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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Eu não concordo


Dessa vez, eu não aguentei ficar calado.

Pela internet, eu acompanho a repercussão da morte de um menino de 18 anos, homossexual assumido, brutalmente assassinado em Inhuma, cidade do interior de Goiás. Um recado com a mensagem “vamos acabar com essa praga” foi encontrado na boca do rapaz e a polícia diz ser um POSSÍVEL caso de homofobia (http://migre.me/lApM7). Ao mesmo tempo, pela televisão, eu acompanhei as notícias sobre o incêndio criminoso no Centro de Tradições Gaúchas em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul, motivado pela realização de um casamento comunitário que incluiria um casal lésbico na celebração (http://migre.me/lApMK). Muita indignação e comoção nas redes sociais. E com razão!

A homofobia no Brasil não é crime e os gays ainda são acusados de sensacionalismo. Os crimes homofóbicos são tratados como crimes comuns, enquanto o número de morte dos LGBT só aumenta (Quem a homotransfobia matou hoje? - http://homofobiamata.wordpress.com/). As estatísticas nos saltam aos olhos, ao mesmo tempo em que somos colocados como uma MINORIA de rebeldes promíscuos lutando contra a família.

Os anos de opressão, os casos de violência, os assassinatos: tudo isso mete medo, faz a gente engolir seco. E esse medo, que nos relega aos guetos e aos becos escuros, nos faz ficar em silêncio e compactuar com um monte de argumentos homofóbicos, como o “eles podem fazer o que quiser, mas não na minha frente”. Esse é o objetivo desse texto.

Restringir a vivência da minha sexualidade às quatro paredes do meu quarto é como se eu desse razão ao indivíduo que diz “meus filhos não estão preparados pra ver isso”. Eu sei que não é fácil, não é simples — a família, os amigos podem colocar uma infinidade de obstáculos (cada um sabe das suas condições) —, mas é extremamente importante ter consciência do valor de sair do armário. Não para darmos satisfações da nossa vida sexual ao público, mas no sentido de dizer: eu não concordo com você!

Pode parecer implicância, mas algumas simples ações se tornam atos políticos. Dar um beijo em público, caminhar de mãos dadas pelo shopping, marcar relacionamento sério no Facebook com um rapaz é um gesto carinhoso, mas também uma resposta aos meus colegas de escola que me trataram por “boiola” e “bicha” como se eu tivesse alguma doença; é uma resposta a um homem que me jogou uma lata pela janela do carro me chamando de “veadinho”; é uma resposta a um rapaz que, no ano passado, ameaçou me agredir depois de me dizer que eu não merecia respeito por ser gay. É dizer que, por mais que eles se sintam incomodados com a minha presença, eu continuarei vivendo a minha vida.

Ser gay apenas dentro de quatro paredes (do quarto ou das boates escuras) é dizer que, sim, seus filhos não estão preparados pra lidar com isso, vou continuar escondido nas sombras, e levar uma vida dupla, sendo o heterossexual que todos querem que eu seja. Viver uma vida dupla (assim como o Cláudio, personagem do José Mayer na novela “Império”) me transformaria num sujeito fragmentado. Não ter medo de expor a minha sexualidade é um ato significativo para mostrar que nós também devemos ter os mesmos direitos dos casais heterossexuais. É ser capaz de me posicionar de maneira MADURA e CONSCIENTE e poder combater cada um desses pequenos atos de homofobia (às vezes, em formato de piadas “inocentes”). É mostrar que não somos uma minoria qualquer que luta por privilégios, mas por cidadania.


Acho que esses pequenos atos de resistência, esses atos de “eu não concordo!”, são apenas o início do combate. É NÃO TER MEDO e escancarar a violência diária que sofremos. Combate à impunidade em favor da proteção à minha cidadania. E a minha vida. E a vida dos meus amigos, do meu namorado, dos meus conhecidos e dos desconhecidos. 

sábado, 3 de novembro de 2012

Asas cortadas



"— Bem, como vai a escola?

— Bem.

— Já pensaste nos teus planos? Acerca da faculdade? Não... quero dizer, planos de vida?

— Bem, ainda penso em tornar-me escritor.

— Ouve, Bobby, sempre tiveste uma forte imaginação. E eu nunca tive problemas com isso. Mas estás a chegar à idade em que tens que ser prático. Certo! Os sonhos são ótimos quando se é jovem, mas eles não tem realmente lugar no mundo real."

Diálogo entre Bobby Griffith e seu pai, Robert Griffith, no filme "Orações para Bobby" (Prayers for Bobby, 2009).



quarta-feira, 19 de setembro de 2012

As canções de amor




Você já amou
Pela beleza do gesto?
Você já mordeu
A maçã com todos os dentes?
Pelo sabor do fruto,
A sua doçura e seu gesto
Já se perdeu algumas vezes?

     Sim, eu já amei
     Pela beleza do gesto
     Mas a maçã era dura
     E quebrei os dentes.
     Essas paixões imaturas,
     Esses amores indigestos
     Deixaram-me mal disposto algumas vezes

Mas os amores que duram
Tornam os amantes exaustos,
E o beijo deles demasiado maduro
Apodrece-nos a língua

     Os amores passageiros
     Têm febres fúteis,
     E o beijo demasiado verde
     Esfola-nos os lábios
     Porque ao querer amar
     Pela beleza do gesto,
     O verme da maçã
     Escorrega-nos entre os dentes.
     Ele roe-nos o coração,
     O cérebro e o resto,
     Esvazia-nos lentamente

Mas quando ousamos amar
Pela beleza do gesto,
Esse verme na maçã
Que nos escorrega entre os dentes,
Toca-nos o coração,
O cérebro e deixa-nos
O seu perfume lá dentro

     Os amores passageiros
     Fazem esforços inúteis
     As suas carícias efêmeras
     Cansa-nos o corpo

Os amores que duram
Tornam os amantes menos belos
As suas carícias usadas
Dão cabo de nós

Música As-tu déjà aimé?
interpretada por Ismael (Louis Garrel) e
Erwann (Grégoire Leprince-Ringuet) em  
Les chansons d'amour.




Trecho do filme "Les chansons d'amour",
de Christophe Honoré

sábado, 21 de julho de 2012

Saindo do armário


Steven Carter  subiu ao palco para receber um prêmio por um artigo que escreveu sobre a juventude na sua cidade. Decidiu fazer um discurso:


“Eu estou muito orgulhoso... Eu estou muito... feliz por ter... vencido pela escola. Mas... hum... Sinto-me como um fracassado. Sabem, eu escrevi sobre como deve ser crescer para muitos de vocês, mas... há outro artigo que foi escrito e incluído no jornal da escola, mas foi... censurado porque era sobre um jovem garoto que... é gay. [Pausa] Eu... eu escrevi aquele artigo. Gostaria que o tivessem lido, assim poderiam entender. [Para si mesmo:] É tão difícil... [Para o público] Sinto-me cansado de estar completamente sozinho. Queria ter amigos que... que... que gostem de mim pelo que eu sou de verdade. Gostaria de ser parte de uma família que me ame pelo que eu sou e não... por alguém que eu finjo ser para poder manter o amor deles. Estou cansado de me esconder, de estar deprimido e... com medo. Vocês têm noção?! Deve ter mais alguém que se sente assim, como eu: fechado para dizer o que tem vontade. [Pausa]. Bem, obrigado por aprovarem meu artigo. Eu sou... eu sou gay [suspira aliviado]. Desculpa, mãe, pai: vocês podem apostar que vocês não são os únicos pais por aí que tem um filho gay. É só amor! Com que as pessoas se assustam? Obrigado por me ouvirem.”


Cena do filme "Saindo do Armário" (Get Real!, 1998), de Simon Shore. Foto do ator Ben Silverstone no momento do discurso. Queria poder falar mais da carga dramática da cena, mas não quero entregar spoilers do filme. 

terça-feira, 12 de junho de 2012

Vamos falar sobre sexo?



“Sexo é lindo”, um amigo sobre sexo.

“Não é porque eu quero só sexo que eu sou uma vadia”, uma amiga sobre sexo.

“Você está ficando inconveniente. Você só fala sobre sexo”, outro amigo sobre mim para mim.

“Amor é novela, sexo é cinema”, Rita Lee sobre sexo.

“Eu não vou no cinema hoje, não. É que eu quero assistir novela”, eu na segunda-feira.

“Que se dane a novela! Eu vou no cinema”, eu no sábado.

Se você não nasceu na horta de alface nem foi trazido pela cegonha, você nasceu a partir de uma relação sexual. Só por esse detalhe já me é estranho pensar porque o sexo é um tabu pra tanta gente. Sim, para algumas pessoas o sexo não é algo para ser discutido num churrasco em família. Política e eutanásia são até aceitáveis, mas sexo não! E apesar disso, viemos do sexo.

Acho que falar de sexo não é uma coisa agradável porque fazer isso é colocar limão e sal na ferida aberta. Sem sombra de dúvida, quase todas as discussões sobre sexo envolverão, além de outras coisas, religião, e as opiniões religiosas são defendidas mais fervorosamente que as opiniões futebolísticas.

— O sexo serve só para procriação. Não para o prazer. Prazer é coisa do diabo!

Falar de sexo também nos obriga a relembrar de um dos momentos em que estamos mais vulneráveis. Durante a prática sexual você talvez não se sinta frágil, mas colocar isso na mesa redonda é outra coisa. Não queremos expor nossas fraquezas nem nossas bizarrices pra todo mundo. Digo isso partindo do princípio de que até quem se gaba de se sair bem na cama tem momentos de fragilidade, e até aquela sua tia solteirona que anda de saia e vai à igreja todo domingo tem um fetiche de deixar seu queixo caído.

Tenho essa teoria porque eu já ouvi muito sobre sexo. Desde que eu me entendo por ser pensante, eu reflito — horas e horas — sobre isso. Quando eu era criança, meus ouvidos eram tampados para que eu não ouvisse certas coisas. Acho que isso atiçou ainda mais minha imaginação e curiosidade. Aos onze anos, tive uma aula sobre os significados de vários termos chulos. Como essa aula foi essencial! E na adolescência... ah, na adolescência!

Minhas ideias sobre sexo, assim como sobre diversos assuntos, eram conflitantes e eu comecei a me interessar pela opinião dos outros. Então, passei a questionar todo mundo sobre sexo. Antes eu preferia conversar com pessoas que eu não gostava: a ideia de que pessoas que eu amava tinham um lado sexual não entrava na minha cabeça. Hoje eu já consigo admitir que todos são sujeitos sexuais, mesmo sendo “virgens”.

E a partir dessas conversas e de muita pesquisa em livros e, principalmente, na internet — mais conhecida como “terra de ninguém” —, eu formulei a teoria de que todos temos fraquezas e bizarrices quando o assunto é sexo.

O sexo pode nos deixar fracos porque estamos despidos literalmente. Estamos sem a nossa segunda pele e estamos expondo todas as nossas vergonhas para outro alguém também cheio de vergonhas. E cada um está disposto a dar prazer para o outro, mas continua armado de todos os seus preconceitos e medos construídos durante toda a vida. Ou não! Talvez pra você o sexo seja algo simples, sem sentimentos, completamente corporal. Mas eu duvido que você permanecerá inabalável se a sua companhia questionar as suas capacidades ou as suas medidas anatômicas:

— Só isso?

— Você tava usando enchimento?

— Ai, o que é isso?

— Que cicatriz estranha!

— Sempre me disseram que era proporcional ao tamanho do nariz. Vejo que não é verdade.

Além das fraquezas, que é algo tão pessoal, temos nossas esquisitices. Tenho por mim que é por essas esquisitices que poucas pessoas admitem assistir algum filme pornô acompanhado: o que te excita talvez seja algo que provoque vômitos em mim. E quantos fetiches existem! Numa rápida pesquisa pela internet você encontra textos, fotos e vídeos de uma infinidade de modalidades sexuais que você sempre pensou serem fisicamente impossíveis. E tem que gente que a-do-ra! Deixe o preconceito de lado e procure algumas coisas. Talvez você perceba que não é o único que gosta disso ou daquilo.

Falar sobre experiências sexuais também é admitir que você faz sexo, e isso nem sempre é tão fácil. Já presenciei alguns poucos casos de vídeos caseiros de pessoas conhecidas fazendo sexo que vazaram para a internet. As pessoas ficaram mal faladas na cidade e tiveram suas vidas discutidas em todas as rodas de conversa. Por quê? Por que eles fizeram sexo? E você não faz, nunca fez ou nunca pensou em fazer? Ou seja, essas pessoas são escorraçadas por fazerem uma coisa que todo mundo faz. A única diferença é que eles gravaram. São moderninhos!

Nesses meus anos de pesquisa de campo também percebi o quanto ainda somos pessoas limitadas. Sim, todos nós impomos limitações a nós mesmos: heterossexuais, homossexuais ou bissexuais. Quando nos definimos dessa maneira acho que estamos perdendo uma grande parcela do que o sexo pode nos oferecer: é um corredor cheio de portas e nós escolhemos apenas uma para entrar?

Ficamos constrangidos quando estamos na sala com a família e de repente começa uma cena erótica na novela; ao mesmo tempo que ficamos excitados (em outro sentido) quando assistimos a uma cena de luta. Ficamos animados com a violência e envergonhados com o sexo: o mesmo sexo que fez com que você fosse concebido? É isso?

Penso que a finalidade desse texto seja plantar uma sementinha (sempre a sementinha!) na cabeça de cada leitor. Pensar sobre sexo, amor, violência, religião, vergonha. É bom parar um pouco e pensar de onde vem todas essas ideias que estão nas nossas mente: Por que fazer sexo assim? Posso fazer desse outro jeito? Se não posso, quem me disse isso? Quando me disseram isso? Por que eu tenho vergonha disso? Por que a religião quer assim e assado? O que é amor e o que é sexo? “Por que precisamos nos esconder para fazer amor, enquanto a violência é praticada em plena luz do dia?”.

Se quiser falar sobre sexo comigo, eu estarei de pernas orelhas abertas. Depois que uma pessoa me disse que tinha feito sexo com um extraterrestre e outra me perguntou se é possível engravidar pela boca eu acho que eu não me surpreendo com mais nada.

Obrigado pela atenção.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Cena de cinema

Foi um encontro totalmente inesperado. Não se encontravam há um tempo e evitavam lugares onde esse encontro seria inevitável. Se se encontrassem não saberiam o que fazer. Mas o destino está pouco se lixando para os seus desconfortos: fez com que tudo conspirasse a favor daquele encontro.

Um pensava no outro o dia todo: “Tenho que estar bem vestido quando ele aparecer” ou “Meu cabelo tá muito bagunçado?” ou ainda “Que cara idiota é essa que eu fiz agora?”. Mas, às vezes, os pensamentos voavam.

Pensavam na agenda, na rotina, nos estudos e, nessa hora nada propícia, os dois se encontraram. Levantaram a cabeça ao mesmo tempo e os olhares se cruzaram. Droga! Não dava nem pra fingir que eu não vi. Os olhos se arregalaram contra a vontade deles e os dois pararam um em frente o outro. Obrigado, destino!

Uma risada sem graça e um:

— Oi! Eh...! Tudo bem?

— Tudo, e você?

Isso é péssimo! Quando você não tem assunto, pergunta se está tudo bem na esperança de que o outro sugira algum tema para a conversa, mas ele te responde com um “Tudo, e você?”, jogando toda a responsabilidade pro seu lado.

— Ótimo. — Silêncio para pensar. — Eu... tava indo pra livraria e... Bem, muito tempo que a gente não se vê, né!

— Pois é. Não tô tendo muito tempo pra... Você tá passando bem? Por que você tá chorando?

— O quê? Hã? Não, eu... não tô chorando. É que eu tô com uma alergia de um... uma pomada. Eu...

— ?

— Olha, a verdade é que... — Nessa hora, olha decidido no olho do outro: — A verdade é que eu não tava nenhum pouco preparado pra te ver.

Uma pausa para que os sentimentos se organizassem. Depois, continuou num ritmo frenético:

— Sério! Naquele dia, eu disse que eu não gostava mais de você, mas... É impossível! Nada foi tão intenso quanto aquilo que tivemos juntos. Eu não consigo parar de pensar em você e talvez você esteja me achando um idiota por falar isso tudo, mas é que eu não consigo guardar as coisas, sabe? Eu tenho que falar olho no olho, senão... Ah, sei lá!

— Calma, calma! Tome fôlego. Não precisa ficar assim.

O outro fungou e gritou baixo (espero que saibam o que é gritar baixo):

— Ai, que raiva de você!

— Hã? Como assim?

— Você é um idiota! Essa sua pose.

— Pose? Não tô entendendo!

— Na verdade, ninguém me entende mesmo. Eu tenho raiva dessa sua pose, mas eu gosto de você. Que raiva! Eu tô com raiva de mim. E de você. Tô com raiva por você me deixar tão confuso. E eu tô com raiva de mim por não conseguir admitir que eu te amo.

— Mas você me ama?

— Vá pro inferno!

E saiu. Mas ele não está satisfeito com a sua cena.

— Tá, tudo bem — ele ainda grita de longe. — Eu assumo que eu gosto de você. Eu não consigo me “desapaixonar”, ok? Eu não consigo! É isso. Pronto, falei! Tá satisfeito?

O outro ria com o desconserto do outro.

— Para de me olhar desse jeito. Eu... eu não consigo parar de pensar em você... Eu já tentei te esquecer, mas é só eu olhar pra você que eu sinto uma bambeza nas pernas, um tremor... Os outros me acham um idiota por eu me entregar tão completamente a um sentimento, me descabelar, chorar, sentir ciúmes até o último fio de cabelo, mas... Eu sou assim, droga!

Ficaram alguns segundos se encarando.

— Eu te amo tanto. Tanto.

Virou-se para ir embora, mas aquilo não podia ficar por assim. Os romances tem que ser o mais melodramáticos possível. Tem que te arrepiar no final.

Um segurou o outro pelo braço e deu-lhe um beijo apaixonado.

E a cena termina com um beijo risonho, com dois corações aliviados e com uma sincronia que só existia entre aqueles dois.


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O Homem Perfeito


— Isso mesmo. Põe tudo pra fora!

Ele segurava o cabelo dela para trás enquanto ela vomitava na pia do banheiro feminino. Ela também tentava enxugar as lágrimas do choro.

— Se tá te fazendo mal, bota tudo pra fora!

Ela limpou o canto da boca, respirou fundo, levantou a cabeça e disse olhando nos olhos dele:

— Por quê? Por que ele me deixou?

— Ai, gente! Você ainda tá pensando naquele cara? Esquece isso. Ele não merece esse seu sofrimento, amiga. Homem não vale nada.

— Não, mas ele é diferente. Ele é perfeito.

— Ih, não! Enlouqueceu, mesmo, hein! Não existe homem perfeito.

— Existe, sim. Ele é atencioso, romântico, abre a porta do carro pra mim, puxa a cadeira pra eu sentar, manda flores...

— Isso existe ainda?!

— Tem mulher que não se importa com isso, mas eu me derretia a cada gesto delicado dele. — Dá um grito choroso. — Eu não merecia ele. Por isso ele me largou.

— Calma, bi! Daqui a pouco você encontra outro boy igual.

— Outro igual? Moreno, bonito, cheiroso, gostoso, com aquele peito forte e ombros largos? Você é que nunca sentiu o cheiro dele: aquele cheiro cítrico. Cheiro de homem...

— Gente, que fogo! Mas ele deve ter algum defeito. Não é possível.

— Eu já disse: ele é perfeito.

— Ele deve ter mau hálito.

— Claro que não. Ele tem um hálito fresco o dia todo.

Ele pensa.

— Já sei: ele deve ter uma amante. Claro! Nenhum homem consegue ser totalmente fiel.

— É claro que não. Ele disse que me amava e eu acreditava na sinceridade dele.

— Que ingenuidade, bi! É claro que ele dizia isso. Provavelmente, ele te traía com a secretária.

— Uma senhora evangélica, de 63 anos, viúva com cinco filhos?

— Uma prima? Uma prostituta?

— Ele não tem família, coitado. E eu tenho certeza que ele não se envolvia com essas mulheres da vida. A gente... sabe?... mais de cinco vezes por semana.

— Cinco vezes? Credo, mas... Nossa! Mas assim... ele é bom de cama?

— O melhor: carinhoso, ousado, criativo...

— Então, ele deve ter chulé.

— Eu já disse que ele cheira bem o dia todo.

— Fuma?

— Nunca fumou.

— Ronca?

— Dorme como um anjo.

— É viciado em jogo? Bate na mãe? Bebe demais?

— Não, não e não! Ele é perfeito como ser humano e como homem. Ele é bondoso, faz trabalho comunitário, é generoso e simpático; ele é bem-humorado e bonito. Ai, como ele é bonito! Os olhos claros, o sorriso branco, o corpo de homem. E tem cheiro de homem. Ele... — ela vira-se de costas e vê o amigo mexendo na sua bolsa. — O que você tá fazendo?

— Eu? Só vou pegar um número de celular na sua agenda. Peraí! É rapidinho.

segunda-feira, 8 de março de 2010

O mundo é colorido

Assim como as mulheres e os judeus, os homossexuais já foram perseguidos e mortos em algumas partes obscuras da nossa história. Antes, tudo era mais difícil. No século XX, a homossexualidade deixou de ser considerada doença. Agora, é apenas uma opção, orientação, escolha… Agora, tudo parece certo. Isso visto pelo lado de fora.

O preconceito contra os homossexuais continua até hoje. Algumas pessoas insistem em se comportar feito os homens dos primeiros tempos. Às vezes, não agridem fisicamente; talvez nem verbalmente. Apenas ignoram, mantem distância, fingem que esse “tipo de pessoa” não existe. E ainda tem a coragem de dizer que não são preconceituosos.

Desde criança, eu aprendi que a palavra “gay” quer dizer alegre. E, desde pequeno, convivendo com pessoas tão diferentes, fui aprendendo a aceitar as diferenças. Como eu poderia desprezar uma pessoa que todos chamavam de alegre?

A homossexualidade é apenas uma situação do destino. A ciência ainda não conseguiu provar, mas tem fortes teorias sobre a homossexualidade ser de origem genética. Já assisti a uma entrevista de um homossexual dizendo que “não escolheria ser gay para viver todo o sofrimento do preconceito”. Gostar de pessoas do mesmo sexo é a mesma coisa que gostar de outra do sexo oposto. É só uma diferença de gostos.

Quando se fala sobre esse assunto, lembramos de religião. Cada religião tem suas explicações para todos os assuntos. E a homossexualidade não é diferente. Já ouvi pessoas dizendo que “Deus não aceita essa aberração”. Eu me decepcionei quando ouvi isso de uma professora. E eu rebato dizendo que Ele aceita qualquer forma de amor. Esse sentimento entre pessoas do mesmo sexo é apenas uma maneira diferente de amar. Tantas pessoas gritam por amor, mas não conseguem aceitar algumas diferenças.

Também já ouvi que “hoje em dia, é moda ser gay”. Não é que é moda, é apenas o pensamento das pessoas que parece diferente, maduro. É muito mais fácil se assumir nos dias de hoje do que 30 anos atrás.

Outra discussão constante são os casais homossexuais nas novelas brasileiras. Não sei quando foi a primeira abordagem sobre esse tema, mas eu me lembro da primeira vez que eu vi. Uma briga enorme entre a novela e os conservadores que não queriam permitir um beijo entre dois homens na frente do Brasil inteiro. Diziam que aquilo influenciaria os jovens a ter comportamentos homossexuais. Nem preciso falar sobre esse comentário.

Isso também acontece ao vivo. As pessoas, às vezes, não se importam com um casal de namorados heteros, mas ficam constrangidas quando um casal gay se beija na sua frente. Num local público, são capazes de ir embora dizendo que “mundo está mesmo perdido”.

Apóio completamente as produções que mostram a homossexualidade como algo normal, que faz parte do nosso dia-a-dia. Isso me faz lembrar o filme “O Segredo de Brokeback Mountain”. Não sei medir a quantidade de vezes que eu ouvi alguém falar mal desse filme. Mas, na minha opinião, esse filme é importante para todos entenderem que o amor entre pessoas do mesmo sexo é uma coisa normal. O filme também mostra a dificuldade dos dois personagens se aceitarem. Eles sabem que são apaixonados um pelo outro, mas acham isso errado. Preferem levar uma vida “normal” que se torna monótona e sem graça.

A justiça deveria ser mais severa na punição para pessoas que agredissem de alguma forma, não só os homossexuais, mas qualquer outro ser humano que vive, que tem esperanças, que ama como todos os outros. E tem o direito de serem ouvidos e respeitados.

Hoje em dia, somos “obrigados” a viver, conviver, com pessoas diferentes em cor da pele, religião ou preferência sexual. E uma pessoa que não é capaz de aceitar isso como uma coisa normal, não tem espaço em nossa sociedade. E a tendência é que esses “conservadores” tão rigorosos caiam em desuso nos próximos anos. Tomara que algum dia todos eles vejam as diferenças no mundo.

domingo, 18 de outubro de 2009

A vez de Doraci

(David entra dentro de uma boate com seu amigo Juliano. É quinta-feira e os dois deixaram as esposas em casa para reviver os tempos de solteiro.)

DAVID: Cara, hoje eu quero beber o quanto eu mereço. Eu vou dormir num lugar qualquer só para Doraci não ficar reclamando.

JULIANO: Peraí, David. Você não disse que a Doraci tinha ficado em casa?

DAVID: Mas ela ficou. Eu nem voltei em casa depois do trabalho. Disse pra ela que ia ficar no escritório até amanhã de manhã.

JULIANO: Mas não é isso que estou vendo. (Juliano apontou para um balcão mais a frente.)

( Doraci estava com uma garrafa de vodka debaixo do braço, dançando em cima do balcão. David correu o máximo que pôde para chegar até a beirada do balcão.)

DAVID: (grita para sua voz sobressair ao som da música.) Doraci, o que você está fazendo aí em cima?!

DORACI: Eu estou dançando. Não está vendo?

JULIANO: O que é isso, David? Tem que impôr respeito. Desse jeito a Doraci não sai daí tão cedo.

DAVID: (GRITA) Doraci!!!!

(Doraci senta no balcão e desce.)

DORACI: Que foi, David? Não está vendo que eu estou tentando aproveitar a balada.

DAVID: Doraci, você é uma mulher casada.

DORACI: Você não pensou nisso na semana passada.

DAVID: Doraci, eu não acredito que você é desse tipo de mulher. Vingativa, que se apraz com a desgraça 
alheia.

DORACI: Vá se lascar. (Dançando, ela derruba um pouco de bebida no chão e escorrega. Cai nos braços de um homem desconhecido.)

HOMEM DESCONHECIDO: Ele está te incomodando, senhorita?

DORACI: Pode deixar. É meu marido. Esquece e vamos dançar.

(Doraci agarra-se na cintura de um go go boy e faz um "trenzinho" na boate.

JULIANO: Caraca, hein! A Doraci tomou todas hoje.

DAVID: Ela disse que eu sou o marido dela. Pois é isso que eu vou ser.

(David procura por Doraci no meio da dança. Juliano vai atrás. Uma mulher agarra sua cintura e ele não pode resistir: entra no "trenzinho". Juliano faz o mesmo.)

MULHER: Você vem sempre aqui?

DAVID: Minha filha, eu sou casado! Não está vendo a aliança?(Mostra a mão.)

MULHER: Não tem problema. Eu não tenho ciúmes.

JULIANO: (para a mulher.) Oi. Eu sou amigo dele. Será que...?

(David olhou para trás, mas os dois já tinham sumido. Ele continuou no trenzinho até achar Doraci escorada no ombro de um go go boy.)

DAVID: Solta ela, seu brutamontes. (David ameaça dar um murro.)

GO GO BOY: Calma! Não precisa desperdiçar seu tempo. É toda sua. (E jogou Doraci nos braços de David.)

DORACI: David... (Vomita na camisa de David.) Me desculpa... (Outra golfada.)

DAVID: Tá, Doraci! Tá! Quando a gente sair daqui, eu vou ter uma conversinha com você.

DORACI: Antes me responde uma coisa. O que você está fazendo numa boate gay?

DAVID: Gay?!

DORACI: É. Eu achei que aqui eu ficaria livre de homens inoportunos. (Vomita novamente.) Por isso eu vim pra cá.

DAVID: Eu não sabia que aqui... Peraí! E aquela mulher que saiu com o Juliano?