quinta-feira, 16 de junho de 2011

Doce

Não tinha nada pra fazer. Fui à livraria. Você não imagina o quanto eu gosto do clima das livrarias. Aquelas pessoas com cara — pelo menos cara — de inteligente.


Peguei um livro qualquer e sentei numa daquelas mesinhas que ficam lá no meio. Tava super concentrada na história.


— Alice? Alice?!


Demorei muito tempo pra perceber que era comigo. Levantei a cabeça e vi um rapaz de óculos, cabelo cortado, pele clara e um sorriso brilhante. Olhei para trás, pra ter certeza de que era comigo que ele falava.


— Eh... Eu... te conheço?


Eu já tava preparada pra uma revelação bombástica: só faltava ele ter me conhecido naquela festa de aniversário que eu fiquei bêbada e dancei funk até o chão.


Dei um jeito no cabelo e meu rosto estava pegando fogo.


— Meu nome é Fábio. Não se lembra de mim? — (A voz dele era linda).


Fábio? Ai, que maravilha! Não me lembro de nenhum Fábio. Só lembrava de um nerd idiota, feio até não poder mais e que me implicava todos os dias na escola. Mas isso era um passado remoto!


Eu tava com medo de demonstrar alguma coisa pelas expressões do meu rosto. Mas não tinha outro jeito.


— Fábio?... — eu gemi o nome dele. Ficou parecendo que o simples ato de pensar me doesse. — Ahn... sinceramente...


— A gente estudou junto na 8ª série! Você não deve estar lembrada por que eu usava aparelho nos dentes. — E deu um sorriso largo.


Eu não sei muito bem como ficou a minha cara, mas tenho certeza que eu demonstrei todo o meu espanto. Aquele nerd desgraçado que colocava o pé na minha frente e colou chiclete no meu cabelo tinha se transformado... num deus. De sapo a príncipe encantado!


Eu olhei para minhas mãos e dei graças a Deus por não estar lendo “Crepúsculo”. Pelo que eu me lembrava, o Fábio era muito inteligente. O que ele pensaria de mim se eu estivesse lendo esses livros fúteis de adolescentes melosas? O pior é que eu lia esses livros fúteis e era uma adolescente melosa!


— Ah... Mas é claro! Eu me lembro! É que você tá tão... — “Não diga bonito, pelo amor de Deus!” — diferente.


Ele sorriu. Ai, meu Deus! Ele deve adorar mostrar esses seus dentes brancos e perfeitos. O pior é que eu tava encantada por aquele ar superior, mas despreocupado... Eu estaria mentindo se não dissesse que a sua pele também não contribuía para meu encantamento.


Eu percebi que estava com a boca aberta. Feito uma boba. Só faltava babar na frente dele. Credo!


— Muito tempo que a gente não se encontra! E aí, o que você anda fazendo?


E foi daí que a conversa fluiu. Eu não sei como. Foi indo naturalmente. Relembramos histórias antigas e eu ri da vez em que ele tinha pregado um papel nas minhas costas escrito “Me chute!”.


E ele ria alto.


A gente resolveu sair da livraria antes de levarmos uma bronca e nos sentamos numa lanchonete do shopping. A gente sentou ali e ficou olhando um para o outro e rindo. Como é que nenhum tinha notado um ao outro antes?


E conversamos muito! Tinha as antigas histórias que aumentavam nossa cumplicidade e as novidades que atiçavam a curiosidade um do outro. O ar saudosista que ele contava as histórias da 8ª série deu-me a impressão de que ele gostava de mim naquela época.


Ele me implicava por que gostava de mim? Nossa! Depois as mulheres que são complicadas!
Ele se ofereceu pra pagar um sorvete.


— Eu lembro que você sempre comprava uma casquinha na hora do recreio.


Seguimos para a saída. Eu não queria que aquilo terminasse. Eu sabia que se a gente se separasse e nos encontrássemos por acaso numa festa, ficaríamos como dois completos desconhecidos. Isso já tinha me acontecido antes.


Ele pegou um pouco de sorvete com a colherzinha e caiu tudo no chão. Eu dei uma risada estranha. Como eu posso ser tão retardada? Ele olhou pra mim e riu.


E continuou a rir.


— Tá rindo do que? — eu perguntei.


Ele fez um sinal para a minha bochecha. Ai, meu Deus. Passei a blusa no rosto, mas não tinha nada sujo. Ele ria. Estendeu a mão e passou o dedo no canto da minha boca. Calda de chocolate! Ele lambeu o dedo.


Eu nem sei como foi depois. Só lembro que ele segurou minha cabeça e puxou-a para o seu lado e o caminho terminou num beijo. Um beijo doce e gelado!


Despedimo-nos.


— A gente vai se encontrar — ele me garantiu.


Passei dois dias sonhando com aquela tarde perfeita. A campainha tocou. Era um embrulho. Eu abri e lá dentro tinha um exemplar do livro que eu tava lendo quando o Fábio me chamou lá na livraria. Uma dedicatória apaixonada e um papel com o telefone dele.

3 comentários:

Jota disse...

Eu queria ser um Fábio da vida :D

Adoro suas crônicas, cheia de detalhes, sem contar que são histórias incríveis.

Abraçooos :D

me disse...

AHHHHH! ameii *-*. aii, eu adoro historiias ro *-* bjos amor sz
by Gabii ciribelli

Ériquinha ' ♥ disse...

aiii amei.
Queria ser uma Alice!!
*-*