sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Eu não concordo


Dessa vez, eu não aguentei ficar calado.

Pela internet, eu acompanho a repercussão da morte de um menino de 18 anos, homossexual assumido, brutalmente assassinado em Inhuma, cidade do interior de Goiás. Um recado com a mensagem “vamos acabar com essa praga” foi encontrado na boca do rapaz e a polícia diz ser um POSSÍVEL caso de homofobia (http://migre.me/lApM7). Ao mesmo tempo, pela televisão, eu acompanhei as notícias sobre o incêndio criminoso no Centro de Tradições Gaúchas em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul, motivado pela realização de um casamento comunitário que incluiria um casal lésbico na celebração (http://migre.me/lApMK). Muita indignação e comoção nas redes sociais. E com razão!

A homofobia no Brasil não é crime e os gays ainda são acusados de sensacionalismo. Os crimes homofóbicos são tratados como crimes comuns, enquanto o número de morte dos LGBT só aumenta (Quem a homotransfobia matou hoje? - http://homofobiamata.wordpress.com/). As estatísticas nos saltam aos olhos, ao mesmo tempo em que somos colocados como uma MINORIA de rebeldes promíscuos lutando contra a família.

Os anos de opressão, os casos de violência, os assassinatos: tudo isso mete medo, faz a gente engolir seco. E esse medo, que nos relega aos guetos e aos becos escuros, nos faz ficar em silêncio e compactuar com um monte de argumentos homofóbicos, como o “eles podem fazer o que quiser, mas não na minha frente”. Esse é o objetivo desse texto.

Restringir a vivência da minha sexualidade às quatro paredes do meu quarto é como se eu desse razão ao indivíduo que diz “meus filhos não estão preparados pra ver isso”. Eu sei que não é fácil, não é simples — a família, os amigos podem colocar uma infinidade de obstáculos (cada um sabe das suas condições) —, mas é extremamente importante ter consciência do valor de sair do armário. Não para darmos satisfações da nossa vida sexual ao público, mas no sentido de dizer: eu não concordo com você!

Pode parecer implicância, mas algumas simples ações se tornam atos políticos. Dar um beijo em público, caminhar de mãos dadas pelo shopping, marcar relacionamento sério no Facebook com um rapaz é um gesto carinhoso, mas também uma resposta aos meus colegas de escola que me trataram por “boiola” e “bicha” como se eu tivesse alguma doença; é uma resposta a um homem que me jogou uma lata pela janela do carro me chamando de “veadinho”; é uma resposta a um rapaz que, no ano passado, ameaçou me agredir depois de me dizer que eu não merecia respeito por ser gay. É dizer que, por mais que eles se sintam incomodados com a minha presença, eu continuarei vivendo a minha vida.

Ser gay apenas dentro de quatro paredes (do quarto ou das boates escuras) é dizer que, sim, seus filhos não estão preparados pra lidar com isso, vou continuar escondido nas sombras, e levar uma vida dupla, sendo o heterossexual que todos querem que eu seja. Viver uma vida dupla (assim como o Cláudio, personagem do José Mayer na novela “Império”) me transformaria num sujeito fragmentado. Não ter medo de expor a minha sexualidade é um ato significativo para mostrar que nós também devemos ter os mesmos direitos dos casais heterossexuais. É ser capaz de me posicionar de maneira MADURA e CONSCIENTE e poder combater cada um desses pequenos atos de homofobia (às vezes, em formato de piadas “inocentes”). É mostrar que não somos uma minoria qualquer que luta por privilégios, mas por cidadania.


Acho que esses pequenos atos de resistência, esses atos de “eu não concordo!”, são apenas o início do combate. É NÃO TER MEDO e escancarar a violência diária que sofremos. Combate à impunidade em favor da proteção à minha cidadania. E a minha vida. E a vida dos meus amigos, do meu namorado, dos meus conhecidos e dos desconhecidos. 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Insuportáveis olhos castanhos


Que não seja imortal posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure
Vinicius
E, apesar de todo esse amor que eu sinto, você se transformou num pesadelo que me persegue à luz do dia, num fantasma que me atormenta, me acompanha como uma sombra. Não consigo me desvencilhar dessa perturbação...
Você sempre tão silencioso, chegou timidamente na minha vida por obra do acaso e se transformou no símbolo do meu egoísmo e da minha vaidade. Nossa amizade que durou alguns dias trouxe cortes profundos na sua pele, mas deixou rasgos dentro de mim: feridas que não cicatrizaram mesmo depois de todos esses anos. Você é a lembrança do quanto eu sou capaz de me preocupar apenas comigo mesmo, não me importando com a dor que eu causava ao ignorar seus sentimentos, passando por eles como que pisando em flores num jardim bem cuidado.
O que eu senti por você, naquele momento, foi uma pequena afeição que pouco significava pra mim. O seu sofrimento não me comovia; não sentia nenhuma gota de compaixão pela sua dor. Se você tomava antidepressivos pra conseguir dormir por causa das suas dores de amor... Pouco me importava.
Mas o seu silêncio, suas poucas palavras, sua timidez e esses seus insuportáveis olhos castanhos voltariam pra se vingar.
Você reapareceu com tatuagens no braço, com um sorriso radiante e de óculos de aro grosso. Sua beleza e o seu jeito tímido me deixavam encantado, mesmo que, naquela época, você não fosse tão hábil com as palavras. Nossa, naquela época... Ah, eu queria voltar à minha vida naqueles momentos antes de te conhecer, antes de ter sido enfeitiçado e ter caído apaixonado. Eu queria nunca ter te conhecido!
Eu poderia voltar no tempo e fazer tudo diferente: ter sido mais cauteloso; em último caso, nem ter te conhecido, nem ter feito esforço para te conhecer. Eu não teria sofrido tanto, eu não teria me jogado apaixonado no mesmo tempo que você, friamente, se afastava e eu me deixava com o rosto no asfalto: ou no chão sujo daquela boate. Todo esse sofrimento e essa dor que me incomodam não existiriam. Escrevi isso no meu diário uns meses atrás.
Nos dias em que eu chorava estirado na minha cama, só conseguia me lembrar da sua camisa suja de mostarda. Os seus olhos castanhos amendoados, enormes que me observavam e sorriam num movimento sincronizado ao dos seus lábios. Você aparecia nos meus sonhos e desaparecia. Tentou voltar, mas eu fui mais forte: resisti às suas investidas e me vinguei me entregando a outros corpos mais interessantes.
E eu não imaginava que poderia existir uma vingança ainda maior da sua parte...
Voltou tímido, silencioso (como de costume), de blusa marrom e sorriso largo na época que você estava lendo Jack Kerouac. O trauma da minha decepção anterior me deixou com os passos inseguros: fui pisando em ovos; fui cauteloso, com medo de escorregar nos cacos da minha vida espalhados no chão e cair mais uma vez.
O seu autocontrole e a maneira como você retribuía o meu carinho me deixaram mais confiante. E eu estive cego; na verdade, ainda não consigo ver muito bem atrás dessa neblina que embaça as lentes dos meus óculos. De um afeto inocente e egoísta, passando por uma paixão desenfreada e irracional, agora eu me encontrava completamente submerso num amor confortável, uma rotina que dava sentido aos meus dias, um fogo brando que, com muito esforço, conseguiu se manter aceso durante um tempo; esse calor que conseguia suprir todas as minhas carências, satisfazia todos os meus desejos...
E você preferiu jogar um pano grosso em cima dessas brasas. Mas teria sido melhor se você jogasse logo um balde cheio d’água: a coberta grossa controlou o essa chama durante um tempo, mas, depois, uma arfada de ar fez com que o fogo se espalhasse, queimasse o pedaço de pano e ficasse mais forte, incontrolável, insuportável... como seus olhos.
Eu poderia voltar no tempo e fazer tudo diferente: ter sido mais cauteloso; em último caso, nem ter te conhecido. Eu não teria sofrido tanto... Ai, não teria sofrido, mas também não teria amado. Não teria conhecido as nuanças do seu mal-humor matinal e não saberia do seu amor por sorvete de abacaxi e por Amélie Poulain; não teria te visto cantando uma música brega enquanto dançava nem teria sentido a emoção de sair daquela festa de mãos dadas com você; e também não teria aquelas lembranças da praia e não teria aprendido com você as belezas dos road-movies.
Eu te amo, mas eu amaria se eu deixasse de te amar. 

terça-feira, 11 de março de 2014

Lembranças


Quando a saudade aperta
É só fechar bem forte os olhos
Que logo ela escorre de mim.
Lucão

Enquanto, da minha janela, eu o observava ir embora na manhã de quinta-feira, também senti uma vontade enorme de fugir; queria ter pra onde me esconder, queria ter alguém que me mostrasse que caminho tomar: eu seguia meu caminho tortuoso e as circunstâncias me obrigavam a pegar um atalho inesperado. Na minha inocência apaixonada — ou na minha paixão inocente — fiz planos, e diante dos seus cacos espalhados no chão, pensei que esse seria o meu maior tormento... Mas as lembranças são ainda mais cruéis com os amores feridos.

Quando percebi, as lembranças já me engoliam, me levantavam e depois me afogavam como aquelas ondas do mar que enfrentamos de mãos dadas: assim como eu não conseguia resistir à força do oceano, meu fôlego era pouco para driblar as lembranças. Lembranças tão vívidas que eu podia sentir seus cheiros, suas texturas, seus sabores. Ainda posso.

Elas me atacavam no meio da tarde ou durante o sono trazendo a sua imagem diante dos meus olhos marejados. Lembrava-me de como era vê-lo todos os dias e, mesmo assim, ter a sensação de que era a primeira vez; de como eu nunca soube lidar com o seu cheiro inebriante, eu embriagado, sorrindo bêbado apaixonado.

As lembranças me mostravam seu sorriso de timidez que semicerrava os olhos e escondia os dentes; depois, sorriso branco iluminado. E ainda os sussurros com aquela voz grave e macia como lençóis limpos, que acariciavam meus ouvidos: e eu mais uma vez estonteado, trocando os passos. A mesma voz, que mais tarde embriagada, gritava meu nome no metrô, na calçada, de braços abertos olhando pro mar: o mesmo mar que sempre me trará tais lembranças. Como não ter saudade também dos silêncios, das intenções combinadas que dispensavam as palavras, que nos desobrigavam das roupas, que nos envolviam em suores.

Os cabelos bem cortados, a nuca, a única parte do corpo que eu admirava enquanto o olhava de longe; a blusa marrom que pedia pra enfiar-me debaixo dos seus abraços; à distância, os seus beijos de lembrança no fim das minhas tarde eram como borrifadas de um perfume bom: fugazes e prazerosas.

Minha memória estupidamente perfeita me lembrava da mão carinhosa sob meu queixo, escondida pela meia-escuridão do cinema, que me deixou com a mão suada, incapaz de ler as legendas do filme. Aquele dia quente que teve gosto de chocolate, de novidade, de vinho e de confissões.

E os beijos... Inéditos. Foi com ele que descobri como comunicar-me pelos lábios, mostrar-lhe os meus sentimentos pelos beijos: desde os mais puros, delicados como uma flor, até os mais atrevidos, com muita língua e pouco fôlego. Beijos salgados e cheios de areia, beijos tímidos cochichados, beijos desesperados pelas despedidas, beijos com o gosto do café da manhã. Beijos roubados, trocados, pedidos, vendidos e comprados, tendo outros como moeda. E na quinta-feira pela manhã... Eu teria me demorado mais se eu soubesse que aquele seria nosso último beijo.

Atormentado, não conseguia avaliar o tamanho do meu esforço para apagar todas essas lembranças: tentando me consolar, eu já conseguia enxergá-las, ali num futuro próximo, todas acinzentadas, incapazes de me causar qualquer dano. Depois de horas de suor frio e banhos quentes, soube que eu não seria capaz. Eu não conseguiria e não quereria apagar as lembranças mais doces desses tempos. Eu não saberia como esquecer a camiseta laranja do nosso primeiro beijo e do nosso último abraço: eu não quero esquecer. Não me deixe esquecer. Eu não vou me deixar esquecer. Eu não vou deixar de sentir isso que eu sinto por você. Deixa eu segurar sua mão.