais lindo que o meu? Pelo menos eu fui criado num castelo, enquanto, pela aparência de teus dentes, parece-me que tu comias cascalho. Onde é que tu perdeste teu canino esquerdo?

— Foi num dia que... Ah, não lhe interessa! Se continuarmos nesses termos, esse casamento não será consumado nunca!

— Se apagarmos aquela vela, não veremos nada. Sem dentes podres, sem corpos nus...

— Mesmo sem luz, eu não tirarei o meu vestido.

— Mas eu estou ficando sufocado com tanto pano! Eu não estou encontrando suas pernas. Meu Deus, tu tens mais pelos na perna do que eu!

— E seu toque é tão delicado como um touro. As mulheres da vida com as quais tu estás acostumado a lidar não lhe ensinaram nada?

— Bem que meu pai me disse que é o marido quem controla a língua da mulher.

— Ei, tire tua mão daí!

— Aaaau! Isso é um cinto de castidade? 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O Último Tango


— Está tudo terminado entre nós! — ela disse segura; controlava cada milímetro dos músculos do seu rosto para que sua expressão não mostrasse como aquilo estava sendo difícil pra ela.

Ele ficou olhando fixamente para os olhos dela, sem reação. Depois, como se acordasse, balançou a cabeça tentando organizar os pensamentos, piscou os olhos e umedeceu a língua.

— É... Bem, eu não sei... — ele olhou para o chão puxando alguma coisa da memória; ela já conhecia aquele ritual. — Espere um pouco.

Ele correu para apagar as lâmpadas do apartamento que estavam lhe atrapalhando e abriu as cortinas da enorme janela do quinto andar.

— Por favor, querida, fique aqui em cima desse tapete. — Então ligou o abajur que iluminou o rosto dela debaixo. — Agora sim! Dá um ar... sobrenatural! Pode repetir o que você disse?

— Você é louco!

— Não foi exatamente isso que você disse antes. Não existem cacos nessa cena.

Ela respirou fundo:

— Está tudo terminado entre nós.

— Bem, eu imagino que... minha próxima fala deveria ser: — Ficou com um ar de estupefação. Metade do seu rosto estava escondido na penumbra e a outra metade iluminada pela luz azul que entrava pela janela. Perfeito. — Eu não compreendo, querida! Estávamos tão bem ontem à noite quando saímos pra jantar.

— Ontem estávamos bem? — ela aumentou o tom de voz; sem gritar. Era perceptível o sentimento que crescia dentro dela as poucos. Ele gostava dessas nuances na voz dela. — Você me deixou envergonhada quando pediu para que os nossos amigos trocassem de lugar três vezes porque aquela iluminação não favorecia a cena. E ainda falou mal da maquiagem da minha amiga.

— Perfeito, querida! É assim que eu gosto. Adorei a ênfase que você deu em “minha amiga”. — Ele volta a ficar sério. Foi para o balcão do bar, colocou dois gelos no copo e se serviu de dois... três... alguns dedos de whisky. — Você está sendo precipitada. — Ele caminhava na penumbra azul do apartamento. Bebericou o whisky. — Você... você está apaixonada por outro? — E virou o conteúdo do copo de uma vez. Olhos semicerrados. — Eu não estou satisfazendo seus desejos? É claro que eu não sou mais aquele rapaz de 21 anos que você conheceu, mas... você tem que compreender! Podemos superar essa traição juntos...

— Não é nada disso! Não é questão de eu gostar de outro! A questão é que eu não aguento mais as suas loucuras.

— Ficaria melhor se fosse “delírios”.

— Eu não aguento mais os seus delírios. Essa sua ideia disparatada de vivermos como se estivéssemos em Hollywood.

— Na verdade, eu imagino um filme europeu, mas tudo bem!

— E toda a sua preocupação com a iluminação, o cenário, a ordem das coisas, o meu cabelo!

Já foi dito que ele se apaixonou por essa voz oscilante, hesitante, marcante...

— E quantos momentos ridículos eu tive que passar por causa de suas insanidades! Como aquela vez que você me maquiou e me deixou com a cara pálida; então, você colocou aquele sobretudo preto e andava com aquela lanterna no meio da rua.

— Era a época que eu estava lendo sobre os alemães. Expressionismo alemão, minha querida! Expressionismo alemão.

— E as suas manias de balançar a cabeça...

— “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”.

— Mas você não tinha câmera alguma e, pra mim, também não tinha nada na cabeça.

— São testes que eu colocarei em prática. Algum dia. Não questione o meu jeito excêntrico. Foram anos para moldá-lo a meu gosto. Sou um cineasta nato, mon Cher. — Ele se aproxima do rádio. Last Tango in Paris, de Gato Barbieri. 


Ele coloca uma rosa vermelha na boca e a sola do seu sapato de couro italiano faz o toc toc no chão de assoalho. Charuto. A fumaça que ele sopra é iluminada pelo neon de um anúncio na rua. 

— Lembra daquele dia no parque? As estrelas, nós dois, a lua...

— Por favor...

— ...o som no carro, a brisa... — Ele tira o blazer; está de camisa, colete e gravata. Ele sorri sutilmente. Ele sabia que inconscientemente ela era apaixonada pelo Marlon Brando. Aquele sorriso era de horas na frente do espelho. — Por que não me concede essa última dança?

— Eu já disse que...

— Shhhh... — Ele apertou o quadril dela ao seu. Queria tê-la ali mesmo; no sofá, na mesa de jantar. Colocar seu corpo no dela. O cheiro dela invadia seus pulmões. — Não preciso explicar o roteiro mais uma vez! Lembra de quando assistimos juntos e, no fim...?

— Pare com isso!

— Você é uma desconhecida. Acabo de te encontrar por acaso numa rua parisiense e...


— E não acontece nada. E...

— E...?

Ela deu-lhe um beijo ardente. Ela odiava quando ele fazia aquilo. Mas ela sentia o calor subindo pelas costas e sufocando-a; só se salvava nos lábios experientes do seu marido. Precisava de um pouco de vinho; nada de manteiga.

domingo, 14 de outubro de 2012

Beijos, sussurros e o lápis no papel



Ela chegou de surpresa e o pegou desprevenido. Ele estava sentado à escrivaninha concentrado no delicioso barulho do lápis no papel e um arrepio percorreu todo o seu corpo quando ela beijou seu pescoço. Ele sentia a sensualidade emanar daquela pele macia.

— Eu te disse para você não mais me procurar! O que você está fazendo aqui?

Ela rodeou a cadeira e sentou no colo dele olhando fundo naqueles olhos cansados da leitura. Ela era linda! Ele sabia que tudo nela era perfeito, mas ele ficava desnorteado principalmente com aqueles lábios. Ela o beijou demoradamente deixando-o bêbado. Era impossível ser indiferente àquele toque. Ele fechou os olhos e deixou que sua língua o guiasse pelos contornos daquele beijo.

— Você nunca quis que eu fosse embora.

Ela o conhecia mais do que ele imaginava ser possível. Ele tentava se convencer de que a vida sem ela seria melhor, mas nunca tinha conseguido. No íntimo, ele a queria; ela era uma de suas necessidades vitais. Ele precisava dela. E ela tinha consciência disso.

Ela desfez o beijo e sua língua desceu pelas linhas duras do queixo do homem; a barba, o pescoço... Abriu os dois primeiros botões da camisa dele e deu-lhe pequenas mordidas na pele suada do seu peito. Os olhos dele se reviravam nas órbitas e seu corpo já não lhe pertencia.

Ela era experiente; sua língua, úmida e determinada. Ela se despia e o puxava para si: fazia-o afogar na fartura de seus seios e enfiava suas unhas nas costas largas dele.

Quando ele já estava completamente imerso naquela terra de prazeres, ela se levantou e caminhou sensual para a cama. A única coisa que escondia sua nudez era a escuridão; mesmo assim, as trevas não queriam ocultar tal perfeição: a luz da lua entrava pelas frestas da janela e iluminava um pedaço daquele corpo nu.

Ele tremia. Suas roupas já estavam todas jogadas pelo chão e ele sentia uma leve cãibra nos dedos dos pés. Era uma reação natural do seu corpo. Ele queria tê-la, mas sabia que, se continuasse insistindo naquela loucura, nunca se livraria dela. Era o homem animal querendo seguir o seu instinto primitivo contra o homem racional que queria se livrar daquela loucura.

— Eu te pedi! Pedi para que você não me procurasse. Quanto mais você demorar em desaparecer, maior será meu sofrimento quando eu não puder mais ter você.

Ela se acariciava despreocupadamente.

— Você me quer. Por isso eu estou aqui.

— Você sabe que esse é um momento de fraqueza! — ele gritou. — Você só aparece quando eu não consigo me controlar. Eu não quero mais você aqui.

— Eu sei que quer. Você precisa de mim! — A voz dela era sussurrada. Sensual. — E essa sua... necessidade... é visível. — Ela riu olhando para a nudez do homem na sua frente; o membro rígido.

Ele não ficou envergonhado com aquela brincadeira:

— Eu sei que você não é real!

— Por que você acha que eu não sou real? — Ela ficou em pé e se aproximou. Tocou-o, mordeu sua orelha e sussurrou: — Isso não lhe parece bem real?

— Você só aparece quando o meu inconsciente quer que você apareça. Você não existe. Você me tenta, faz de mim o que você quer e depois some. Essa... esse... isso que a gente tem junto nunca poderá ser saudável. Não tem futuro! Não tem continuidade! Você não existe!

Ela ouvia o desabafo enquanto sua língua explorava os poros do peito dele; os pelos, o cheiro, a textura...

— Você não existe! — A cãibra nos dedos dos pés era uma sensação excitante e ele ofegava. — Não podemos continuar. Você não é real. Você é fruto da minha imaginação.

— E quem foi que te disse que a imaginação não é real? Só porque eu sou fruto da sua mente criativa, eu não posso ser real? Só por eu estar na sua mente, eu já sou real. Apenas por esse fato, eu já existo: faço parte dos seus pensamentos, da sua imaginação. — Ela sorriu. Deitou-se na cama e puxou-o pelo quadril. — Venha comigo! E saiba que o mundo imaginário é bem mais divertido que o real.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

As canções de amor




Você já amou
Pela beleza do gesto?
Você já mordeu
A maçã com todos os dentes?
Pelo sabor do fruto,
A sua doçura e seu gesto
Já se perdeu algumas vezes?

     Sim, eu já amei
     Pela beleza do gesto
     Mas a maçã era dura
     E quebrei os dentes.
     Essas paixões imaturas,
     Esses amores indigestos
     Deixaram-me mal disposto algumas vezes

Mas os amores que duram
Tornam os amantes exaustos,
E o beijo deles demasiado maduro
Apodrece-nos a língua

     Os amores passageiros
     Têm febres fúteis,
     E o beijo demasiado verde
     Esfola-nos os lábios
     Porque ao querer amar
     Pela beleza do gesto,
     O verme da maçã
     Escorrega-nos entre os dentes.
     Ele roe-nos o coração,
     O cérebro e o resto,
     Esvazia-nos lentamente

Mas quando ousamos amar
Pela beleza do gesto,
Esse verme na maçã
Que nos escorrega entre os dentes,
Toca-nos o coração,
O cérebro e deixa-nos
O seu perfume lá dentro

     Os amores passageiros
     Fazem esforços inúteis
     As suas carícias efêmeras
     Cansa-nos o corpo

Os amores que duram
Tornam os amantes menos belos
As suas carícias usadas
Dão cabo de nós

Música As-tu déjà aimé?
interpretada por Ismael (Louis Garrel) e
Erwann (Grégoire Leprince-Ringuet) em  
Les chansons d'amour.




Trecho do filme "Les chansons d'amour",
de Christophe Honoré

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Besos calientes



— Soy mexicano! Arriba!

Eu vou matar o Enrique por ter me deixado com esse maluco. Ele disse que foi buscar aqueles bestas dos amigos dele, mas isso faz... faz... só trinta e quatro minutos?! Meu Deus! Achei que já tinha passado umas duas horas.

— Tequila! Tequila. Beba una conmigo, moça bonita! — ele disse com a língua entre os lábios. Ele acha que isso é espanhol. — Vamos beber tequila!

— Não, muito obrigado. Eu já disse que eu não quero. Você sabe onde o Enrique foi buscar os amigos dele?

— Para que se preocupar, bambina! — Ele acha que isso é espanhol? — Vamos dançar mucho ao som de las cucarachas.

— Você está bêbado!

— Non estoy bêbado! Usted nunca me viu bêbado. A bebida non tem efecto sobre mí, bambina! Venha bailar conmigo!

— Muito obrigado! Eu já disse que eu não quero dançar! De onde você conhece o Enrique? Você são amigos?

— Conheci o Enrique nas quebradas della vita. — Falta falar russo! — Onde non ecsistem leis dos hombres, nem dos dieuses. Lembro-me daqueles lábios carnudos e atraentes begodes movendo-se com...

— O quê?!

— Ele é muito habilidoso com aquela boca. Enrique Língua de Pluma.

Acho que minha cara de medo o incentivou a continuar.

— Lembro-me muito bem como se fosse ontem; ou anteontem. Na verdade, eu acho que isso aconteceu semana passada. Éramos siete dentro de una Variant amarela terrible: dois hombres e cinco mujeres; ou três homens e quatro mujeres; ou... nunca soube se a Priscila era homem ou mulher. Esperava descobrir naquele dia, mas estava muito escuro. Tequila, marihuana e las cucarachas. Un casal, non me lembro quem era, se agarrava no banco de trás, e eu no banco da frente querendo participar daquele delírio... Oh, sí! Era ecsitante! Mas não alcançava. O único ao meu alcance era Enrique, com seus fartos begodes e sua cabeleira loira. Mio santo Cristo! Que besos calientes. E, quando percebi, Priscila e mais outras mujeres, ou outros hombres, non me lembro, participavam do movimento e... Alguém arrancou minhas roupas e lentamente lambia a sola do meu pé. Só podia ser Enrique Língua de Pluma.

— Quê?

— Perfectamente. Nunca pensei que aquilo fosse tan ecsitante. São os nossos chácaras! Temos pontos em toda a extensão do nosso corpo que interligam todos os nossos sentidos — ele falava isso e cutucava a minha nuca com o dedo do meio. — Usted non sabe o quão ecsitante é una lambida na sola do pé. Quer que eu mostre?

— Raquel, o que você está fazendo com esse cara?

— Enrique? Onde você se meteu? Você me deixa com esse seu amigo perturbado e desaparece.

— É que o Vinícius...

— E onde você estava na semana passada quando disse que foi visitar a sua tia em Juiz de Fora? Por acaso você estava numa Variant amarela participando de um bacanal e me traindo com uma travesti chamada Priscila?

— Respeite a Priscila — o metido a mexicano falou do outro lado da mesa. — Non hable dela na minha frente desta maneira.

— Raquel, o que você andou tomando? Você aceitou tequila desse maluco?

— Não minta pra mim. Não negue o seu amigo na minha frente.

— Isso! Non me negue, senão eu te negarei diante do Pai. PAI!

— Raquel, eu... nunca vi esse cara. Eu nem sei por que você está falando com ele. E eu não sei nada sobre nenhuma travesti ou Variant amarela. Você tomou alguma coisa?

— Esse mexicano, quer dizer... esse metido a mexicano disse que você esfregou seu bigode nele em “besos calientes”. Onde estão esses “besos calientes” que eu nunca recebi?

— Raquel, eu não tenho bigodes.

— Onde está a lambida no pé que eu nunca recebi? Onde está a excitação dos meus chácaras que você nunca fez comigo?

— Quê? Raquel, eu não tenho bigodes! Eu nem tenho pelos direito. E esse cara é um maluco. Eu nunca vi ele na minha vida.

— Tudo entre nós está acabado. Não quero ficar com um homem que nunca me deu uma lambida no pé. E que nega os próprios amigos!

E virei as costas. Onde já se viu um absurdo desses? Vou procurar um homem que me lamba quando eu quiser. Ainda tive tempo de ouvir o pseudo mexicano gritando:

— Sente aqui, amigo mio, e beba una tequila conmigo! 

domingo, 22 de abril de 2012

Fogo e Gasolina



— Ele faz isso só pra me implicar. Eu tenho cer-te-za!

— Calma, Gisele! — minha amiga me dizia. Eu detesto quando alguém pede para eu me acalmar, quando, na verdade, eu quero é cometer um assassinato. — Isso aí é coisa da sua cabeça. Essa sua paranoia não existia quando vocês ainda namoravam!

— Essa paranoia não existia porque o Mateus ainda não tinha comprado essa... essa... Como é que é o nome?

— Guitarra.

— Isso! Guitarra. Olha que barulheira! Eu não tô ouvindo a minha própria voz. Parece que o prédio vai cair! Eu vou lá no apartamento dele agora. Ah, mas vou mesmo. Você vem comigo?

— Não muito obrigada. Prefiro ficar aqui. Tô cansada desse joguinho de gato e rato entre vocês dois.

Eu sempre estou sozinha mesmo.

Subi dois degraus de cada vez e bati na campainha do 802. Bati de novo, mas o barulho da guitarra era demais. Resolvi chutar a porta. O som da guitarra parou e Mateus apareceu na porta de bermuda e sem camisa. Aquela bermuda eu tinha comprado no nosso 7º mês de namoro e aquele abdômen... O Mateus tá malhando?

— E aí, Gisele? Tudo bem?

— Tudo bem uma ova!

— Que que aconteceu? Lembrou que tem mais alguma coisa que você esqueceu aqui no meu apê? Calcinha, chaveiro ou marca-página? O que foi da última vez, mesmo...? Ah, lembrei! Uma cartela de adesivos.

— Não. Dessa vez eu vim aqui pra... pra... Mateus, você pode colocar uma camisa pra gente conversar?

— Não posso. Fala logo que eu preciso voltar pro ensaio.

— Então, vou ser rápida e direta: é justamente sobre esse ensaio que eu vim falar com você. Esse barulho tá fazendo tremer o meu apartamento e tá me atrapalhando a dormir, sabia?

— Não, não sabia. Mas... já que tá fazendo tremer o andar de baixo, porque você não vem pra esse andar. Tem um quarto vago aqui no meu apê e a gente pode... conversar até tarde...

— Por que você está tão próximo? Mateus, você pode se afastar de mim, por favor? Você... tá me encostando!

— Isso te incomoda?

Filho da mãe! Ele tava usando aquele perfume que tem cheiro de homem.Como é mesmo o nome dele? Ah, não lembro. Era alguma coisa com Z. Sei lá! E ele tava respirando no meu rosto. O hálito dele é uma coisa admirável. Não é só porque eu faço odonto que eu fico reparando essas coisas, mas eu admiro o Mateus por ele nunca ter fumado.

Peraí! Ele tá me pressionando contra a parede. É isso mesmo? Gisele, Gisele! Não tenha uma recaída. Você está sendo forte. Já resistiu três semanas sem o Mateus. Claro que durante essas três semanas já houve quatro reaproximações com beijos e amassos. Ou foram cinco? A última foi na semana passada.

— Não é que me incomoda, Mateus, mas... a gente... nós... eu...

Ele tá me beijando? Meu Deus! Por que ele tá me beijando? E por que eu tô retribuindo? Nossa, mas o Mateus beija bem! Eu tinha me esquecido que... hum... Nossa, que pegada é essa que não existia até semana passada?

Minha cabeça tá girando, gente! Que loucura. Esse negócio de fechar o olho não funciona muito bem comigo. Tenho labirintite. Peraí! Que lugar é esse?

— Mateus, a gente tá no corredor!

— Prefere lá dentro?

— Quando é que você limpou esse apartamento pela última vez?

— Não se preocupe, a dona Rosa veio aqui ontem. Tá tudo em ordem.

— E seu ensaio?

— Eu não tenho guitarra! É um CD que eu comprei no camelô.

— Mateus... Fique sabendo que essa será a última vez.

— As últimas vezes sempre foram as melhores.