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sábado, 26 de janeiro de 2013

Piada



Ou A desgraça tem graça

Thaís era uma piadista nata! Era filha de uma professora com um caminhoneiro e tinha mil histórias pra contar. Todos tinham a impressão de que Thaís era sempre bem-humorada: achavam que sua vida nunca lhe era difícil, que ela nunca chorava, que tudo pra ela estava bom. Em grande parte, era isso mesmo!

Ela gostava de tirar sarro de todas as más situações que a vida lhe colocava, seguindo aquele ditado que dizia que se a vida lhe desse as costas que você desse um chute na bunda dela. Até as contas atrasadas dela eram motivo para piadas!

E Thaís, de certa forma, gostava de se fazer de palhaça: gostava de contar o quanto a vida brincava com ela e ela conseguia contornar tudo aquilo com muito bom humor. Gargalhando sempre! E, se você resolvesse falar das suas lamúrias para Thaís, ela faria graça da sua desgraça. A desgraça tem graça!, ela sempre dizia. Alguns diziam que aquilo era ótimo para levantar nossos humores abatidos; outros achavam aquilo inconveniente e ofensivo da parte dela.

Thaís, então, foi convidada para uma festa numa boate badaladíssima da cidade. Foi com pouca coisa no bolso porque aquela noite ela prometia que viraria todos os goles de álcool que aguentasse: eu quero esquecer meu nome, ela gritava rindo. Toda arrumada para dançar e beber a noite toda, ela entrou no carro de uma amiga! Cantaram juntas durante todo o caminho.

A festa foi ótima: rock, vodka, tequila e garotos! Fechariam a noite com um McDonald’s como era de costume. Drive Thru 24 horas! A fila de carros estava imensa àquela hora da madrugada, quando todo mundo decidia arrebatar a noite com sanduíche, Coca-Cola e batata frita.

Por ali, um homem maltrapilho carregava um saco de panos sujos nas costas e aparecia do lado dos carros pedindo, em todos os vidros abertos, dois reais para comprar um salgado porque ele tinha morado na rua durante nove anos passando fome, frio e necessidade; tinha, enfim, conseguido uma casa pra alugar, mas ainda não tinha nem fogão nem panela pra fazer comida. Ele não tava bêbado nem drogado (e enfatizava isso!): só queria comer.

Quando falou todo o seu discurso ensaiado para Thaís, ela riu e soltou:

— Moço, eu não tô tendo nem pra mim. Eu é que tô precisando de uns duzentos reais pra pagar minhas contas. — A amiga (bêbada!) também caiu na gargalhada.

O homem não riu e finalizou:

— Olha se isso tem graça!

Apontou um revólver para a testa de Thaís e puxou o gatilho.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O Último Tango


— Está tudo terminado entre nós! — ela disse segura; controlava cada milímetro dos músculos do seu rosto para que sua expressão não mostrasse como aquilo estava sendo difícil pra ela.

Ele ficou olhando fixamente para os olhos dela, sem reação. Depois, como se acordasse, balançou a cabeça tentando organizar os pensamentos, piscou os olhos e umedeceu a língua.

— É... Bem, eu não sei... — ele olhou para o chão puxando alguma coisa da memória; ela já conhecia aquele ritual. — Espere um pouco.

Ele correu para apagar as lâmpadas do apartamento que estavam lhe atrapalhando e abriu as cortinas da enorme janela do quinto andar.

— Por favor, querida, fique aqui em cima desse tapete. — Então ligou o abajur que iluminou o rosto dela debaixo. — Agora sim! Dá um ar... sobrenatural! Pode repetir o que você disse?

— Você é louco!

— Não foi exatamente isso que você disse antes. Não existem cacos nessa cena.

Ela respirou fundo:

— Está tudo terminado entre nós.

— Bem, eu imagino que... minha próxima fala deveria ser: — Ficou com um ar de estupefação. Metade do seu rosto estava escondido na penumbra e a outra metade iluminada pela luz azul que entrava pela janela. Perfeito. — Eu não compreendo, querida! Estávamos tão bem ontem à noite quando saímos pra jantar.

— Ontem estávamos bem? — ela aumentou o tom de voz; sem gritar. Era perceptível o sentimento que crescia dentro dela as poucos. Ele gostava dessas nuances na voz dela. — Você me deixou envergonhada quando pediu para que os nossos amigos trocassem de lugar três vezes porque aquela iluminação não favorecia a cena. E ainda falou mal da maquiagem da minha amiga.

— Perfeito, querida! É assim que eu gosto. Adorei a ênfase que você deu em “minha amiga”. — Ele volta a ficar sério. Foi para o balcão do bar, colocou dois gelos no copo e se serviu de dois... três... alguns dedos de whisky. — Você está sendo precipitada. — Ele caminhava na penumbra azul do apartamento. Bebericou o whisky. — Você... você está apaixonada por outro? — E virou o conteúdo do copo de uma vez. Olhos semicerrados. — Eu não estou satisfazendo seus desejos? É claro que eu não sou mais aquele rapaz de 21 anos que você conheceu, mas... você tem que compreender! Podemos superar essa traição juntos...

— Não é nada disso! Não é questão de eu gostar de outro! A questão é que eu não aguento mais as suas loucuras.

— Ficaria melhor se fosse “delírios”.

— Eu não aguento mais os seus delírios. Essa sua ideia disparatada de vivermos como se estivéssemos em Hollywood.

— Na verdade, eu imagino um filme europeu, mas tudo bem!

— E toda a sua preocupação com a iluminação, o cenário, a ordem das coisas, o meu cabelo!

Já foi dito que ele se apaixonou por essa voz oscilante, hesitante, marcante...

— E quantos momentos ridículos eu tive que passar por causa de suas insanidades! Como aquela vez que você me maquiou e me deixou com a cara pálida; então, você colocou aquele sobretudo preto e andava com aquela lanterna no meio da rua.

— Era a época que eu estava lendo sobre os alemães. Expressionismo alemão, minha querida! Expressionismo alemão.

— E as suas manias de balançar a cabeça...

— “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”.

— Mas você não tinha câmera alguma e, pra mim, também não tinha nada na cabeça.

— São testes que eu colocarei em prática. Algum dia. Não questione o meu jeito excêntrico. Foram anos para moldá-lo a meu gosto. Sou um cineasta nato, mon Cher. — Ele se aproxima do rádio. Last Tango in Paris, de Gato Barbieri. 


Ele coloca uma rosa vermelha na boca e a sola do seu sapato de couro italiano faz o toc toc no chão de assoalho. Charuto. A fumaça que ele sopra é iluminada pelo neon de um anúncio na rua. 

— Lembra daquele dia no parque? As estrelas, nós dois, a lua...

— Por favor...

— ...o som no carro, a brisa... — Ele tira o blazer; está de camisa, colete e gravata. Ele sorri sutilmente. Ele sabia que inconscientemente ela era apaixonada pelo Marlon Brando. Aquele sorriso era de horas na frente do espelho. — Por que não me concede essa última dança?

— Eu já disse que...

— Shhhh... — Ele apertou o quadril dela ao seu. Queria tê-la ali mesmo; no sofá, na mesa de jantar. Colocar seu corpo no dela. O cheiro dela invadia seus pulmões. — Não preciso explicar o roteiro mais uma vez! Lembra de quando assistimos juntos e, no fim...?

— Pare com isso!

— Você é uma desconhecida. Acabo de te encontrar por acaso numa rua parisiense e...


— E não acontece nada. E...

— E...?

Ela deu-lhe um beijo ardente. Ela odiava quando ele fazia aquilo. Mas ela sentia o calor subindo pelas costas e sufocando-a; só se salvava nos lábios experientes do seu marido. Precisava de um pouco de vinho; nada de manteiga.

domingo, 14 de outubro de 2012

Beijos, sussurros e o lápis no papel



Ela chegou de surpresa e o pegou desprevenido. Ele estava sentado à escrivaninha concentrado no delicioso barulho do lápis no papel e um arrepio percorreu todo o seu corpo quando ela beijou seu pescoço. Ele sentia a sensualidade emanar daquela pele macia.

— Eu te disse para você não mais me procurar! O que você está fazendo aqui?

Ela rodeou a cadeira e sentou no colo dele olhando fundo naqueles olhos cansados da leitura. Ela era linda! Ele sabia que tudo nela era perfeito, mas ele ficava desnorteado principalmente com aqueles lábios. Ela o beijou demoradamente deixando-o bêbado. Era impossível ser indiferente àquele toque. Ele fechou os olhos e deixou que sua língua o guiasse pelos contornos daquele beijo.

— Você nunca quis que eu fosse embora.

Ela o conhecia mais do que ele imaginava ser possível. Ele tentava se convencer de que a vida sem ela seria melhor, mas nunca tinha conseguido. No íntimo, ele a queria; ela era uma de suas necessidades vitais. Ele precisava dela. E ela tinha consciência disso.

Ela desfez o beijo e sua língua desceu pelas linhas duras do queixo do homem; a barba, o pescoço... Abriu os dois primeiros botões da camisa dele e deu-lhe pequenas mordidas na pele suada do seu peito. Os olhos dele se reviravam nas órbitas e seu corpo já não lhe pertencia.

Ela era experiente; sua língua, úmida e determinada. Ela se despia e o puxava para si: fazia-o afogar na fartura de seus seios e enfiava suas unhas nas costas largas dele.

Quando ele já estava completamente imerso naquela terra de prazeres, ela se levantou e caminhou sensual para a cama. A única coisa que escondia sua nudez era a escuridão; mesmo assim, as trevas não queriam ocultar tal perfeição: a luz da lua entrava pelas frestas da janela e iluminava um pedaço daquele corpo nu.

Ele tremia. Suas roupas já estavam todas jogadas pelo chão e ele sentia uma leve cãibra nos dedos dos pés. Era uma reação natural do seu corpo. Ele queria tê-la, mas sabia que, se continuasse insistindo naquela loucura, nunca se livraria dela. Era o homem animal querendo seguir o seu instinto primitivo contra o homem racional que queria se livrar daquela loucura.

— Eu te pedi! Pedi para que você não me procurasse. Quanto mais você demorar em desaparecer, maior será meu sofrimento quando eu não puder mais ter você.

Ela se acariciava despreocupadamente.

— Você me quer. Por isso eu estou aqui.

— Você sabe que esse é um momento de fraqueza! — ele gritou. — Você só aparece quando eu não consigo me controlar. Eu não quero mais você aqui.

— Eu sei que quer. Você precisa de mim! — A voz dela era sussurrada. Sensual. — E essa sua... necessidade... é visível. — Ela riu olhando para a nudez do homem na sua frente; o membro rígido.

Ele não ficou envergonhado com aquela brincadeira:

— Eu sei que você não é real!

— Por que você acha que eu não sou real? — Ela ficou em pé e se aproximou. Tocou-o, mordeu sua orelha e sussurrou: — Isso não lhe parece bem real?

— Você só aparece quando o meu inconsciente quer que você apareça. Você não existe. Você me tenta, faz de mim o que você quer e depois some. Essa... esse... isso que a gente tem junto nunca poderá ser saudável. Não tem futuro! Não tem continuidade! Você não existe!

Ela ouvia o desabafo enquanto sua língua explorava os poros do peito dele; os pelos, o cheiro, a textura...

— Você não existe! — A cãibra nos dedos dos pés era uma sensação excitante e ele ofegava. — Não podemos continuar. Você não é real. Você é fruto da minha imaginação.

— E quem foi que te disse que a imaginação não é real? Só porque eu sou fruto da sua mente criativa, eu não posso ser real? Só por eu estar na sua mente, eu já sou real. Apenas por esse fato, eu já existo: faço parte dos seus pensamentos, da sua imaginação. — Ela sorriu. Deitou-se na cama e puxou-o pelo quadril. — Venha comigo! E saiba que o mundo imaginário é bem mais divertido que o real.

sábado, 7 de abril de 2012

Minha Fofura


No ano passado, ele freqüentava um boteco de esquina: balconista magrelo — mais novo do que aparentava —, parede amarelada, radinho de pilha chiando, cheiro de urina e cachaça, mesa de sinuca. Ele, de chinelo Havaianas, camisa cavada amarela e bermuda jeans rasgada na coxa esquerda, ficava ali coçando o saco o dia todo.

Uma mulher fez com que ele mudasse todo o figurino. Começou por pentear os cabelos; depois comprou umas roupas novas e até um sapato em 10x sem juros. Só não conseguiu parar de fumar. Aí, era pedir demais.

Aos poucos conseguiu segurar o coração sonhador da loira. Ele, brega que só, mandava flores, bombons e perfumes. Às vezes, surpreendia-a com uns versinhos, secretamente escritos pelo seu sobrinho.

Por causa da mulher, o cenário também mudou. Ele economizou dinheiro para levar a amada — ele é muito brega! — num restaurante chique da cidade.

Ela pôs um vestido preto e ele de camisa rosa claro. Sentaram-se na mesa reservada e ele já sabia o que pedir: o orçamento era limitado.

Quando ele levantou a mão para chamar o garçom¹, não notou a presença do garçom² atrás dele carregando uma bandeja com uma garrafa de whisky e quatro copos de vidro. Mas quando o nosso personagem soube o preço dos copos, pensou que eram cristais de algum lugar remoto da Terra. Ou da Lua!

— Tá tudo bem, minha fofura! — ele representava para a namorada.

Por mais que os copos e o whisky fosse o quádruplo do capital disponível, ele deixou que o jantar continuasse. E comeram bem! A única coisa que incomodava o eterno romântico era o olhar desconfiado dos garçons. Aqueles caras já eram treinados pra sentir cheiro de classe média.

— Eu vou ao toalete, fofurinha! — ele disse tomando a decisão de sua vida.

O nosso personagem entrou no banheiro seguido pelos olhares inquisidores dos garçons. As mesas continuavam a serem servidas e o homem não saía do banheiro. Os garçons já estavam com os dois pés atrás diante daquela situação, mas não podiam tomar conclusões precipitadas. Era a política do restaurante. E qualquer passo em falso lhes custaria o emprego.

A loira já estava sozinha na mesa há meia hora. E foi ela quem pediu para que procurassem pelo seu namorado:

— Eu não posso entrar no banheiro masculino, né! — ela dissera.

Os dois garçons muito prestativos com a loira de belos atributos, entraram no banheiro. Os reservados foram abertos um por um... um por um... um por um...

— Me tirem daqui!

As únicas coisas que os garçons enxergaram foram duas pernas penduradas na janela; o resto do corpo já estava do lado de fora do restaurante.

— Me tirem daqui! Eu prometo lavar os pratos! Só não contem pra minha fofura!

quarta-feira, 14 de março de 2012

Mictório


Banheiro da empresa. Banheiro masculino da empresa.

O primeiro que entrou trabalhava ali há uns três anos, mas ainda estava num dos cargos mais baixos da agência. Suas camisas eram compradas numa loja de departamentos do shopping, suas calças e seu paletó já tinham dois anos de uso e seus sapatos... Esqueçam seus sapatos, coitado!

Ele preferia usar o mictório ao reservado: mais prático, mais rápido, menos água. Cada um com seus ideais. Abriu o zíper da calça e fez o que tinha que fazer.

Uns segundos depois, outro homem muito apertado entrou; muito apertado literalmente. Apertado no sentido de necessitado de dar vazão às suas necessidades fisiológicas e no sentido de espremido dentro de suas roupas curtas.

Por mais que ele encomendasse todos os seus ternos, camisas e calças num alfaiate lá do centro, sua barriga crescia em progressão geométrica e nada mais lhe cabia depois de um mês de uso. O uso do mictório nem era uma escolha; os reservados eram minúsculos.

Com dificuldade, tentando mexer os seus braços presos pelo pouco tecido, ele conseguiu arreganhar a braguilha e respirar aliviado.

Os dois ficaram ali em silencio: olhar de peixe morto para a parede, lábios cerrados e a respiração controlada. No mictório existem mais regras de etiqueta do que num jantar real. E qualquer erro pode ser fatal.

O primeiro era subordinado do segundo, mas ali eles não se conheciam; o seu chefe até preferia que nenhuma palavra fosse trocada. Era melhor que deixassem assuntos inúteis para a hora do cafezinho. Ali, os olhos não podiam se desviar um centímetro sequer.

O de terno surrado terminou primeiro, fechou o zíper e não lavou as mãos. O de vestuário exclusivo até preferiu que o outro saísse primeiro: além de não conseguir mover seus braços dentro daquele terno — que, no momento de aperto, se tornava uma camisa de força — precisou fazer um exercício com o diafragma para diminuir a barriga e fechar a braguilha. 

domingo, 22 de janeiro de 2012

Plano Diabólico



Ele sorria pensando em todos os seus desejos que se realizariam na próxima semana. Ele dividia o prédio de dois apartamentos com uma professora de Educação Física que tinha cheiro de lavanda e usava tênis antiderrapantes. A professora viajaria de férias e ele poderia pôr em prática o seu plano diabólico.

A escolhida era uma mulher ruiva, de uns quarenta anos que ia à padaria todos os dias as seis e quarenta e cinco da manhã. Ela usava short florido, chinelo de dedo, cabelo preso e andava com o chaveiro pendurado no dedo indicador. Ela tinha cheiro de água sanitária e ele a odiava.

Ele a odiava e queria vê-la morrer. Mas antes ela sofreria em suas mãos. Ele queria ver o medo e o sofrimento nos olhos dela; queria que ela implorasse por clemência; queria que ela chorasse.

Ele preparou todo o material necessário muito antes das férias da vizinha professora. 
Comprou as facas que eram amoladas todas as noites num ritual à luz da lua; comprou um machado que seria de extrema utilidade para os retoques finais; comprou velas, muitas velas e incensos que ele acendia por todo o apartamento; e mel. Ele gostava de mel. Passado no pão de fôrma. Era o que ele comia enquanto observava a mulher ruiva indo à padaria as seis e quarenta e cinco da manhã.

Quando a professora entrou de férias, ele ficou animado com a perspectiva de realizar o seu sonho. Seus rituais eram mais frequentes e intensos. O apartamento era iluminado apenas pelas dezenas de velas. E ele no centro de todas elas, sentado de pernas cruzadas, completamente nu.

Enfim, a professora viajou. Antes de ir, ela passou no apartamento do vizinho para se despedir e dar o número do seu celular. Ele garantiu que ligaria para ela se alguma coisa acontecesse com o apartamento dela. A vizinha nem estranhou o fato de ele ter mostrado só o rosto por uma fresta na porta: a bagagem estava pesada e as tão merecidas férias a aguardavam ansiosamente.

Ele ouviu o carro da professora se distanciando e ficou excitado como nunca ficara com nenhuma mulher. Quer dizer, ele nunca tinha estado com uma mulher.

Encaminhou-se para seu quarto e observou sua cama com as amarras preparadas para receber a hóspede. Ele imaginava a cena com clareza agora. A vizinha ruiva ficaria amarrada na cama, nua, com uma mordaça e ele começaria com os jogos: facas, sangue, sal, limão, chicotes, tesouras, cigarros e mel. Ele gostava de mel. Ele se besuntaria de mel quando a vizinha ruiva estivesse gritando de dor. Ou prazer, quem sabe.

E o grand finalle: o machado o ajudaria a fazer com que ela coubesse direitinho dentro da mala guardada dentro do guarda-roupa.

O nosso personagem não conseguiu dormir na véspera. Estava muito nervoso. Às cinco da manhã reacendeu as velas e no meio da sala começou sua meditação. Quando foi chegando a hora de capturar sua presa, ele vestiu sua túnica branca. Iria sem nenhuma peça de roupa por baixo da túnica, mas precisou de algo para disfarçar a sua ereção.

Eram seis e trinta e cinco e ele estava na espreita. Não tremia. Sorria discretamente. Seus dedos no chão frio estavam rijos. Deixou tudo pronto.

Saiu para as escadas cinco minutos antes de a vizinha ruiva sair para a padaria. Descia cada degrau vagarosamente sentindo a temperatura do piso. Mas, além de frio, o piso estava escorregadio. Ele segurou no corrimão e conseguiu manter o equilíbrio. Só por um segundo. 

Agora, deslizou bruscamente e seu corpo rolou pelos degraus do prédio. Batia o corpo no chão e ele pôde sentir os seus ossos se partindo.

Antes de se vestir por completo com a escuridão da morte, amaldiçoou a vizinha professora que sempre lhe aconselhara a usar tênis antiderrapantes.

E às seis e quarenta e cinco, a ruiva foi à padaria.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Filosofia de boteco



— Não tem nada mais certo do que aquela frase: enquanto houver amanhã, haverá preguiça — o primeiro disse.

— Como assim? — o segundo perguntou.

— É mais ou menos como o lema dos preguiçosos, conhece? Pra que fazer hoje se eu posso fazer amanhã?

— Gostei disso! Bem pensado, bem pensado...

— E, se não houver amanhã, a gente é automaticamente obrigado a fazer tudo hoje.

Riram.

— Eu discordo — um terceiro entra no assunto.

— Discorda?

— Claro. Parto da ideia de que a preguiça sempre existirá. Gostei do que você disse no início, que, enquanto houver amanhã, haverá preguiça. Mas discordo do ponto em que você disse que, se não houvesse amanhã, seríamos obrigados a fazer tudo hoje. É claro que não! Se não houver amanhã, pra que eu vou fazer alguma coisa hoje? Pra que eu vou consertar o carro ou devolver o DVD na locadora se eu não vou viver mais nenhum dia?

Os dois primeiros riram alto com tamanha obviedade. Mas o primeiro ainda tinha que contestar.

— Mas eu disse que seríamos obrigados a fazer tudo hoje no sentido de... de... Já ouviu dizer que temos que viver o nosso dia como se fosse o último de nossas vidas?

— Claro.

— Então! Um dia a gente acerta — completou rindo.

— Mas quem me garante que existirá o amanhã? Quem disse que amanhã, sábado, eu vou estar aqui com vocês?

— Por isso que eu digo: faça tudo o que tem vontade de fazer porque senão você morre com vontade.

— Mas eu não quero pensar em pequenos planos. Meros desejos carnais. Meus planos são maiores, vão ocupar muitos dias da minha vida.

— Então, comece hoje mesmo.

— E se eu começar hoje e morrer amanhã. Tudo o que eu faria hoje teria sido em vão. Prefiro ficar aqui no bar vendo a vida passar, tomando uma cerveja e um torresmo com limão.

— Mas isso é um “mero desejo carnal”, como você disse.

— Eu sei. Mas, já que eu não vou poder realizar os meus grandes planos... só a bebida é o que me resta.

Silêncio.

— E eu também tô com preguiça hoje. E, se houver amanhã... também estarei. Quando alguém me garantir que eu não vou morrer no dia seguinte, eu começo a trabalhar.

sábado, 27 de agosto de 2011

Chega junto, morena!

De dia, um trabalhador dedicado e eficiente. Sempre saía de casa antes do sol nascer, com o uniforme azul surrado, o boné e a bicicleta de barra circular. Leva a marmita na garupa e só volta pra casa à tardinha. Dorme cedo todos os dias. Menos nas quintas: o dia do samba da comunidade!

Aí, ele se transforma!

Toma um banho caprichado e veste a sua melhor roupa. Usa um sapato lustroso, uma camisa verde por dentro de uma calça bege e abusa do gel nos cabelos ralos. Tem um relógio barato, uma corrente do camelô e o cheiro de Leite de Colônia o acompanha. Usa o celular preso no cinto e a foto de uma mulher desconhecida brilha na tela.

Ele tem uma presa pra hoje: a mulata do vestidinho curto.

E ele vai com seu jeito malandro, conversando com todo mundo, cumprimentando um conhecido ali e outro aqui e vai indo. De mansinho. Suas roupas não combinam, mas seu sorriso no rosto e seu carisma à flor da pele conquistam muitos sorrisos. Esbanja simpatia!

Na gafieira, a mulata dança sozinha. Seu vestido vermelho, que está a alguns palmos acima do joelho, balança com o seu swing. Tem os cabelos encaracolados e o sorriso branco que iluminaria um quarto escuro. E os lábios cobiçados pelo nosso personagem! Ma-ra-vi-lho-sa.

E o simpatia vai chegando devagarinho, com o seu gingado no ritmo do pandeiro. E vai rondando a morena que se anima com o molejo e dá condição. Dá espaço pro neguinho mostrar a que veio.

Do outro lado do salão, um brutamontes tá de butuca. Tá com uma camiseta listrada apertada nos braços grandes e na barriga malhada. Ele vê o neguinho com sua morena. Esse “sua” é por conta dele.

Ele se aproxima com a delicadeza de um boi estourado e já chega junto. Passa a mão em volta da cintura larga da mulata e ela se deixa levar com o sorriso sempre aberto. O nosso personagem da camisa verde se sente diminuído. Na verdade, qualquer um se sentiria diminuído ao lado daquele homem do tamanho de um armário.

O grandão resolve buscar uma cerveja. Antes de se virar, deu aquela olhada pro mirradinho da calça bege. Demarcou o território e mostrou quem é que manda. Mas o nosso personagem não se sentiu intimidado.

Na primeira oportunidade, agarrou a mulata pela cintura e foram juntos no requebrado. O cara sabia conduzir bem e a mulata era ótima parceira de dança. Pés de fada: nem tocavam o chão!

E o samba continuava. O brucutu tava longe com as latinhas na mão e a o mirradinho só na maciota com a mulata.

Mas o grandão viu aquele assanhamento e ficou irado com aquilo. Era de se esperar que um homem daquele tamanho tivesse um ego gigantesco e um cérebro do tamanho de uma ervilha.

Chegou com violência. Jogou a cerveja no chão, empurrou alguns casais que dançavam e já chegou desgrudando o homenzinho da cintura da moleca. Deu um espaço e, num golpe só, derrubou o outro no chão.

Ele ficou meio tonto. Sentiu o gosto de sangue na boca e tentou se levantar. Talvez agarrasse o brucutu pelas costas, prendesse as duas pernas no peito dele e tentasse derrubá-lo pra trás. Mas o golpe tinha sido forte. Ele estava humilhado. Preferia voltar pra casa. Segurou pra não chorar, coitado!

O grandão sorriu satisfeito e voltou-se pra morena. A dança ia continuar como se nada tivesse acontecido. Na cabeça dele, quase vazia, nada tinha realmente acontecido: era apenas um acidente de percurso.

Ia dar um beijo na morena, mas ela tava com a cara feia. Tentava afastar o rosto e se desvencilhar daqueles braços apertados. O homem a soltou sem saber o motivo daquele desinteresse repentino. Oh!

A morena mostrou que também sabia intimidar com o olhar. O grandão quase caiu de costas com aquela fuzilada que tinha levado. Ela jogou os cabelos pro lado e o vestido esvoaçou quando ela foi atrás do homem humilhado.

Ele estava de costas e só sentiu uma mão delicada no seu ombro. Ele se virou e a morena exibia o seu melhor sorriso brilhante. Ele engoliu seco. Ficou feliz, mas com a pulga atrás da orelha. Deu uma olhadinha por cima do ombro da morena. Campo limpo! Sorriu.

A morena tinha pegada. Deu-lhe um beijo no pescoço, outro na bochecha. O homem tremia dos pés a cabeça e teve a sensação de estar no corpo de outro sortudo.

Ela sorriu.

— O resto... Ah, o resto você vai ter que me convencer.

Ai, que bom que a noite é uma criança!

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Entendeu?

A casa ficava nos fundos de um boteco. Tinha dois cômodos separados por uma parede mal-acabada e um banheiro do lado de fora.

No primeiro compartimento, conviviam uma pia, uma televisão sobre um banquinho, um fogão enferrujado, uma poltrona que algum dia fora amarela, algumas garrafas de cerveja e um casal de ratos. Uma infiltração ali, uma rachadura aqui.

Esticado sobre a poltrona velha, um personagem magro com a mão direita dentro de uma calça jeans surrada, rasgada nos joelhos. Sua camisa florida estava aberta mostrando o peito magro com alguns pelos em volta do umbigo. A outra mão dependurada em algum lugar e um cigarro apagado se equilibrava nos lábios quase mortos.


Nessa hora, quando seus pensamentos estavam perdidos ou já nem existiam mais, um homem arrombou a porta enferrujada. Ele estava de terno e óculos escuros. Seus sapatos faziam barulho em contato com toda a sujeira daquela casa. Estava acompanhado de dois capangas.

Pegou um resto de cerveja que tinha numa das garrafas e despejou-o sobre a cabeça do maltrapilho deitado na poltrona encardida.

O sujeito acordou num sobressalto cuspindo o cigarro e tirando a mão de dentro da calça.

O magnata percebeu que o sujeito estava bastante acordado para entender o recado. Deu-lhe um tapa com as costas da mão e seu anel cortou o lábio do recém-acordado.

— Seu filho da puta! —gritou.

— O que é isso? — o outro perguntou. — Por que você fez isso?

O de terno aproximou-se do sujeito surrado e mostrou toda a sua raiva pela sua respiração. Era possível ver três cores diferentes em cada um de seus dentes.

— Você é um nada! Na verdade, eu nem sei porque eu tô aqui. Podia ter mandado os meus homens para te apagarem direto, mas... eu sou muito bonzinho.

— Quê?

— Quem mandou mexer com a mulher dos outros? — disse dando-lhe outro tapa. — Olha aqui, seu filho da puta, seu merdinha, eu não quero vê-lo mais andando perto da minha casa, tá me ouvindo? Ou melhor: você não deve se aproximar da minha casa num raio de... dois quilômetros! Entendeu?

— Entendi!

— Eu só não fiz nada com você hoje porque foram apenas suposições. Eu não sou de acreditar em fofocas. Se contente com minha generosidade. Mas da próxima vez... eu vou arrancar fora os seus colhões.

Foi a primeira vez que o outro arregalou o olho. O de terno deu-lhe mais um tabefe na cara e saiu com os capangas do mesmo jeito como tinham entrado.

O da poltrona bocejou e voltou a dormir. Acordou vinte minutos depois com o barulho de um salto alto vindo do outro cômodo, o qual chamava de quarto só porque tinha uma cama.

A dona do salto alto vinha prendendo o sutiã.

— Onde tá meu dinheiro?

Ele se levantou da poltrona e foi pra pia. Colocou a água pra esquentar naquele fogão imundo. Sempre com uma mão dentro da calça. Deu uma espreguiçada enquanto a mulher vestia uma blusinha.

Ele, arrastando os chinelos no chão, foi até a televisão. Tinha umas notas amarrotadas debaixo dela. Molhou o dedo com a língua e separou o da mulher.

— Isso aqui dá?

Ela tomou-lhe as notas rudemente. Molhou o dedo na língua e contou as notas pequenas.

— Essa é a última vez que eu faço por esse preço.

A cara dele era a mesma de um funcionário público quando recebe um “bom-dia”.

— Agora, vaza daqui, vadia!

A mulher saiu e ele continuou no preparo do café. Não tinha açúcar: bebeu amargo mesmo.

Sentou-se na poltrona enquanto ouvia um jornalista qualquer falando ali na televisão. Foi quando ele se lembrou de que tinha recebido uma visita naquele dia.

Colocou o café num canto e começou a pensar.

— O que foi que ele disse mesmo?

Coçava a barba, o umbigo e voltou a mão pra dentro da calça. Pegou o café e continuou assistindo ao jornal matinal.

— Isso vai dar merda!

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Por que?


O encontro foi marcado para o fim da tarde na praça de alimentação do shopping. Ele chegou mais cedo. Estava de blusa com listras vermelhas e pretas, calça jeans e um tênis branco.
Olhava para os lados. Detestava ser o primeiro a chegar aos lugares e ficar esperando durante muito tempo. Mas ele tinha dito pra si mesmo: ouviria sua ex-namorada pela última vez.

“Não é uma última esperança que eu estou dando. Eu estou dando é uma última chance de ela dizer o que quer me dizer. Depois... nunca mais.”

Ela e toda a sua performance conhecida foram notados de longe: minissaia, blusa rosa, bolsa, cabelo loiro, salto alto e um rebolado todo ensaiado.

“Já me arrependi.”

Ela sentou-se em frente ao ex-namorado, colocou a bolsa sobre a mesa e mostrou a sua cara de indignação que tinha sido ensaiada durante muitas horas de frente ao espelho.

— E... então? — ele começou.

— Que bom que você quebrou o gelo. — Pausa. — Você é um patife!

— Como?

— Sei lá o que é patife! Só sei que você é um.

— Ótimo!

— Você... você... é mesquinho, tá! Mes-qui-nho! Tá me ouvindo?

— Todos aqui no shopping estão te ouvindo. Só se eu fosse surdo pra não ouvir. Será que não dá pra você falar mais baixo?

— Não se faça de vítima, tá! Porque sou eu quem está sofrendo com... com... toda essa situação.

— Ai, meu Pai! Será que você pode falar logo o que você quer dizer?

Ela secou as lágrimas com o dedo mínimo pra não manchar a maquiagem.

— Eu posso saber... o motivo por você ter me dado unfollow no Twitter?

— Hã?

— Não se faça de desentendido! Você sabe muito bem do que eu estou falando, tá?

Ele escorou a testa na mão suada.

— Ontem eu estava com 873 followers. Hoje, só estava com 870. Fui procurar pelos idiotas que tinham me dado unfollow e descobri que você era um deles.

— Você é maluca!

— Me fala logo o que tá acontecendo! Tem outra piriguete no meio?

— Eu não acredito que eu vim até aqui pra ouvir essa baboseira...

— Ca-la-do! Eu quero uma explicação! A-GO-RA! Eu esperava essa atitude infantil de qualquer imbecil, menos de você. Quer dizer, agora VOCÊ se encaixa na categoria de imbecil.

Ele já estava longe.

— EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ ME DEIXOU FALANDO SOZINHA DE NOVO. VOLTA AQUI! A-GO-RA!