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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Vinte e um ano de estradas


Em todos esses anos, já encontrei desde estradas bucólicas e desniveladas até grandes rodovias asfaltadas que se estendem até onde o sol encontra a Terra. De uma estrada para a outra, vislumbrei muitos jardins, é claro, mas eles eram menos frequentes: encontrei mais caminhos esburacados, feios, com imensos lamaçais que me faziam atolar e não me deixavam prosseguir.

Eu sempre tentei ser um viajante forte e determinado: não sabia muito bem onde iria chegar, mas encarava os obstáculos com empenho elogiável. Atravessei riachos tênues que desfilavam por entre os pequenos pedregulhos, mas, como todas as pessoas, tive que quebrar imensas rochas vermelhas ou subir até a copa de árvores centenárias para prosseguir meu caminho. Mas, às vezes, eu tive vontade de desistir: sentar numa pedra na beira da estrada e chorar foi inevitável.

Cada obstáculo me ensinava coisas novas. Aos onze anos, eu já tinha que abrir os meus próprios caminhos no meio da mata fechada; era sufocante, angustiante, solitário. Mas, depois, quando outras florestas apareceram na minha frente, cortar alguns galhos e enfrentar alguns animais já me era menos traumático. Com frequência eu tentei olhar para esses maus momentos como lições pelas quais eu tinha que passar para saber lidar com situações semelhantes mais a frente. Mas nem sempre era assim: quando somos jovens, nos achamos o centro do universo e, algumas vezes, achamos que todos esses percalços são castigos dados a nós. Somente a nós!

Pensamos que passamos por esses maus momentos porque fomos destinados a isso. Eu já estava conformado: eu era uma pessoa destinada ao sofrimento, à solidão, ao fracasso. Alcancei pequenas conquistas no caminho, fiz amigos eternos e outros que nunca mais encontrarei, mas a minha sina era ter um caminho tortuoso até o fim dos meus dias.

Porém, não há nada como um passo após o outro.

Essa ansiedade da juventude faz com que sempre olhemos para frente, para o futuro; sofremos por antecipação sabendo o que outras pessoas já passaram. Evitamos o sofrimento; arranjamos atalhos na nossa caminhada...

Com a experiência, entretanto, eu percebi que, para podermos seguir em frente, precisamos voltar por alguns caminhos já percorridos. Voltar às mesmas pedreiras, aos mesmos desertos, às mesmas cascatas e saber que não mais nos machucaremos ali: eu consegui superar esses obstáculos e já posso me perdoar.

Eu aprendi que o lado de fora da caverna é angustiante, mas muito mais colorido. Eu preciso voltar aos caminhos tortuosos pelos quais passei, aqueles que me deixaram profundas cicatrizes e traumas, para entender alguns porquês.

Eu preciso me reconciliar com minha estrada: é preciso entender as lições, empreender algumas pequenas vinganças e ser capaz de perdoar o meu destino e, o mais importante, perdoar a mim mesmo!

Eu quero voltar em alguns lugares e enxergá-los com outros olhos: olhos que já vislumbraram paisagens exuberantes, cataratas monumentais e um grande cânion e ver que há beleza no meu passado. Colocar um pouco de cor nesse turbilhão de lembranças em sépia.

Nada como uma estrada à nossa frente!

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Por que não me cativas?


“Mas aconteceu que o pequeno príncipe [...] descobriu, enfim, uma estrada. [...]

Bom dia! disse ele.

Era um jardim cheio de rosas.

Bom dia! disseram as rosas.

Ela as contemplou. Eram todas iguais à sua flor.

Quem sois? perguntou ele, espantado.

Somos as rosas. responderam elas.

Ah! exclamou o principezinho...

E ele se sentiu extremamente infeliz. Sua flor lhe havia dito que ela era a única de sua espécie em todo o universo. E eis que havia cinco mil, iguaizinhas, num só jardim!

‘Ela teria se envergonhado’, pensou ele, ‘se visse isto... Começaria a tossir, simularia morrer para escapar ao ridículo. E eu seria obrigado a fingir que cuidava dela; porque senão, só para me humilhar, ela seria bem capaz de morrer de verdade...’

Depois, refletiu ainda: ‘Eu me julgava rico por ter uma flor única, e possuo apenas uma rosa comum. [...] Isso não faz de mim um príncipe muito poderoso...’

E, deitado na relva, ele chorou.

E foi então que apareceu a raposa: [...]

A gente só conhece bem as coisas que cativou disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo já pronto nas lojas. Mas, como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. [...]

Depois ela acrescentou:

Vai rever as rosas. Assim compreenderás que a tua é única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te presentearei com um segredo.

O pequeno príncipe foi rever as rosas:

Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes ninguém [...] Sois belas, mas vazias continuou ele. [...] Um passante qualquer sem dúvida pensaria que a minha rosa se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que todas vós, pois foi ela que eu reguei. Foi ela que pus sob a redoma. Foi ela que abriguei com o para-vento. Foi por ela que eu matei as larvas (exceto duas ou três, por causa das borboletas). Foi ela que eu escutei se queixar ou se gabar, ou mesmo calar-se algumas vezes, já que ela é a minha rosa.

E voltou, então, à raposa:

Adeus... disse ele.

Adeus disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. [...] Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante. [...] Os homens esqueceram essa verdade disse ainda a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...

Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, para não se esquecer.”

domingo, 13 de maio de 2012

Coisa de filho



“Tenho às vezes vontade de ser novamente um menino, 
e na hora do meu desespero gritar por você; 
te pedir que me abrace e me leve de volta pra casa,
 e me conte uma história bonita e me faça dormir.”

Eu amo essa mulher! Somos praticamente da mesma geração e a pouca diferença de idade fez com que criássemos entre nós uma enorme cumplicidade. Sabemos o sentimento de cada um só pelo olhar; a gente não consegue esconder mentiras um do outro e é só ela me dar aquela olhada para eu saber que já tá na hora de ficar calado.

Todos nós, alguma vez na vida, já tivemos conflitos com nossas mães, mas a gente amadurece. Cresce, amadurece e aprende a dar valor nessas mulheres. A gente cresce, amadurece e percebe que podemos aprender tantas coisas com elas.

Minha mãe foi quem me ensinou a cuidar da casa, quem pegou na minha mão quando eu ainda treinava minha coordenação motora no jardim de infância, quem me explicou por telefone como fazer arroz.

Foi ela quem me ensinou que não se pode falar mal dos outros, que algum dia todos nós podemos precisar dos nossos vizinhos e que eu não posso entrar no rio depois de ter almoçado.

De uma forma natural, nós dois fomos nos aproximando cada vez mais e nos tornamos amigos. E a gente conversa como amigos conversam! Já discutimos tentamos descobrir em que novela a Adriana Esteves e o Marco Ricca se conheceram, onde foi parar o meu cachorro de pelúcia e em que DVD tem aquele clipe do Phil Collins.

Como é grande o meu amor por essa mulher! Nós do sexo masculino adoramos ser mimados quando estamos doentes, e minha mãe faz isso como ninguém. Como daquela vez que eu fiquei sem voz durante um final de semana e minha mãe me levava chá de hortelã na cama.

Isso sem falar no que ela já fez em tempos remotos da minha vida: sentiu dores nas costas enquanto eu crescia dentro da sua barriga; aguentou os meus berros (sim, eu berrava!) durante muitos anos; trocou minhas fraldas e vestiu meus macacõezinhos; penteou meu cabelo e me ensinou como me vestir; colocou comida na minha boca; me levou no hospital; e mais uma infinidade de coisas. E nunca me cobrou nada. Nunca me jogou na cara que fez tudo isso por mim e que era minha obrigação ser assim ou assado. 

Para os outros, minha mãe pode parecer séria. Sim, ela é séria. Se minha mãe não fosse tão rigorosa talvez eu não tivesse aprendido tudo que ela me ensinou: tem que ter disciplina, dedicação, esforço.

Sim, ela é séria. Mas ela também é uma comédia. Sua risada é estridente (o que eu peguei por DNA!) e sua dança é estranha. E como ela é amorosa! Acorda durante a noite pra passar a mão no meu cabelo, me dá um abraço forte quando nos encontramos e tem muita calma quando estamos estressados. Mas também é muito estressada quando todos nós estamos calmos.

Minha mãe é meu porto seguro. Quando parece que o mundo vai desabar, minha mãe vem com uma voz mansa e uma palavra calma pra pôr tudo no lugar. Isso às vezes me tira do sério, mas, no fim, era isso que eu precisava.

“Tenho às vezes vontade de ser novamente um menino; 
muito embora você sempre acha que eu ainda sou. 
Toda vez que eu te abraço e te beijo sem nada dizer, 
você diz tudo que eu preciso escutar de você.”

Te amo e não há nada nesse mundo que diminuirá o que eu sinto.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Pedido de Natal


Entrar no shopping era como mergulhar num mar de luzes coloridas que piscavam esquizofrenicamente. As lojas oferecem as melhores condições de pagamento, querem aproveitar o seu 13º e estão todas decoradas de verde e vermelho.

Um Papai Noel está sentado no centro do shopping esperando que as crianças se postem ao seu lado (ou sentem no seu colo), façam seu pedido, tirem uma foto e saiam satisfeitas com o seu Ho-ho-ho!

Um menino de cabelos enrolados, olhos esbugalhados e um sorriso babão estava encantado com a chance de poder fazer seu pedido direto para o Papai Noel.

— Pai, ele veio do Pólo Norte?

— Veio, meu filho — o pai respondeu.

Era a vez do menino subir no colo do Papai Noel. Ele correu e deu um salto que foi amortecido pelo enchimento na barriga do ator contratado: um estudante de teatro que dividia o quarto da república com três colegas e tentava sobreviver com os auxílios da universidade.

— Papai Noel, eu fui obediente o ano inteiro! — o menino disse orgulhoso.

— Ho-ho-ho! Então, essa é a hora de você fazer o seu pedido. Quem sabe eu não entrego o seu presente pessoalmente na noite de Natal!

O menino ficou calado.

— Diga, meu filho — o Papai Noel o incentivou —, qual é o seu pedido?

— Papai Noel, eu quero mil reais!

— Ho-ho-ho! — Foi uma risada sincera. Aí, o Papai Noel ficou sério e disse pro menino: — Todos querem, meu filho. Todos querem...

O menino saiu do shopping com uma foto na mão sem entender o que o Papai Noel quisera dizer.

domingo, 4 de dezembro de 2011

A Gorda



[ou “A Rechonchuda” para os politicamente corretos]

Não tenho nada contra quem está acima do peso e essa história nem é tão interessante quanto outras, mas, se alguém me perguntasse o motivo de eu ter gasto o meu tempo com essa gorda, eu responderia... Não sei! Na verdade, eu nunca tinha vista mais gorda. Mas ela é uma daquelas personagens que eu encontro na rua e não me saem da cabeça. É uma das personagens que precisam ter suas histórias contadas.

Cinco horas da tarde e o sol está insuportável! Não é como o sol quente do meio-dia, é um sol que entra por todos os nossos poros e nos impede de respirar. É um mormaço que faz com que você chame todos os santos para que o ônibus chegue o mais rápido possível; é um mormaço que faz com que você se sinta como se estivesse numa estufa de boteco de esquina.

E foi justamente de uma dessas estufas que saiu o salgado que a gorda comia. Sentei-me ao lado dela no ônibus enquanto ela mordia o risole e bebia guaraná. O óleo ultrapassava o guardanapo fino e escorria entre seus dedos roliços, enquanto o cheiro de fritura entrava pelas minhas narinas quase impossibilitadas de respirar por causa do calor. Aquilo me revirava o estômago.

Ela terminou o salgado e limpou os dedos no guardanapo quase transparente e bebeu o resto de refrigerante numa única chupada no canudinho. O ônibus se aproximava do ponto em que ela deveria descer e eu atrapalhava a sua passagem. Ela se virou para mim e disse mal-humorada:

— Sai que eu quero descer!

Educação mandou lembranças... Saí como ela tinha mandado e quase pedi desculpas por eu existir. E ela desceu com a mesma cara amarrada e com a mesma delicadeza com que ela tinha me pedido passagem.

Para terminar, uma menininha de uns 6 anos gritou:

— Olha, vó! É aquela mulher ali, ó. É mais gorda que a senhora.

Ai, ai... a sinceridade das crianças.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

19


— Você me dá "As Crônicas de Nárnia" de presente de aniversário?

— Nossa! Mas é muito caro. Deve ser uns R$100!

— Mas no Submarino tá de promoção. Eu acho que tá R$29,90!

— Ih, mas eu não tenho cartão de crédito.

— Eu te empresto o meu. É só você pagar o boleto.

— Ai, Lucas! Não faz pressão!





domingo, 14 de agosto de 2011

Meu pai é foda


Eu amo esse homem! Eu admiro e me espelho nesse homem desde sempre. É engraçado como é essa ligação de pai e filho. Principalmente de uns anos pra cá eu percebi que meu pai é um super herói. O meu super herói! O homem mais forte do mundo, que não tem medo de nada e que enfrentaria todos os monstros por mim. Ele é o cara!

Meu pai é o homem cheio dos pensamentos profundos, das frases feitas e das piadas prontas. E eu, que não sou bobo nem nada, aprendi muita coisa com ele. Eu acho que ele nem tem consciência de tantas coisas úteis — e inúteis — que ele me ensinou.

Meu pai é o homem que me ensinou que cabeça vazia é a oficina do diabo e que homem de chinelo vale a metade. Foi ele que me ensinou que não se deve dizer c* doce e sim ânus glicosados.

Foi ele quem me explicou o que era motel, marmelo e cheque especial; que disse que Big Brother e Copa do Mundo é tudo combinado; e que o sangue na televisão é de ketchup.

É esse homem que tem métodos maravilhosos contra fobias, como deixar uma pessoa (eu) no meio do mato, à noite, sem nenhuma lanterna. E ele é o único que me acorda puxando o meu pé ou batendo na parede do meu quarto.

Foi com o meu pai que eu aprendi que doce tem que se comer muito. Não é só um pedacinho de nada, não! Tem que comer pra encher a boca, como se fosse uma segunda refeição.

E foi meu pai que me levou na carroceria do carro no meu primeiro dia de aula; era ele que eu chamava pra me ajudar nos exercícios de matemática da 6ª série; foi esse homem que me salvou de morrer sufocado quando eu tinha poucos meses de vida; foi ele que me apoiou em todas as minhas decisões — inclusive mudar para uma cidade grande pra me formar professor.

— Ah, menino! Dá ‘seus pulo’!

Foi meu pai quem me colocou em cima de um cavalo pela primeira vez, que me deu um caqui verde pra comer, que me treinou pra ver piada em tudo.

E tudo que eu vou fazer na minha vida eu penso: “Meu pai disse isso e aquilo. Eu posso confiar nele. Cegamente.”

— Nossa! Pra burro só falta ‘as pena’.

— Uai, pai! Burro não tem pena.

— Então, já é um burro completo.

Meu pai é fodasticamente foda. Eu sou o fodinha.

Te amo!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Eu sou criança


[Eu vi esse texto numa comunidade do Orkut e... Ah, não tenho nem o que dizer!]
"Eu sou criança. E vou crescer assim. Gosto de abraçar apertado, sentir alegria inteira, inventar mundos, inventar amores.

O simples me faz rir, o complicado me aborrece. O mundo pra mim é grande, não entendo como moro em um planeta que gira sem parar, nem como funciona um fax. Verdade seja dita: entender, eu entendo. Mas não faz diferença, os dias passam rápido demais, existe a tal gravidade, papéis entram e saem de máquinas, ninguém sabe ao certo quem descobriu a cor. (Têm coisas que não precisam ser explicadas. Pelo menos não para mim).

Tenho um coração maior do que eu, nunca sei minha altura, tenho o tamanho de um sonho. E o sonho escreve a minha vida que às vezes eu risco, rabisco, embolo e jogo debaixo da cama (pra descansar a alma e dormir sossegada).

Coragem eu tenho um monte. Mas medo eu tenho poucos. Tenho medo de Jornal Nacional, de lagartixa branca, de maionese vencida, tenho medo das pessoas, tenho medo de mim.

Minha bagunça mora aqui dentro, pensamentos dormem e acordam, nunca sei a hora certa. Mas uma coisa eu digo: eu não paro. Perco o rumo, ralo o joelho, bato de frente com a cara na porta: sei onde quero chegar, mesmo sem saber como. E vou. Sempre me pergunto quanto falta, se está perto, com que letra começa, se vai ter fim, se vai dar certo. Sempre questiono se você está feliz, se eu estou bonita, se eu vou ganhar estrelinha, se eu posso levar pra casa, se eu posso te levar pra mim.

Não gosto de meias-palavras, de gente morna, nem de amar em silêncio. Aprendi que palavra é igual oração: tem que ser inteira senão perde a força. E força não há de faltar porque – aqui dentro – eu carrego o meu mundo.

Sou menina levada, sou criança crescida com contas para pagar. E mesmo pequena, não deixo de crescer. Trabalho igual gente grande, fico séria, traço metas. Mas quando chega a hora do recreio, aí vou eu… Escrevo escondido, faço manha, tomo sorvete no pote, choro quando dói, choro quando não dói. E eu amo. Amo igual criança. Amo com os olhos vidrados, amo com todas as letras. A-M-O. Sem restrições. Sem medo. Sem frases cortadas. Sem censura.

Quer me entender? Não precisa. Quer me fazer feliz? Me dê um chocolate, um bilhete, uma mentira bonita pra me fazer sonhar. Não importa. Todo dia é dia de ser criança e criança não liga pra preço, pra laço de fita e cartão com relevo. Criança gosta mesmo é de beijo, abraço e surpresa!

(E eu – como boa criança que sou – quero mais é rasgar o pacote!)"

Fernanda Mello

sábado, 2 de julho de 2011

Uma (boa?) notícia

(Doraci tinha marcado um encontro com David. Precisavam ter uma conversa muito séria. O encontro era às 8 no sofá da sala).

DAVID: E então, Doraci... Tô aqui!

DORACI: Pois é...

DAVID: E... então?

DORACI: O que eu tenho pra te falar é uma coisa muito... delicada.

DAVID: (apreensivo) Doraci, não me diga que você... Não, Doraci! Eu não vou aguentar. Eu prefiro permanecer na ignorância. Não me conte dos seus casos extraconjugais. Eu junto as minhas coisas e...

DORACI: Eu não disse nada disso, David.

DAVID: Mas você disse que era delicado.

DORACI: Só por causa disso você acha que eu te traí.

DAVID: ... não sei. Mas o que é, então?

DORACI: É que... eu tô grávida.

(pausa)

(pausa)

DAVID: Como é que é? Eu não entendi direito!

DORACI: Eu tô grávida.

DAVID: Grávida “grávida”? Você tá esperando um bebê?

DORACI: Pelo menos eu acho que esse é o significado de estar grávida.

(David escorou na parede e sentou-se no sofá com a mão no peito).

DAVID: Ai, meu Pai! Eu não vou aguentar isso. Eu não tô passando bem, não. Não estava preparado pra receber uma notícia dessas assim, Doraci.

DORACI: Deixe de ser exagerado.

DAVID: Eu acho que minhas vistas estão escurecendo.

DORACI: Pare com o drama, David. Não vai ser você que vai passar nove meses carregando um bebê dentro de você. Não vai ser você que vai engordar 15 quilos e ainda ter que acordar todas as noites durante muitos meses pra dar de mamar ao nosso filho.

DAVID: Doraci, que falta de sensibilidade! Eu sou o homem dessa casa. Será mais uma boca para eu alimentar. Será uma pressão no trabalho: eu estou pensando seriamente em procurar outro emprego. Esse que eu estou não é suficiente para sustentar uma criança.

DORACI: Ai, Cristo! Nós vamos ter um bebê e não um hipopótamo de estimação!

DAVID: Berço, fraldas, mamadeiras, bicos, babás, carrinho, leite... E OS ESTUDOS DA CRIANÇA!

DORACI: David, nós não vamos pôr nosso filho na escola com dois dias de vida.

DAVID: Eu não aguento essa pressão.

(Toca a campainha).

DAVID: Não estou em condições de receber visitas, Doraci.

DORACI: Mas vai ter que estar. Eu acho que é a mamãe.

DAVID: DONA ESPERANÇA? Ah, não, Doraci! E ela já sabe...?

DORACI: Vamos dar a boa notícia agora.

(Doraci abriu a porta. Dona Esperança entrou e deu um abraço na filha. Fechou a cara quando viu o genro deitado no sofá).

ESPERANÇA: Depois eu falo que é um vagabundo e ainda acha ruim. (Vira-se para Doraci). E, então, minha filha: você me disse que tinha uma notícia para me dar!

DORACI: (sorrindo) Tenho! Eu estou grávida.

ESPERANÇA: (Abraçando a filha) AAAAAHHHH! QUE LINDO, MINHA FILHA! MEUS PARABÉNS! Que felicidade que eu estou.

DORACI: Que bom que a senhora ficou feliz.

ESPERANÇA: Mas você tá grávida de quem?

(pausa)

(pausa)

DORACI: Er... Como assim, mamãe?

ESPERANÇA: Ora! Quem é o pai da criança?

DAVID: Como assim, dona Esperança?

ESPERANÇA: Cala a boca aí! A conversa ainda não chegou na senzala.

DORACI: Mãe, que pergunta mais... sem cabimento! Como assim? O filho é do meu marido: do David!

ESPERANÇA: Oh, minha filha! Eu não devo ter te ensinado as coisas do jeito certo. Como é que você se deixa engravidar por um paspalho desses? O Carlos Henrique, um médico tão famoso, tá lá todo disponível e você se contenta com um operariozinho de meia pataca? Qual será a próxima vez que você poderá ficar grávida?

DAVID: Que que isso, dona Esperança? Oh, Doraci, eu não vou deixar a sua mãe ficar me esculachando na minha frente.

DORACI: É, mãe! O David tem razão. Eu escolhi o David...

ESPERANÇA: Escolheu errado! Você deve ter o dedo podre.

DORACI: Nossa, mamãe. Eu tô sentindo como se a senhora não se importasse com meus sentimentos.

ESPERANÇA: É claro que eu me importo com seus sentimentos. Você vai se sentir muito ruim quando estiver passando fome por causa da incompetência desse seu marido.

DAVID: Oh, dona Esperança, a senhora tá lembrada que eu tô aqui.

ESPERANÇA: É a mesma coisa de não ter ninguém.

DAVID: Olha, aqui. Eu não vou admitir que a senhora fale assim comigo, sua... sua velha.

ESPERANÇA: Velha é a senhora sua mãe. Quer dizer... se você tiver mãe, né. Deve ser filho d’uma parideira qualquer.

DAVID: O QUÊ? A senhora que não consegue admitir que a sua filha é muito mais feliz comigo do que ao seu lado.

ESPERANÇA: Mais feliz ao seu lado? Hahahaha! Não me faça rir! Você nem... comparece, né!

DAVID: Olha quem fala! Há quanto tempo a senhora tá aposentada? Se bem que eu acho que ninguém nunca conseguiu... satisfazer a senhora, né! Como um amigo meu diria: uma velha mal comida.

DORACI: CHEEEEEEEEEEEGA! CALEM A BOCA! Eu não preciso de nenhum de vocês. Eu vou criar o meu filho sozinha. Vou alugar um quarto numa pensão e não preciso da ajuda de nenhum de vocês. (Pega sua bolsa e sai).

ESPERANÇA: Viu o que você fez?

DAVID: Eu? O problema é seu.

ESPERANÇA: Agora vai lá consolar a sua esposa.

DAVID: Esse papel é seu. A senhora que é a mãe. (Pausa) Quer dizer... Pode deixar que eu vou.

ESPERANÇA: Não! Agora sou eu que vou lá.

DAVID: Eu faço questão de ir. A senhora pode ficar aí.

(Doraci volta).

DORACI: Vocês não ouviram? Eu não preciso de nenhum de vocês.

ESPERANÇA: Minha filha, desculpa, mas é que eu não consigo me segurar quando eu tô em frente a um paspalho.

DAVID: E eu não posso deixar que a sua mãe me trate como se eu fosse o gato dela.

ESPERANÇA: Não se compare a meu gatinho...

DORACI: Pode ir parando por aí. Eu achei melhor voltar pra vocês não se matarem.

DAVID: Você acha que eu vou sujar as minhas mãos...

ESPERANÇA: Eu tenho mais o que fazer...

DORACI: CHEGA! Daqui a pouco meu filho vai nascer prematuro.

ESPERANÇA: Vamo’ mudar de assunto, então? Eu tava pensando no nome do bebê: o que vocês acham de Heliodegário? Meu Helinho!

DAVID: Mas é que eu tava pensando...

DORACI: É melhor a gente deixar esse assunto pra outro dia...

domingo, 5 de junho de 2011

Essencial


"As pessoas grandes adoram os números.

Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: 'Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que ele coleciona borboletas?'

Mas perguntam: 'Qual é a sua idade? Quantos irmãos tem ele? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?' Somente então é que elas julgam conhecê-lo.'"

O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry

domingo, 14 de novembro de 2010

Saindo da rotina

Esses dias atrás eu estava pensando sobre os programas que eu fazia com minha família quando eu era criança. Assim, quando somos crianças nós somos obrigados a andar com nossos pais, mas nós nem nos sentíamos obrigados porque era muito divertido. Hoje ainda são divertidos alguns programas em família, entretanto a inocência e a curiosidade da infância fazem com que a gente aproveite mais.

Enquanto eu pensava, lembrei-me de um programa que era o top dos anos 90 na minha cidade: ir pra beira do rio. A gente falava que ia pro “corgo” (tradução: córrego).

Eu acho que todo mundo que tem mais ou menos a minha idade já foi pro “corgo”. Era, literalmente, um programa de índio. Socar no meio do mato pra comer, nadar e beber.

Primeiro, eu e meus primos ficávamos doidos de ansiedade. Nem dormíamos na noite anterior. A gente acordava às cinco horas da manhã e ia pra cama dos nossos pais gritar:

— Já tá na hora! Já tá na hora!

Depois, a gente enfiava umas dez pessoas dentro de um carro. Não era toda a família que tinha carro, então ia todo mundo amontoado em duas longas viagens até o meio do nada.

A gente chegava muito cedo, a água ainda tava fria. Então, a gente não nadava de imediato. Ficávamos de chinelos, com os pés na água; depois, a gente se sentava na água; depois a gente pulava no rio; depois precisava de adulto pra socorrer alguma das crianças que tinha se afastado e tava se afogando lá longe.

Outra característica do lugar eram as pedras. Eu tenho os pés muito fracos. Eu tinha que andar sempre de chinelo, enquanto meus primos corriam naquelas pedras que quase cortavam o meu pé. Já teve momentos que eu tinha que nadar de chinelo. Nossa!

Aí, era a hora do almoço. Pois é! A gente juntava uns tijolos, colocava carvão, uma grelha e fazia de fogão. As panelas eram as mais velhas pra não jogar coisa nova fora, né. Era arroz, feijão e um pedaço de carne feito na churrasqueira mais na frente. As crianças de sunga e biquíni (não necessariamente ambos) enroladas numa toalha, com o nariz escorrendo, comendo num prato esmaltado e bebendo um refrigerante morno.

Nossas mães não deixavam que nós entrássemos no rio depois do almoço. Depois de quinze minutos a gente já perguntava se podia entrar.

— Não!

Depois de meia hora.

— Não!

Depois de trinta e cinco minutos e muita insistência, a gente entrava no rio. No final do dia, nós estávamos gelados, com os dedos enrugados, tremendo, com uma toalha enrolada nas costas. Mas felizes como pintos no lixo.

Hoje em dia, a moda do Triângulo Mineiro é ir à represa. Eu não gosto muito. Muitas pessoas não gostam. Mas a gente gostava de ir pro “corgo”. Então, a gente gosta de recordar os tempos da infância; do tempo que éramos simples, inocentes e humildes. Muito bom!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Conversas com um bebê


Eu sempre achei muito idiota conversar com os bebês.


Claro que deve haver psicólogos que incentivam isso da mesma maneira que senhorinhas incentivam a conversação com plantas.

Eu fico pensando como as crianças devem sentir-se incomodadas quando pessoas (geralmente as mesmas senhorinhas das plantas) se aproximam e põem-se a conversar.

— Que gracinha! Como ‘cê chama?

Essa que é a parte tosca. Se ainda ficasse no:

— Que gracinha! Que coisinha mais cuti-cuti!

Mas não! As pessoas tem que fazer perguntas para os bebês. É óbvio que elas não esperam respostas das crianças. Tanto que elas só fazem as perguntas quando tem uma pessoa acompanhando o bebê (Claro! Um bebê não anda sozinho.)

— Como ‘cê chama? — a senhorinha pergunta com aquela cara de conversar com bebê e com aquela voz de dor de barriga.

— Larissa — a mãe responde.

— Quantos aninhos você tem?

— Ela ‘tá com 6 meses.

Ai, meu Deus! Eu já passei por essas situações quando eu andava com meu irmãozinho que agora tem oito anos e sabe responder. As pessoas perguntavam pra ele:

— Qual é seu nome?

Eu ficava calado esperando meu irmão responder. Mas ele só tinha um ano e não responderia. Se a pessoa ME perguntasse eu responderia:

— Augusto.

Quando o meu irmão não respondia, pois nem sabia falar, a pessoa me olhava e eu ficava com uma cara de paisagem. A pessoa ficava sem-graça e saía de perto.

Se conselho fosse bom, não era de graça, mas eu vou dar um (ui!): Não converse com bebês para que as pessoas não pensem que você é idiota.

— Nossa! Mas como você ‘tá grande! E essa roupinha bonita: quem foi que te deu?

Ainda bem que nós não temos memória de quando éramos bebês.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Coisas da Internet


Preste atenção na mensagem. "PROIBIDO SENTAR NOS GALÕES". Eu me pergunto: quem vai sentar nos galões? Tem umas coisas que... Nossa, viu!




O mais novo lançamento da NOKIA. O celular que tira foto. É muita modernidade pra uma pessoa só.




Método SUPERNANNY. Maravilhoso. Pra aquela criança chata! "Ai, vem brincar de amarelinha".





Método SUPERNANNY 2. Esse eu agarantio! (Esse é foda).

domingo, 9 de maio de 2010

Queria ser criança...


Eu sei que eu não posso ser criança para sempre. Mesmo que deixemos a inocência da infância, precisamos crescer. Nossa espécie precisa evoluir a cada geração.

Mas, mesmo sabendo disso, dá vontade de ser criança pra sempre.

Se eu fosse criança para sempre nunca me preocuparia com nada a não ser minhas brincadeiras que duram o dia todo. Não precisaria me preocupar com roupa suja, com casa bagunçada, com contas para pagar... Com responsabilidades.

Ficaria feliz se chovesse para que eu pudesse brincar na água; ficaria feliz com um poça de água, que se transformaria num mar para meus navios; ficaria feliz com o vento, com uma moeda, com um chocolate, com um bolo...

Poderia ter medo do escuro, do bicho-papão, da Cuca, de altura... Poderia ter medo de qualquer coisa sem ser chamado de fraco. Eu seria uma criança.

E viveria na ignorância. Uma ignorância boa. A ausência do saber que me excitaria a buscar coisas novas, a descobrir um mundo enorme em minha volta. E ser ignorante, imaginando que o mundo é perfeito, é maravilhoso. Que eu posso confiar em todas as pessoas.

Nunca ficaria grande. A sociedade nunca me corromperia. Eu nunca saberia das maldades do mundo. Eu seria eternamente criança.

Mas...

domingo, 4 de abril de 2010

Companheiros e cúmplices

Quando eu era criança, eu ouvi uma frase que dizia que irmão é feito pra brigar. Naquela época, isso fazia todo o sentido: para que, além de brigar, servia nossos irmãos? Para nada. O tempo passou e as coisas evoluíram (nossas mentes são algumas dessas coisas) e percebemos que o mundo não funciona bem assim.

Posso contar tudo por experiência própria. Sou o filho mais velho e minha primeira irmã nasceu quando eu tinha três anos e meio, mais ou menos. Não lembro se eu sentia ciúmes ou inveja, mas lembro que eu aprontava muito com ela quando estávamos sozinhos. Alguns machucados na perna ou alguma esfolada no rosto eram sempre de alguma brincadeira que eu fazia, mas… eu fazia uma cara de santo e falava que ela tinha caído sozinha.

Mas me recordo que eu também não era tão maldoso assim. Lembro que eu ficava escondido num canto, chorando, quando minha irmã apanhava por alguma estripulia. Nem sabia o porquê daquela angústia, mas agora entendo que era o início de um companheirismo. Um companheirismo que só apareceria muitos anos depois.

Nós dois brigamos muito até chegar meu segundo irmão. Isso! Um garoto. Eu tinha pouco mais de nove anos quando ele nasceu. Eu, sinceramente, esperava uma menina, mas quando soube do menino não fiquei triste. Satisfeito, diria.

É uma lembrança mais recente. Era domingo e, eu e minha irmã, tivemos de fazer um grande esforço pra conseguirmos entrar na maternidade. Eu fiquei ao lado daquele menininho e estendi minha mão. Ele segurou meu dedo indicador com toda a sua mão minúscula. Eu me arrepiei todo. E até hoje me arrepio de lembrar como meu irmão era pequeno.

Nós três dormíamos no mesmo quarto (morávamos numa casa muito pequena) e talvez essa “proximidade” tenha sido a causa de algumas briguinhas de nada.

Sempre banquei um pouco o durão, não um garoto rude, mas um garoto centrado, seguro, mas respirava fundo pra não me desmanchar. Eu apenas tentava ser uma extensão dos meus pais. Lembro que minha irmã tinha menos de cinco anos quando caiu de costas de uma altura considerável e eu quase desmaiei quando vi isso. E meu irmão tinha menos de um ano quando quebrou a perna e não conseguiu aprender a andar; ele era apenas um bebê quando carregava um gesso, mesmo sem aprender a engatinhar. Eu respirava e mostrava que eu era durão.

Nas horas de raiva, a gente diz que preferia ser filho único, mas, junto com uma amiga, eu formei uma teoria de que seríamos bem mais egoístas se não fossem nossos irmãos mais novos.

Eu acho que eu tinha quinze anos quando eu percebi que os irmãos não servem apenas para brigar. Talvez eu esteja sendo um pouco metido, mas eu tento ser um exemplo para meus irmãos. Não sei se algum dia eu vou ter filhos, mas, meus irmãos eu tenho certeza de que estarão aqui pra sempre. Eu sonho no dia em que eles vão poder mostrar para os amigos: “Aquele lá é meu irmão.”

Como eu disse antes, o companheirismo só veio muitos anos depois. Claro que temos muitas coisas para melhorar, mas as coisas evoluíram muito nos últimos anos. Não gosto muito de dizer “companheiros”, mas cúmplices.

Nas horas de raiva, a gente diz que preferia ser filho único, mas ter irmãos é uma experiência inesquecível.