Mostrando postagens com marcador Para refletir. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Para refletir. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Sobre a vida


Já passavam das nove horas da noite e o vento batia frio nas minhas orelhas. Mochila nas costas, mãos nos bolsos da calça, cabeça abaixada, eu subia um caminho comprido que começava lá naquele último estacionamento do campus da universidade, passava ao lado da biblioteca e acaba ali, ao lado do bloco do Direito.

Na direção contrária, um rapaz descia apressado trazendo na mão uma meia dúzia de livros. O barulho dos seus pés no cimento me fez levantar a cabeça e nossos olhares se cruzaram; sempre que isso acontece, surge um tipo de intimidade entre os envolvidos. O menino precisava de ajuda e aquela troca de olhares, então, deu-lhe o espaço que ele precisava para se aproximar:

— Oi. A biblioteca tá aberta? — perguntou com um sorriso.

Eu olhei para o prédio lá embaixo e não estava muito certo sobre a resposta.

— Uai, eu acho que tá...

— É que disseram que essa semana não ia abrir. Eles ‘tão em greve? É que eu preciso entregar esses livros.

Eu já sabia que era um desses novatos inexperientes. Coitados...

— Eu não vi nenhum cartaz falando de greve, não. Ontem, pelo menos, a biblioteca tava aberta.

— Tava?

— Tava. E, se eles ‘tiverem de greve, não precisa ficar preocupado, não: eles não cobram multa nesses casos.

Ele ainda hesitou. Sinceramente, eu não sei por que aquele rapaz ainda estava perdendo tempo comigo: seria mais fácil descer mais alguns metros e conferir se a porta estava aberta do que tentar tirar alguma informação de um sujeito distraído.

De qualquer forma, eu tentei animá-lo:

— Ontem tava!

— Sério? Eu vou descer lá.

— Desce mesmo! Deve ‘tá aberta, sim.

— Você tem certeza?

Levantei os braços pra cima, encolhi os ombros:

— Olha, moço, certeza certeza eu só tenho da morte...

Ele sorriu pra mim e eu vi pela sua expressão o quanto ele achava tudo aquilo absurdo. Eu também ri. O que eu tinha dito?

— Obrigado — ele disse no meio de uma risada tímida. E foi.

Enquanto eu... segui meu caminho pensando sobre a nossa vida frágil e efêmera.

domingo, 25 de agosto de 2013

O Monstro


Certo vilarejo era rodeado por uma floresta com árvores imensas: troncos tão largos e tão altos que precisaria de uma dezena de homens para abraçá-la e uma visão aguçada para vislumbrar o seu último galho. Essa floresta já fora habitada por gigantes comedores de carne humana, mas depois que esse povo estabeleceu o vilarejo em seu centro, poucos gigantes restaram.

Mesmo em menor número, os gigantes, porém, não se intimidam com a presença humana. De tempos em tempos, uma criança ou um ancião desaparecem para nunca mais voltar. Por isso, desde a mais tenra infância, os meninos do vilarejo são criados para matar gigantes: é um passo importantíssimo para entrar na vida adulta. A sobrevivência do vilarejo depende da coragem e da força desses homens que enfrentam o seu primeiro monstro no início da juventude.

Nosso personagem principal, um menino magricela, mas dono de uma coragem incomensurável, já tem idade suficiente para enfrentar o seu próprio gigante. Ele sabe que pode vencer o gigante não pela sua força (logicamente ele perderia para um ser monstruoso!), mas pela sua inteligência e perspicácia. Nada seria capaz de derrotá-lo!

No dia marcado, ele saiu cedo e não foi preciso andar até muito longe para encontrar o rio onde os gigantes matavam a sede. O seu alvo já fora definido há tempos e o menino o espreitava por detrás de uma árvore. Ele sabia exatamente como derrubar o gigante: venceria pela agilidade! O menino chamou a atenção do gigante para si e correu para deixá-lo tonto; assim poderia chegar ao ponto fraco do monstro com maior rapidez. Ele esperava ser lembrado como o mais rápido a derrotar um gigante.

O menino sabia exatamente onde e como ferir o “calcanhar de Aquiles” daquela criatura, mas não tinha previsto os outros obstáculos: a pressa e o foco único no seu objetivo fez com que ele tropeçasse numa das imensas raízes no chão. O gigante viu o menino caído e viu a sua oportunidade de vitória; para o menino não tinha outra escapatória que não fosse a fuga. Chegou ao vilarejo envergonhado, trazendo a derrota pintada no rosto.

Quais foram seus erros? Querendo reconstituir a sua honra, o menino agora precisava aprimorar suas habilidades: precisa derrubar o gigante, mas precisa prestar atenção nas raízes das árvores. Ele já conhecia toda a constituição do gigante, agora era preciso fazer um mapeamento do terreno: ele precisava saber andar naquele espaço com os olhos fechados, da mesma maneira que percorria os espaços do seu casebre nas noites escuras. E ele treinou muito enquanto os gigantes dormiam!

O momento oportuno chegou mais uma vez: ele tem consciência das raízes e derrotará o gigante. A criatura monstruosa já o persegue, como da outra vez, mas agora o menino presta mais atenção ao chão que pisa. Entretanto, enquanto anda de costas e visualiza as raízes ao seu redor, ele não percebe os galhos das árvores baixas, tão incomuns perto do vilarejo, mas em abundância perto do rio. Bate com a nuca num desses galhos e se fere gravemente. Com a força que ainda lhe resta, rola o corpo para as sombras de uma árvore e fica ali escondido até que o gigante se afastou tarde da noite.

O menino precisa mais uma vez se preparar para conseguir derrotar esse monstro e ser aceito no vilarejo. Ele sabe que esse é apenas o primeiro monstro que todos os homens tem de enfrentar. Mas agora ele não está tão confiante como no início. Ele sabe que tem que derrotar esse monstro, mas também tem consciência da sua imperfeição: sabe que pode tropeçar numa raiz ou bater com a cabeça num galho baixo. Qualquer pequena distração seria capaz de fazer com que todo o castelo de expectativas construído na véspera caísse ao chão. Ruína! Agora ele tem medo do gigante, das raízes, dos galhos, mas, principalmente, tem medo da derrota, medo de desperdiçar toda a sua dedicação de dias numa piscadela.

Ele ainda não venceu o gigante. Ainda! Mais do que as pedras ou os galhos, ele tem que vencer o medo e a insegurança. A questão não é não criar expectativas; a questão é estar preparado para o fracasso e erguer a cabeça para derrotá-lo.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Por que não me cativas?


“Mas aconteceu que o pequeno príncipe [...] descobriu, enfim, uma estrada. [...]

— Bom dia! — disse ele.

Era um jardim cheio de rosas.

— Bom dia! — disseram as rosas.

Ela as contemplou. Eram todas iguais à sua flor.

— Quem sois? — perguntou ele, espantado.

— Somos as rosas. — responderam elas.

— Ah! — exclamou o principezinho...

E ele se sentiu extremamente infeliz. Sua flor lhe havia dito que ela era a única de sua espécie em todo o universo. E eis que havia cinco mil, iguaizinhas, num só jardim!

‘Ela teria se envergonhado’, pensou ele, ‘se visse isto... Começaria a tossir, simularia morrer para escapar ao ridículo. E eu seria obrigado a fingir que cuidava dela; porque senão, só para me humilhar, ela seria bem capaz de morrer de verdade...’

Depois, refletiu ainda: ‘Eu me julgava rico por ter uma flor única, e possuo apenas uma rosa comum. [...] Isso não faz de mim um príncipe muito poderoso...’

E, deitado na relva, ele chorou.

E foi então que apareceu a raposa: [...]

— A gente só conhece bem as coisas que cativou — disse a raposa. — Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo já pronto nas lojas. Mas, como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. [...]

Depois ela acrescentou:

— Vai rever as rosas. Assim compreenderás que a tua é única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te presentearei com um segredo.

O pequeno príncipe foi rever as rosas:

— Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes ninguém [...] Sois belas, mas vazias — continuou ele. — [...] Um passante qualquer sem dúvida pensaria que a minha rosa se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que todas vós, pois foi ela que eu reguei. Foi ela que pus sob a redoma. Foi ela que abriguei com o para-vento. Foi por ela que eu matei as larvas (exceto duas ou três, por causa das borboletas). Foi ela que eu escutei se queixar ou se gabar, ou mesmo calar-se algumas vezes, já que ela é a minha rosa.

E voltou, então, à raposa:

— Adeus... — disse ele.

— Adeus — disse a raposa. — Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. [...] Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante. [...] Os homens esqueceram essa verdade — disse ainda a raposa. — Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...

— Eu sou responsável pela minha rosa... — repetiu o principezinho, para não se esquecer.”

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

233


Há pouco mais de duas semanas, eu estava numa boate uberlandense com uma série de amigos: comemorávamos o aniversário de uma delas; aquela era uma daquelas noites em que todos esperam dar o máximo de si para aproveitar a reunião. Nós adoramos esse lugar: os frequentadores assíduos, os preços das bebidas e as músicas... Ah, as músicas! Aquilo era um encontro de amigos maravilhoso: amigos que eu tinha conhecido nos meus idos 11 anos, amigos que eu tinha conhecido no Ensino Médio, outros que eu conheci há dois anos na faculdade, e outro grupo de pessoas que eu conheci há algumas semanas, mas que nem por isso eu deixo de nutrir um sentimento maravilhoso por eles. Era uma alegria inexplicável e eu queria fazer tudo aquilo valer a pena!


Esse dia me vem à cabeça quando eu vejo as infinitas reportagens sobre o incêndio numa casa de shows em Santa Maria (RS). Por mais que a imprensa seja sensacionalista até o último fio de cabelo, duzentas e trinta e três mortes não são qualquer coisa; não há como permanecer indiferente a essa notícia. Pensamos em números: quase mil pessoas estavam dentro daquela boate, ou seja, para duzentas e tantas mortes, tivemos mais de 700 que sobreviveram. Sim, tivemos tantos sobreviventes, mas (desculpem-me por cair no lugar-comum) para as famílias dos jovens que não tiveram essa mesma “sorte”, não foram 233 mortes, mas a morte de um filho, de um namorado, de uma amiga, de uma irmã.

Morreu um cara que estava fazendo planos para o Carnaval daqui duas semanas: ele ia viajar com mais quatro amigos no seu carro para uma festa de cinco dias; morreu uma moça que lia um romance americano e que estava apaixonada pelo personagem principal; um menino que gostava de assistir Os Simpsons, outra que gostava de brincar com o cachorro, outro de fazer barulho com o plástico-bolha, outra que gostava de panettone.

Sempre que eu vejo um número de mortes (eu sinto uma depressão tão grande quando vejo humanos traduzidos em números), eu imagino o mesmo tanto de cartas voando para vários lugares do mundo com a mesma notícia. E uma imagem que ficará guardada na minha memória sobre essa tragédia é a dos celulares dos mortos tocando incessantemente; pessoas do outro lado da linha clamando por notícias que acalmassem seus corações.

É difícil nos colocarmos no lugar dos outros, principalmente numa hora como essas. Eu tento pensar como as mães que eu conheço: minhas tias, minha madrinha, minha avó e minha própria mãe. Todas elas se solidarizam pela dor de outras mães: é impressionante como elas conseguem pegar para si a dor de outra mãe. Elas conseguem se colocar no lugar de outras mães e chorar pelos filhos delas como se fossem seus próprios.

Da mesma forma, penso que devemos nos colocar no lugar dos outros. Talvez nem todos sejam capazes de sentir as dores que outras pessoas que vivem tão distante estão sentindo; mas é importante nos colocarmos no lugar dessas pessoas para repensarmos sobre a vida. E sobre a morte! A morte é um assunto tão delicado para algumas pessoas (às vezes, mais do que sexo ou drogas), mas a única verdade é que, pra morrer, basta estar vivo! Quem disse que amanhã não é o dia da minha morte? Quem disse que amanhã não é o dia da sua morte? Deixe de dizer bobagens, Lucas! Mas é claro, ter consciência de uma coisa é diferente de traduzi-la em palavras: as palavras, às vezes, podem chocar, assustar, doer.

Os livros de auto-ajuda e as frases motivacionais das redes sociais dizem que devemos viver cada dia como se fosse o último de nossas vidas, mas, na prática, ninguém gosta de pensar que morrerá amanhã. Será que, se eu morrer amanhã, eu estarei feliz? Estarei satisfeito com tudo que eu fiz na Terra? Terei deixado alguma pendência? Mas ninguém pensa que morrerá amanhã. Ou nos próximos cinco minutos!

O que eu quero dizer é que o que aconteceu com os jovens na madrugada de sábado pra domingo poderia acontecer com qualquer um de nós. Qualquer um! Eu estava numa boate duas semanas atrás, com a capacidade de pessoas acima do limite e com uma saída diminuta para a quantidade de pessoas que se espremiam ali dentro. Os cenários são os mesmos! E eu tinha tantos amigos lá dentro... Cada um com seu jeitinho especial: Ana Paula, amiga antiga que agora divide apartamento comigo; Thábata, a rondonense mais divertida e bem-humorada que eu já conheci; Stella, com seus cabelos loiros e olhos azuis que me deixam ao chão cada vez que eu a encontro; Lúcio, com quem dividi experiências de amadurecimento durante toda a minha adolescência; Renata, que, mesmo que eu a tenha conhecido há poucos dias, já tenho muitos assunto em comum; Nilzilene, que me importuna de uma maneira divertida todas as manhãs; Flávia, que é minha companheira e meu porto seguro nos momentos difíceis da faculdade. E tantos outros que não estavam comigo naquele dia, mas já estiveram... É assim que eu vejo o número 233!

Mas... a morte é inevitável! Não estou dizendo com isso que não devemos sofrer pelas nossas perdas (e de outras pessoas), mas sim que temos que ter consciência da morte para que a vida não seja um saco de experiências frias e vazias. Não estou sendo insensível diante dessa tragédia: acho que, pelo contrário, estou tentando humanizar o 233!

A morte desses jovens foi chocante principalmente pelo número: como os números são capazes de moldar a intensidade de nossos sentimentos! Como os números são capazes de nos deixar mais indignados do que com uma única morte (mas pense que essa única morte, significa uma carta chegando na casa de qualquer um). Se me der vontade de chorar por esses jovens, eu chorarei; mas também ficarei triplamente satisfeito por ver meus amigos amanhã de manhã. Que estejamos todos aqui!

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Tudo está conectado


De tempos em tempos, eu sinto necessidade de parar e refletir sobre o mundo que está ao meu redor; sobre o mundo que, de certa forma, fui eu que construí. Fui eu que fiz minhas escolhas; fui eu que defini meus gostos, meus amigos, meus inimigos. O mundo que nos cerca é definido por nós mesmos, mas, da mesma forma, ou ainda com mais intensidade, nós somos moldados por outros “mundos particulares” (ou “mundos subjetivos”). Só para começar, nós somos projeções dos nossos pais: acho que muitas pessoas não conseguem imaginar isso, mas nossos pais viveram muita coisa antes dos nossos nascimentos; Deus, o destino, os astros ou qualquer outra força superior que você acredite, mesclado às escolhas particulares desses dois indivíduos, fez com que eles se encontrassem. E assim foi com os pais dos nossos pais, e assim será com nossos filhos...

Nossas vidas só existem por causa desses encontros. Nossos pais namoraram outras pessoas, mas alguma coisa quis que aquele casal se juntasse. Se meu pai ou minha mãe tivessem decidido por se casar com outra pessoa, eu não existiria. Ou talvez existisse, mas eu não seria essa pessoa que sou hoje! Seria uma pessoa completamente diferente, que teria incorporado desejos, gostos, preconceitos e ambições de um mundo distinto do meu. Eu teria nascido em outro lugar e não teria encontrado as pessoas que estão ao meu redor. Incorporei a herança que eu trouxe dos meus pais para o meio social e fiz minhas escolhas: por causa do encontro deles, dos meus avós, bisavós... eu estou aqui pronto para fazer os meus encontros!

No fim, nossas vidas tem a estrutura que vem dos nossos pais, mas, mais superficialmente, são moldadas pelos nossos encontros. Temos relações com todo o mundo e esse contato com cada pessoa (o contato que aconteceu devido às minhas escolhas e às escolhas delas) é único e é uma peça a mais para o quebra-cabeça — ou a colcha de retalhos, se preferir — que forma nossa vida.

Cada dia que passa, eu tenho mais noção das energias que são transmitidas de uma pessoa para a outra. São energias que foram acumuladas durante as minhas tantas vivências e que serão transmitidas para quem estiver ao meu lado; para quem, de qualquer forma, tiver algum contato comigo. Essas palavras são apenas uma forma racional de transmitir algo que já estava impregnado no meu subconsciente: prova disso é que, desde muito tempo, eu penso que o aperto de mão, o abraço, o beijo, o sexo, o sorriso não são coisas banais. O contato físico só aumenta o grau das energias que são transmitidas sem barreiras entre os corpos.

E, de alguma forma maluca, acho que sinto uma necessidade imensa de não deixar que a minha chama, que as minhas energias se apaguem depois da minha morte. Sinto uma necessidade imensa de deixar marcas pelo mundo. Tenho medo de parecer vaidoso, mas fico pensando se os meus diários, minhas anotações ordinárias, meu bloco de notas estarão nas mãos de outras pessoas no futuro. O que as minhas palavras tão íntimas e pessoais significariam para alguém que nunca me viu? O que minhas palavras significariam para uma pessoa que viveu numa época diferente da minha e que tem medos e anseios diferentes? Me achará fútil ou concordará com minhas preocupações? Meu legado escrito, assim como o legado escrito, visual ou musical de tantos outros do passado — filósofos da Antiguidade, romancistas do século XIX, pinturas do Renascimento, esculturas barrocas, o rock dos anos 60, registros de batismo, cartas entre apaixonados, diários de bordo, documentos de Estado, filmes de família, álbuns de fotos, cadernos de receita —, é a prova de que existe vida após a morte.

O filme A Viagem , a obra mais pretensiosa que eu já vi em toda minha vida, fala justamente sobre isso: é um enredo que se passa em seis tempos diferentes — em três horas de exibição — e mostra que cada contato é um caminho com muitas possibilidades; que a morte é apenas mais uma porta que se abre; que cada crime ou ato generoso será um novo arranjo de peças no tabuleiro da nossa vida; e que os nossos sentimentos mais intensos — o amor, o desejo pela liberdade ou pela justiça — sobrevivem a nós mesmos, alterando a vida dos que ainda estão por vir.



quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Ódio


“O ódio tem melhor memória que o amor”. Honoré de Balzac


“O ódio é o prazer mais duradouro; os homens
 amam com pressa, mas odeiam com calma”. Lord Byron


Com a sombra do politicamente correto seguindo-nos por todos os cantos, aprendemos desde cedo que sentimentos ruins devem ser reprimidos. Mas eu nunca me dei bem com a repressão. Sempre fiquei encabulado quando me diziam que era errado sentir isso ou aquilo. Sentir. Sentimentos fazem parte da nossa vivência humana; sentimos amor, afeição, inveja, raiva, atração porque somos humanos. Ser humano é emanar sentimentos contraditórios a todo momento. E se dizem que odiar alguém é errado, eu digo que reprimir um sentimento é doentio!

O ódio é um sentimento requintado. Não é uma ira desvairada, momento em que cometemos atos passionais; também não chega a ser um rancor, como uma célula cancerígena que se desenvolve dentro de nós. O ódio é delicioso. Talvez esteja mais perto da vingança; e o prazer de saborear esses dois pratos juntos causa calafrios. O ódio é prazeroso, satisfatório, sexual. O ódio é provocante; tem que ser provocativo, senão será a comprovação de sua covardia, do seu medo contra o alvo do ódio.

A graça é saber dosar o tempero. O ódio é sofisticado, exige experiência, elegância, bom trato. Gritos e agressões são para a ralé, a baixaria; isso é raiva sem controle. O alvo do ódio tem que ser tratado com indiferença. Tem que haver desafio! É o momento de controlar seus músculos faciais e esconder qualquer expressão corporal que te denuncie. O alvo do ódio tem que ser tratado com desprezo. Saboreie essa palavra: des-pre-zo!

Percebo que as pessoas que eu amo tem sempre lugar nas minhas memórias diárias; as pessoas que eu odeio também. Talvez o prazer de amar e o de odiar venham da mesma fonte: são sentimentos puros e intransponíveis. Se não o forem, tenha certeza que não é amor nem ódio: são sentimentos menores.

É gostoso odiar: é preciso revisitar o seu ódio (e o seu amor) sempre que possível para moldá-lo, conhecê-lo, torná-lo tão real que seja quase perceptível pelo tato. Tocá-lo!

Penso que talvez seja melhor alimentá-lo e tirar o maior proveito que o ódio pode lhe oferecer, do que enjaulá-lo furioso, debatendo-se nas grades e correr o perigo de escapar num momento de descontrole. Irracional.

E que as paixões criem asas!


É preciso deixar claro que, com esse texto, não quero defender a violência e as agressões físicas, os crimes e as fobias. Tenho minhas motivações para escrevê-lo. 
Sou completamente contra a repressão de sentimentos, mas ao mesmo tempo não podemos nos deixar ser controlados por nossas paixões; talvez eu esteja me contradizendo, mas é preciso ser racional para lidar com tais sensações: autocontrole, autoconhecimento. Eu disse que somos livres para, veja bem, sentir. A graça da vida é saber contrabalancear a razão e a emoção.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Vida, pessoas e planos para o futuro



Quais tons eu queria deixar visíveis quando eu escrevesse esse texto? É enriquecedor compreender as visões de mundo de outras pessoas, pois, olhando para o outro, você acaba se conhecendo através de comparações e analogias. Fazendo esse exercício continuamente, eu acabei por descobrir que ainda tenho muitos traços da minha visão de mundo infantil — o que me deixa pensar que minha síndrome de Peter Pan autodetectada nunca foi curada —, que eu ainda acredito na bondade das pessoas, que eu confio no ser humano. Junto a isso, ainda olho para o mundo como se fosse uma novela do Manoel Carlos com emoções à flor da pele, amores arrebatadores, personagens e situações complexas e sem explicações. Além disso, noto nos meus contos dos últimos anos histórias cada vez mais descrentes com a humanidade, personagens cada vez mais entregues à desesperança. Ou seja, quanto mais eu tento me conhecer, mais confuso eu fico.

E volto à pergunta inicial: quais tons eu queria deixar visíveis quando eu escrevesse esse texto? Pensei que talvez pudesse explicar minha visão de mundo num parágrafo, mas parece que as coisas ficaram mais complicadas. O balanço do ano passado e o olhar para o novo ano talvez sejam uma junção de todas essas personalidades conflitantes que existem dentro de mim.

O ano que acabou vai deixar saudades! Foi o ano de olhar para minha adolescência e justificar todas as tristezas e incertezas do passado. Por mais óbvio que isso seja, eu comecei a perceber que a vida é um processo contínuo de avanços e regressos. E tudo isso foi importante para eu entender a minha identidade. Na adolescência, sentimos uma vontade imensa de fazer parte de algo, de alguma tribo que se encontra no colégio. Nessa minha retrospectiva, eu acabei por perceber que eu não fiz parte de nenhuma tribo específica: acho que por minha dificuldade de me encontrar, eu estava sempre percorrendo os grupos, conhecendo pessoas, trocando ideias. Mas chega um momento que temos que nos encontrar, descobrir quem somos.

O ano passado foi importante pra isso. Eu me encontrei! Em nenhum outro momento e nenhum outro lugar eu me senti tão parte integrante do todo. A universidade, o grupo de amigos e conhecidos, a família... Todos os cenários me eram próximos, íntimos. Eu me senti confortável com tudo. Quer dizer, quase tudo.

Eu me encontrei e me descobri. Acabava que eu me sentia como o Leão Covarde das histórias do Mágico de Oz. As pessoas sempre fizeram questão de me mostrar o quanto eu era fraco, mimado e covarde. E eu enfrentei os desafios que a vida me colocou nesse ano e, como o Leão, descobri que a coragem estava dentro de mim, eu só precisava encontrá-la.

Descobri que as pessoas são lindas! Que eu posso fazer novos “amigos de infância”, que eu posso rir despreocupadamente, que eu posso me comportar como um louco, “porque todo mundo é; e piores são aqueles que não sabem que são, porque ficam repetindo apenas o que os outros mandam." Eu consegui surpreender as pessoas à minha volta, mas o que realmente importa, eu consegui me surpreender.

Descobri que as pessoas são coisas horríveis! Que a maldade, a dissimulação são inerentes ao ser humano. Quantas pessoas não estão dedicadas diariamente em te deixar pra baixo, “sugar” as suas boas vibrações (ainda não sei se acredito em “vibrações”) e falar o seu nome com deboche!

Começa 2013 e estou cheio de planos: ler menos no computador, ler mais no papel, me alimentar melhor (desculpem-me pelo oblíquo depois da vírgula), fazer exercícios físicos, assistir a mais clássicos, conversar mais. Viver mais! E conhecer as pessoas: as boas e as más! Passar horas e horas a fio fazendo análises psicológicas da humildade de umas e da falsidade de outras. Dizer aos quatro cantos o quanto eu amo as pessoas, sorrir de orelha a orelha com um ato de gentileza; ao mesmo tempo em que eu mostrarei a minha incredulidade com os atos horripilantes que eu vejo pelo Jornal Nacional e me dedicar a um dos meus hobbies favoritos: a maledicência.

Eu quero surpreender 2013! Vamos mexer as peças e ver o que a vida tem pra me oferecer.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Tempo irreal


"Tem gente enganando a gente
Veja nossa vida como está"
Renato Russo

O mundo mudou; os avanços tecnológicos correm além do que nossas pernas podem acompanhar e a quantidade de novidades que vemos em um ano é maior do que as que duas gerações de uma família viam há duzentos anos.

Transportamo-nos para um mundo paralelo, irreal; estamos imersos em terras virtuais desconhecidas durante a maior parte dos nossos dias. E vivemos nesse mundo contraditório, onde as distâncias físicas estão cada vez menores e cada vez maiores. Mantemos contato com pessoas do outro lado do planeta através da rede computadores, ao mesmo tempo em que não conhecemos nosso vizinho de porta, não sabemos o nome do moço da padaria; não sabemos nem mesmo a preocupação das pessoas com as quais moramos na mesma casa. E depois nos perguntamos a causa das depressões, das tristezas, da carência...

Nessa última semana, na faculdade, discutíamos sobre a velocidade das inovações tecnológicas e como, depois de pouquíssimos anos, tornamo-nos completamente dependentes delas. Não conseguimos passar um final de semana sem energia elétrica: sim, conseguimos sobreviver sem televisão e computador durante dois dias, mas não gostamos do banho frio e não conseguimos viver sem as inúmeras funções de uma geladeira. Essa última, tomo-a como o centro da casa.

Nosso professor nos perguntou o que fazíamos antes do Facebook. Orkut, nós respondemos de imediato, rindo. E antes do Orkut?, ele perguntou. E minha mente começou a divagar. Uau, vivo em redes sociais há seis anos e... nem me lembro de quem eu era antes delas. Com um pouco de esforço eu me lembrei:

Eu via mais televisão na sala sentado ao lado dos meus pais e dos meus irmãos, brincava mais, andava mais e lia mais. Eu lia mais, escrevia mais, sonhava mais. Não vivia mergulhado nesse território virtual durante horas como acontece hoje em dia. Eu pensava mais sobre meu futuro e, mesmo sendo uma criança, eu pensava mais sobre meus sentimentos, sobre o mundo, sobre as pessoas... Eu lia mais. E eu sempre estou me perguntando: por que eu não tenho mais tempo para ler? E eu lia mais. Conversava mais. Talvez eu fosse mais feliz.

Talvez eu fosse uma pessoa mais real... Talvez meus sentimentos fossem mais reais, menos virtuais...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Eu não entendo: funkeiros no ônibus


“E a maconha tá tendo
Balinha tá tendo
É droga pra caralho
Que os moleque tá vendendo.”
Tá tendo, MC Rodolfinho

Desde que me mudei para Uberlândia, eu adquiri um hábito que se encaixa perfeitamente no meu estilo de vida. Sempre que eu vou para alguma boate no centro da cidade, eu prefiro virar a noite na rua pra não precisar desembolsar dinheiro para o táxi: espero até às 5:30 da manhã, hora em que os ônibus começam a rodar, e pago R$1,56 (preço para estudantes) para voltar pra casa (diferente dos R$19 que eu pagaria para ir de táxi).

Foi o que eu fiz na manhã de ontem. Eram 6 horas da manhã quando eu subi num dos três ônibus que eu preciso pegar para chegar em casa. Sentado no fundão, ouvi um rapaz selecionando a música que ele deixaria reproduzindo no player do seu celular. Por algum motivo infernal, ele escolheu a música acima.

Por quê, mundo? Por que a pessoa não pode aproveitar a viagem de ônibus em silêncio? E por que esse indivíduo faz com que todos no ônibus sejam submetidos a essa tortura? O problema não é nem pelo gênero (inclusive, eu estava voltando de uma festa de funk), mas a falta de desconfiômetro, de senso, de noção desse sujeito que pensa que vive num mundo só dele.

Nessa hora eu já estava com minha bateria quase completamente descarregada: meus olhos se fechavam sem que eu percebesse. Nesse delírio, eu imaginei o seguinte diálogo:

— Moço, não tem como você abaixar o volume, não? Só um pouquinho. É que eu tô com dor de cabeça.

— Vá lá pra frente, maluco! Não vou abaixar porra nenhuma.

— Então, faz outro favor pra mim: bate essa sua cabeça oca no vidro e pula lá de fora com o ônibus em movimento.

No meu delírio, ele me obedecia; mas, na vida real, eu tenho certeza que ele teria me apagado ali mesmo.

Depois disso tudo, eu pensei em escrever um texto aqui no blog e comecei a me lembrar de algumas coisas que eu tinha visto na internet. Não vou expor minha opinião em palavras, mas vou mostrar o caminho das pedras para que vocês me acompanhem. Essa segunda parte é um pouco diferente do que os textos do Não entendo sempre pretenderam.

O primeiro vídeo é bem pequeno: é do professor Gil Brother. Ele é um personagem que eu já conheço há algum tempo e, no mês passado, acabei encontrando esse vídeo do seu canal Away. Dá o play ali embaixo pra gente ver junto.


Não estou aqui para falar de sua frase “Umas música que tem que ficar dentro de balada GLS”, mas sim do modo como ele pretende tratar os funkeiros (Outra opinião aqui). Confesso que ri muito no trecho entre 02:23 e 02:42. Acho o Gil Brother engraçadíssimo, mas... Bem, eu disse que eu não ia dizer o que eu pretendo mostrar. Vamos continuar!

Tenho a mania de ler os comentários nos vídeos do YouTube. E acabei encontrando essa preciosidade. Existem comentários bem piores, mas a importância desse é pela quantidade de pessoas que “deram joinha” nesse aí embaixo.



Que menino gente boa! E o que dizer do vídeo do Gil Brother agora? Nossa, mas o vídeo é uma coisa tão inocente, tão engraçado. Stand up! 

Mas acabamos de ver um comentário com 52 "curti" que..? Tempo para pensar!

Bem... E que tal a gente dar uma passadinha lá no R7 pra conferir umas notícias? Notícia contemporânea ao comentário do "pirikiteiro".


Quero me atentar a um pequeno trecho da notícia (Link da notícia): “Após o sepultamento, a mãe do estudante, Josefa Batista da Silva, falou sobre o filho, morto a tiros na quarta-feira (24). — Um garoto alegre, brincalhão, não fazia mal a ninguém. Foram fazer uma covardia dessa com meu filho.” Não sabemos se essa fala é real, mas é perfeitamente possível de ser. E o efeito dela é importantíssimo para o que eu quero dizer. Mesmo sem dizer!

Não quero falar sobre a importância dos variados gêneros no cenário cultural brasileiro (funk, sertanejo, rock, samba e tantos outros que sofrem preconceito por parte de quem não conhece), mas penso que as pessoas entram em contradição quando condenam alguma coisa, mas quando eles é que são as vítimas, ele me vem com a frase feita: “Tem que respeitar o gosto de cada um”.

Estou cansado de ouvir gente dizendo que quem ouve reggae usa droga, que rockeiro é violento, que sambista é vagabundo, que funkeiro é ignorante. Até quando?

Só sei que nada sei.

E, para terminar, o funkeiro do início da história, aquele que estava sentado do meu lado, dormiu (ênfase no dormiu) ouvindo sua música no celular. Dormiu tanto que não viu o ponto em que tinha que descer. Começou a esmurrar o amigo dele:

— Seu vacilão! Maluco! Vai tomar no cu! A porra do negócio ficou lá atrás. Seu vacilão. Vacilão.

Sinceramente, eu não sabia que as pessoas falavam “vacilão”.

Funkeiro no ônibus: eu também não entendo.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Carta Aberta aos meus amigos dos Correios

Se eu mandar uma carta pela internet, eu tô quebrando o monopólio postal?

Oi, gente! A minha ideia inicial era fazer um vídeo narrando tudo que está escrito abaixo, para que eu pudesse olhar dentro dos olhos de cada um, e para que vocês pudessem perceber, dentro dos meus olhos, coisas que não são transmitidas por palavras. Mas, por alguns motivos, decidi escrever essa carta que é destinada a cada um e a todos vocês (ou qualquer outro que queira ler). Depois de passarem quase um mês e meio com minha agradável companhia, vocês perceberam que eu adoro contar histórias; não podia começar essa carta de um jeito diferente.

Lembram-se do dia 11 de setembro, quando nosso primeiro instrutor pediu que fôssemos à frente de toda a turma e nos apresentássemos? Pois bem! Eu disse meu nome, minha idade, um monte de inutilidades (não me lembro dessas inutilidades por estar hipnotizado por algumas belezas; e vocês sabem às quais eu me refiro) e minha paixão: eu cursava — e ainda curso — História. Eu disse olhando pra Marjorye, que a faculdade era o maior investimento da minha vida. Mesmo assim, eu estava largando mão de todo o meu tempo livre que eu gastava com estudos para trabalhar nos Correios. Percebam: eu sou uma pessoa completamente contraditória (Reinaldo e Sarah sabem disso mais do que todos).

Vim embora para Passárgada para Uberlândia e adorei o meu primeiro dia de trabalho. Mudei-me para Prata (não vou falar sobre a cidade para que ninguém me processe) e adorei o segundo dia de trabalho; e o terceiro, o quarto, o quinto... Lembram-se de quando eu dizia que morria de medo de chegar numa agência onde todos fossem metidos ou velhos retraídos? Então! A agência de Prata estava longe de ser isso. Diverti-me muito com a família Correios que vivia ali dentro (foi assim que eles se denominaram quando eu cheguei lá numa terça-feira quente; muito quente). Eu me senti em casa! A hora mais feliz do meu dia era quando eu estava no guichê, atendendo os clientes, oferecendo AR e vendendo Telesena (eu queria dar um beijo na careca do Edir Macêdo para agradecê-lo sobre todas as técnicas que ele ensinou; ele é lindo demais! até meus relacionamentos mudaram depois daquelas aulas de venda.).

E foi assim! Correios de dia, universidade à noite, estudos no final de semana e quase nenhum tempo livre (apesar disso, consegui um tempo pra ir ao show da Banda Uó! Marcos, viu a calça vermelha?). Minhas forças terminavam... os 10% de energia que o Jairão sempre me disse que era possível encontrar dentro de mim estavam acabando. Eu sabia que eu não ia conseguir: não era falta de fé em mim mesmo; era a minha saúde física e psíquica que estava em jogo (adoro fazer um drama!). É sério! Eu tive uma crise de ansiedade no meu quarto na casa do meu tio. A partir daí, comecei a pensar em algumas coisas.


“O que mais surpreende é o homem, 
pois perde a saúde para juntar 
dinheiro, depois perde o dinheiro 
para recuperar a saúde. 
Vive pensando ansiosamente no futuro, 
de tal forma que acaba por 
não viver nem o presente, 
nem o futuro. Vive como se 
nunca fosse morrer e 
morre como se nunca tivesse vivido.”
Dalai Lama

Dentro do meu quarto no Normandy, tive altas conversas com o Reinaldo sobre sonhos; dentro do ônibus dos Irmãos Lessa, eu conversei sobre planos com o Ronan (provavelmente você não se lembra); o Jairão me deu altos conselhos; e conversei sobre a carreira do Lincoln. Vocês me ajudaram a permanecer em BH durante o treinamento e, junto de vocês, tudo fazia sentido: o otimismo da Patrícia, a despreocupação da Natália (casar pra que, seu Nacib?) e da Mara, o sono da Brenda, a dedicação da Marcélia e da Michele, a beleza do César, a força da Grace, a ar responsável dos Rafaéis, os sorrisos das Maíras e a coragem do Gustavo e do Edmilson. Aqui, no mundo real, os fatos não se organizavam mais.

E o que eu tinha dito no início do treinamento? Eu amo o curso que eu faço! Foi só pensar em me tirarem isso, por um minuto, para eu perceber que isso aqui na UFU é minha vida. O mundo não sente nenhum pouco de pena de cortar nossas asas, destruir nossos sonhos e nos engaiolar numa jaula cinzenta. Eu tinha essa chance de realizar os meus sonhos e viver num mundo arco-íris (gay!), mas eu ainda insistia em seguir o caminho errado. O que eu estava fazendo, meu Deus?

Na semana passada, eu desisti dos Correios! Não sinto nenhuma culpa por isso, porque eu estou perseguindo o que eu sempre sonhei. Eu não preciso ter um salário bom; eu só quero realizar os meus sonhos (quem sabe eu possa pagar uma viagem pra Disney em 36x). Pessoas morrem todos os dias e eu não quero acabar minha vida enjaulado numa vida medíocre, que não me dá prazer, que não me satisfaz, que não me tesão, porra! Jairão, eu disse que eu não conseguia ser sério! Eu quero ser professor, artista, poeta; e não contar moedas de cinco centavos diariamente.

A frase do Dalai Lama foi uma das minhas inspirações, mas eu recebi o apoio dos meus pais, professores, familiares e amigos. Estou me sentindo a melhor pessoa do mundo. Eu estava tentando me convencer de que eu estava feliz; mas eu não sabia o que era a felicidade: agora eu sei, pelo menos um pouquinho, o que é isso. Eu vou tatuar a imagem acima (a da gaiola e dos passarinhos) na minha panturrilha definida e peluda para marcar esse momento, para que eu não me coloque novamente dentro de uma gaiola sem graça, sem vida. Minha mãe ainda não sabe da tatuagem, mas não precisa ficar sabendo. Mãe, essa carta não é pra senhora! Para de ler!

Eu quero encontrar com vocês e mostrar o tamanho do meu sorriso, o tamanho da minha satisfação; mostrar o quanto eu estou realizado. Não quero servir de exemplo, mas pensem: não se esqueçam dos seus sonhos. Eu tenho consciência do tamanho minúsculo da minha vida; e não quero que ela passe e eu perceba que tudo que eu fiz foi em vão. 

Beijo na boca,
É nóis que voa, bruxão.

Lucas Reis