Mostrando postagens com marcador Que situação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Que situação. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Anjo da Guarda


Enquanto as crianças entravam no carro, a mulher sentada no banco do motorista alisava a sobrancelha olhando no retrovisor interno. Seu filho mais novo nossa, quando essas crianças cresceram tanto? sentou-se no banco da frente, depois de muito pedir à irmã mais velha; a menina, de uns 15 anos, sentou-se no banco de trás com o celular na mão.

Era início da tarde e os três pouco conversavam dentro do carro; a menina zapeava pelos aplicativos do seu celular e o menino estava entretido com as músicas no som do carro. A mãe dos meninos tentava acompanhar as letras ensurdecedoras com seu inglês que tinha aprendido num curso de conversação para funcionários da universidade.

Subiam pela Av. Brasil, perto do fim do bairro com o mesmo nome. O carro deles é um desses modelos novos do Fiat Uno, branco, discreto. Pararam num sinaleiro. Mais uma vez a mulher olhou no retrovisor para conferir a sobrancelha, a menina continuava no celular e o menino remexia nuns papéis em seu colo.

O sinal ainda estava vermelho quando um rapaz apareceu de supetão na janela do lado do passageiro. Meu Deus, a mãe estava tão distraída com o retrovisor que nem percebeu o susto que o filho levou com aquela aparição inusitada. Vamos ser assaltados!, talvez tenha sido seu pensamento.

O rapaz do lado de fora tinha uma mochila nas costas, óculos de armação escura, a respiração ofegante e o desespero estampado na cara. Ele vai levar meu celular!, a menina deve ter pensado. Mas o rapaz só queria falar com a motorista:

Moça ele chamou , moça!

A mulher continuava a cantarolar enquanto arrumava sua sobrancelha, alheia ao desespero dos seus filhos. Quando percebeu a presença ameaçadora na janela do seu carro, soltou um Ai, que susto, menino!

Moça, eu preciso de ajuda o rapaz foi logo cuspindo as palavras: Eu tô com duas meninas aqui comigo. E elas precisam fazer o vestibular ali na Universidade. No campus que fica logo ali em cima! Mas a gente desceu do ônibus no ponto errado e agora só faltam 15 minutos pro início da prova. Tá muito longe pra ir a pé. A gente tá desesperado! Eu preciso arranjar uma carona pra essas meninas...!

Meu Deus! Cadê elas, menino? Coloca elas dentro do carro que eu levo elas lá agora!

Ai, moça! Obrigado, obrigado, obrigado. O rapaz agradeceu.

Esse rapaz desesperado por uma ajuda era eu; as duas meninas atrasadas para o vestibular de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia eram minha irmã e minha prima. Tudo isso aconteceu no sábado passado numa correria que durou alguns minutos mas que, pela dor nas minhas costas no dia seguinte, pareceu durar horas em busca de uma alma caridosa que pudesse nos ajudar.

Quando eu encontrei esse carro parado no semáforo, eu não me lembrei de vergonha ou timidez e coloquei o “carão” lá dentro pra pedir ajuda. Assustei o menino que estava sentado no banco da frente, mas, quando a mulher mostrou-se solidária com a minha causa, eu só fiz agradecer.

Peguei minha irmã pelo braço e joguei no banco de trás ao lado da menina que mexia no celular; depois empurrei minha prima e espremi todo mundo até que coubessem todas dentro do carro. O sinal passou do vermelho para o verde e eu, da calçada, me despedi das meninas que já arrancavam os cabelos de ansiedade.

Quando eu contei o acontecido pra minha mãe, ela me disse que essa seria uma história para rirmos daqui uns meses. Nem foi preciso tanto: no final daquela tarde, nós já estávamos nos contorcendo de tanto rir de tudo que a gente tinha feito, de todas as pessoas que a gente tinha abordado antes de encontrar alguém solícito... E agradecemos a essa mulher que eu transformei em protagonista dessa história, mesmo sem saber seu nome, sua profissão ou se era mesmo mãe daqueles meninos, mas que foi o nosso anjo da guarda naquele dia. 

domingo, 26 de agosto de 2012

Um minuto com o ídolo



Era o grande dia.

As emissoras de rádio da cidade não paravam de falar do show do ano. Era a primeira vez que o grande ídolo brasileiro fazia uma aparição por aquelas bandas do país e milhares de adolescentes histéricas se aglomeravam do lado de fora do parque onde aconteceria a aparição.

Faixas amarradas na testa, camisetas estampadas com o rosto do astro e ursos de pelúcia sendo preparados para serem arremessados pra cima do palco. Era o grande dia.

Uma moça com trinta anos incompletos tinha preferido ir para o hotel três estrelas — o melhor da pequena cidade — onde o cantor ficaria hospedado. Um pôster, um caderninho para autógrafos e sua Cybershot rosa completavam seu kit tiete.

Os assessores tinham prometido às primeiras fãs que ali chegassem uma visita ao quarto do cantor para alguns momentos de felicidade ao lado dele. A moça era a primeira da fila. Quantos sacrifícios ela não fazia por quem amava!

Um segurança de terno preto apareceu na porta do hotel levando as fãs à loucura. Agarrou a mão da moça e já não existiam obstáculos entre ela e o cantor. Era agora. Ela tinha ensaiado tudo que era pra ser dito num momento como aquele.

— Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaah! EU TE AMO! — Ela se agarrou no pescoço do cantor. — Sempre quis te conhecer. Me dá um autógrafo?

— Claro! Qual é seu nome?

— Luiza.

— Lu-i-za! Um-bei-jo! Pronto. Aqui seu caderninho. Quer tirar uma foto? — ele perguntou quando viu a câmera na mão dela.

— Sim, sim! Vem cá. — Puxou ele pelo pescoço, encostaram bochecha com bochecha e o flash cegou o ídolo.

— Aqui, Luiza! Vou te dar um CD de presente. Autografado.

— Aaaah! Eu adoro seu CD. Já ouvi todas as músicas.

— Mesmo? E qual é a música que você mais gosta?

Silêncio.

— É... Aquela que fala assim: ♪ Não vou mais te enganar: eu não sou o homem que você tanto sonhou ♪

— Você... Você tem certeza que a letra é assim, mesmo?

— Sim, sim. ♪ Se é certo ou errado pago as consequências. Posso ser julgada por um pecado de amor

O cantor riu sem graça.

— Luiza, eu nunca gravei essa música.

— Claro que gravou, Bruno?

— Não, meu nome não é Bruno. Eu sou o Luan Santana.

— Quem?

— Luan Santana. ♪ Te dei o sol, te dei o mar pra ganhar seu coração. Você é raio de saudade, meteoro da paixão

— Luan e Santana? Não conheço. Eu achei que você fosse o Bruno Dias.

— Não, não sou — Luan Santana respondeu enquanto tirava o CD autografado das mãos da moça.

— Olha, eu vou te contar a verdade, então. Eu só estou aqui por causa da minha sobrinha. Ela é que chama Luiza. Meu nome é Rose. Eu só vim pegar um autógrafo pra ela porque ela tá internada e nem vai poder ir no show, coitada.

— Mesmo? Nossa, Rose, que chato! Pode ficar com o CD, então. E mande um beijo pra Luiza.

— Não, eu não quero CD nenhum! Ela também pensou que você fosse o Bruno Dias. Nem sei quem é Luan e Santana! Mas eu vou contar pra ela que eu conversei com você. A propósito, você é o Luan ou o Santana? 

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Bate-papo


— E aí, cara? Como é que tá?

— Ah, na mesma, né! Essa greve...

— Pois é. Três meses já, hein.

— 90 dias!

— 90 dias — o outro concorda. — Tô até vendo os professores ferrando com todos os alunos quando as aulas voltarem.

— Fazer o que, né! É a única arma deles pra conseguir melhorias e tal.

— Pois é.

— Mas já cansei dessa brincadeira. Que palhaçada é essa? Já teve um monte de negociações e não resolveram merda nenhuma. E a gente vai atolando na merda cada vez mais. Isso sem falar nos Policiais Federais e nos Fiscais Ambientais que também ‘tão de greve. Vai dar um nó d’um tamanho nesse país!

— Por isso que o Brasil não vai pra frente. Com um governo desses...

— E aí, a gente perde o ritmo, fica sem fazer nada o dia inteiro...

— No início eu tava até planejando estudar, adiantar as leituras...

— Quem não estava?

— ... mas aí fui acomodando, deixando tudo pra depois.

— A gente fica tenso o tempo inteiro pensando quando as aulas vão voltar. Podem voltar a qualquer momento e, quando voltar, os professores vão socar um monte de trabalho no nosso rabo.

— Foda de-mais! E o povo que estuda em faculdade particular diz que é por isso que não estuda numa Universidade Federal. Não estuda é porque não conseguiu passar no vestibular! Sabe aquela faculdade ali no centro? Então! Junto com a prova do “vestibular” já vem a folha de inscrição e sua grade horária.

— E eles ainda dizem que é férias. Férias o rabo deles!

— Se bem que tem alguns que fizeram da greve suas férias, né. Aquele Renato filho duma quenga foi até pra praia.

— Ah, é?

— Foi, uai. Vagabundo! Tava lá com aquele volume estranho na sunga abraçadinho com a Franciele.

— Sua ex?

— Vadia! Tenho certeza que ela já tinha um trelelê com o Renato antes d’eu terminar o namoro.

— Mas foi ela que terminou.

— Tanto faz. A ordem dos cavalos não altera a carroça.

— Mas eu bem que tava querendo ir pra praia também. Em janeiro.

— Nóoooh! Bão demais, hein! Eu tava querendo ir lá pra Natal passar uma temporada.

— Já conheci Natal. Foi... uns três anos atrás. Fui com aquele amigo meu de BH, lembra?

— Ah, sei!

— Agora tava querendo conhecer Fortaleza. Nossa, vi umas fotos de lá. Tem umas festas loucas na alta temporada. Mas nem vai dar.

— Uai, por quê?

— A gente vai ter que repor as aulas, esqueceu? Essa greve...

— Pois é. Três meses.

— 90 dias!

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Besos calientes



— Soy mexicano! Arriba!

Eu vou matar o Enrique por ter me deixado com esse maluco. Ele disse que foi buscar aqueles bestas dos amigos dele, mas isso faz... faz... só trinta e quatro minutos?! Meu Deus! Achei que já tinha passado umas duas horas.

— Tequila! Tequila. Beba una conmigo, moça bonita! — ele disse com a língua entre os lábios. Ele acha que isso é espanhol. — Vamos beber tequila!

— Não, muito obrigado. Eu já disse que eu não quero. Você sabe onde o Enrique foi buscar os amigos dele?

— Para que se preocupar, bambina! — Ele acha que isso é espanhol? — Vamos dançar mucho ao som de las cucarachas.

— Você está bêbado!

— Non estoy bêbado! Usted nunca me viu bêbado. A bebida non tem efecto sobre mí, bambina! Venha bailar conmigo!

— Muito obrigado! Eu já disse que eu não quero dançar! De onde você conhece o Enrique? Você são amigos?

— Conheci o Enrique nas quebradas della vita. — Falta falar russo! — Onde non ecsistem leis dos hombres, nem dos dieuses. Lembro-me daqueles lábios carnudos e atraentes begodes movendo-se com...

— O quê?!

— Ele é muito habilidoso com aquela boca. Enrique Língua de Pluma.

Acho que minha cara de medo o incentivou a continuar.

— Lembro-me muito bem como se fosse ontem; ou anteontem. Na verdade, eu acho que isso aconteceu semana passada. Éramos siete dentro de una Variant amarela terrible: dois hombres e cinco mujeres; ou três homens e quatro mujeres; ou... nunca soube se a Priscila era homem ou mulher. Esperava descobrir naquele dia, mas estava muito escuro. Tequila, marihuana e las cucarachas. Un casal, non me lembro quem era, se agarrava no banco de trás, e eu no banco da frente querendo participar daquele delírio... Oh, sí! Era ecsitante! Mas não alcançava. O único ao meu alcance era Enrique, com seus fartos begodes e sua cabeleira loira. Mio santo Cristo! Que besos calientes. E, quando percebi, Priscila e mais outras mujeres, ou outros hombres, non me lembro, participavam do movimento e... Alguém arrancou minhas roupas e lentamente lambia a sola do meu pé. Só podia ser Enrique Língua de Pluma.

— Quê?

— Perfectamente. Nunca pensei que aquilo fosse tan ecsitante. São os nossos chácaras! Temos pontos em toda a extensão do nosso corpo que interligam todos os nossos sentidos — ele falava isso e cutucava a minha nuca com o dedo do meio. — Usted non sabe o quão ecsitante é una lambida na sola do pé. Quer que eu mostre?

— Raquel, o que você está fazendo com esse cara?

— Enrique? Onde você se meteu? Você me deixa com esse seu amigo perturbado e desaparece.

— É que o Vinícius...

— E onde você estava na semana passada quando disse que foi visitar a sua tia em Juiz de Fora? Por acaso você estava numa Variant amarela participando de um bacanal e me traindo com uma travesti chamada Priscila?

— Respeite a Priscila — o metido a mexicano falou do outro lado da mesa. — Non hable dela na minha frente desta maneira.

— Raquel, o que você andou tomando? Você aceitou tequila desse maluco?

— Não minta pra mim. Não negue o seu amigo na minha frente.

— Isso! Non me negue, senão eu te negarei diante do Pai. PAI!

— Raquel, eu... nunca vi esse cara. Eu nem sei por que você está falando com ele. E eu não sei nada sobre nenhuma travesti ou Variant amarela. Você tomou alguma coisa?

— Esse mexicano, quer dizer... esse metido a mexicano disse que você esfregou seu bigode nele em “besos calientes”. Onde estão esses “besos calientes” que eu nunca recebi?

— Raquel, eu não tenho bigodes.

— Onde está a lambida no pé que eu nunca recebi? Onde está a excitação dos meus chácaras que você nunca fez comigo?

— Quê? Raquel, eu não tenho bigodes! Eu nem tenho pelos direito. E esse cara é um maluco. Eu nunca vi ele na minha vida.

— Tudo entre nós está acabado. Não quero ficar com um homem que nunca me deu uma lambida no pé. E que nega os próprios amigos!

E virei as costas. Onde já se viu um absurdo desses? Vou procurar um homem que me lamba quando eu quiser. Ainda tive tempo de ouvir o pseudo mexicano gritando:

— Sente aqui, amigo mio, e beba una tequila conmigo! 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Mordida de cachorro



O carro virou a esquina há cem por hora! No banco do passageiro, o adolescente se contorcia de dor. Minutos atrás gritara pedindo ajuda a qualquer um: entrou no carro do primeiro que encontrou passando na frente da sua casa. Não estava em condições de reconhecer qualquer rosto.

O motorista estacionou na frente do Pronto Atendimento, e o adolescente saiu aos tropeços, dobrado em dois. Atropelaria quem passasse diante de si.

No balcão, um homem branco de sobrancelhas bem feitas perguntou-lhe o que era o problema.

— Mordida de cachorro — o garoto respondeu em gemidos.

— Onde?

— Ele mordeu o meu... o meu... pin.. pênis!

— Providenciaremos uma maca o mais rápido possível.

A história continua, mas o texto termina aqui. É que eu sempre quis escrever isso.

domingo, 27 de maio de 2012

Imperativo


— Dá pra você acender a luz?

— Por causa de que?

— Porque eu não consigo dormir... Ei, tira essa mão daí!

— (Risos)

— Tá vendo? Eu não consigo dormir sem saber onde você está com suas mãos.

— Você não pode ver, mas pode sentir.

— Para! Eu já pedi pra você tirar a mão de mim.

— (Risos)

— E o pé também. Mantenha o seu corpo afastado do meu!

(Silêncio)

— Seu cabelo tá tão cheiroso!

— Ehr... ‘Brigada!

— Você não gosta de cafuné?

— Eu já disse que... Nossa! Que mãos! Para, para... quer dizer, não para. Continua assim.

— Com quem você tá falando? Eu não tô te encostando!

— Não? Ah, meu Deus! É uma aranha gigante!!

— Calma, calma! Sou eu, gente! Só vim aqui pra ver o que vocês estavam fazendo.

(Silêncio)

— Será que eu atrapalhei alguma coisa? Tava rolando um clima por aqui?

— Não tava rolando clima coisíssima nenhuma! Ele que tava querendo me encostar a mão.

— Mas, se fosse a mão dele fazendo um cafuné e depois deslizando assim pelas suas...

— Tira a mão de mim!

— Ela é difícil, hein, cara!

— Muito.

— Será que vocês esqueceram que eu tô aqui! Se querem falar de mim, podem se retirar do quarto. Ai, o que foi esse clarão?

— Você acendeu a luz?

— Eu não!

— Nem eu.

— Eu tô sentindo a sua mão e... a sua também.

— Agora você quer sentir a minha mão, né!

— Quem tá aí? Responda! Ei, não precisa se aproveitar da situação: tira essa mão daí! Quem tá aí? Ai, o que foi isso, gente? Acende essa lâmpada!


sábado, 7 de abril de 2012

Minha Fofura


No ano passado, ele freqüentava um boteco de esquina: balconista magrelo — mais novo do que aparentava —, parede amarelada, radinho de pilha chiando, cheiro de urina e cachaça, mesa de sinuca. Ele, de chinelo Havaianas, camisa cavada amarela e bermuda jeans rasgada na coxa esquerda, ficava ali coçando o saco o dia todo.

Uma mulher fez com que ele mudasse todo o figurino. Começou por pentear os cabelos; depois comprou umas roupas novas e até um sapato em 10x sem juros. Só não conseguiu parar de fumar. Aí, era pedir demais.

Aos poucos conseguiu segurar o coração sonhador da loira. Ele, brega que só, mandava flores, bombons e perfumes. Às vezes, surpreendia-a com uns versinhos, secretamente escritos pelo seu sobrinho.

Por causa da mulher, o cenário também mudou. Ele economizou dinheiro para levar a amada — ele é muito brega! — num restaurante chique da cidade.

Ela pôs um vestido preto e ele de camisa rosa claro. Sentaram-se na mesa reservada e ele já sabia o que pedir: o orçamento era limitado.

Quando ele levantou a mão para chamar o garçom¹, não notou a presença do garçom² atrás dele carregando uma bandeja com uma garrafa de whisky e quatro copos de vidro. Mas quando o nosso personagem soube o preço dos copos, pensou que eram cristais de algum lugar remoto da Terra. Ou da Lua!

— Tá tudo bem, minha fofura! — ele representava para a namorada.

Por mais que os copos e o whisky fosse o quádruplo do capital disponível, ele deixou que o jantar continuasse. E comeram bem! A única coisa que incomodava o eterno romântico era o olhar desconfiado dos garçons. Aqueles caras já eram treinados pra sentir cheiro de classe média.

— Eu vou ao toalete, fofurinha! — ele disse tomando a decisão de sua vida.

O nosso personagem entrou no banheiro seguido pelos olhares inquisidores dos garçons. As mesas continuavam a serem servidas e o homem não saía do banheiro. Os garçons já estavam com os dois pés atrás diante daquela situação, mas não podiam tomar conclusões precipitadas. Era a política do restaurante. E qualquer passo em falso lhes custaria o emprego.

A loira já estava sozinha na mesa há meia hora. E foi ela quem pediu para que procurassem pelo seu namorado:

— Eu não posso entrar no banheiro masculino, né! — ela dissera.

Os dois garçons muito prestativos com a loira de belos atributos, entraram no banheiro. Os reservados foram abertos um por um... um por um... um por um...

— Me tirem daqui!

As únicas coisas que os garçons enxergaram foram duas pernas penduradas na janela; o resto do corpo já estava do lado de fora do restaurante.

— Me tirem daqui! Eu prometo lavar os pratos! Só não contem pra minha fofura!

quarta-feira, 21 de março de 2012

Olhares


A moça estava sentada na lanchonete com uma amiga: sapatilha, bolsa pendurada nas costas da cadeira. A amiga precisou ir ao banheiro para retocar o batom.

De longe, um rapaz notou a moça “desprotegida”. Era o momento que ele aguardava há muitos dias. Tinha ensaiado suas palavras várias vezes diante do espelho e agora era a hora.

Antes de se levantar, ainda hesitou, mas aquilo era necessário para a continuação de sua vida.

Ele se sentou diante da moça e cuspiu as palavras:

— E, então?

— ?

— Como é que fica a gente?

— Como fica a gente?! É... eu... Não tô entendendo!

— É, uai. Tipo, a gente se encontra todos os dias, troca vários olhares... E, aí começa a rolar um sentimento...

— Sentimento?

— É! Essa troca de olhares vai criando um clima, sabe? Você não notou? Te observando todos os dias é como se... é como se eu já te conhecesse, entende? Eu virei meio que seu íntimo.

— Eu nem te conheço.

— Mas é pra isso que eu tô aqui. Eu sei que você também tá amarradona na minha e...

— Amarradona? Eu já disse que eu nem te conheço.

— Mas e os olhares?

— Olhares? Que olhares?

— Você me olha com esses olhos apaixonados...

— Eu te olho como eu olho pra qualquer outra pessoa que aparece na minha frente. Eu não fico te encarando, se é isso que você está pensando!

— Eu não estou pensando em...

— Tira a mão de mim! Eu chamo a segurança. Eu tô te avisando.

A amiga voltou com o batom retocado.

— Vamo’ embora!

— Mas a gente acabou de chegar! — a amiga disse indignada colocando todos os seus apetrechos de maquiagem dentro da bolsa.

— Esse cara é louco.

E deixaram o apaixonado sozinho.

— Mas e os olhares? Os olhares!


quarta-feira, 14 de março de 2012

Mictório


Banheiro da empresa. Banheiro masculino da empresa.

O primeiro que entrou trabalhava ali há uns três anos, mas ainda estava num dos cargos mais baixos da agência. Suas camisas eram compradas numa loja de departamentos do shopping, suas calças e seu paletó já tinham dois anos de uso e seus sapatos... Esqueçam seus sapatos, coitado!

Ele preferia usar o mictório ao reservado: mais prático, mais rápido, menos água. Cada um com seus ideais. Abriu o zíper da calça e fez o que tinha que fazer.

Uns segundos depois, outro homem muito apertado entrou; muito apertado literalmente. Apertado no sentido de necessitado de dar vazão às suas necessidades fisiológicas e no sentido de espremido dentro de suas roupas curtas.

Por mais que ele encomendasse todos os seus ternos, camisas e calças num alfaiate lá do centro, sua barriga crescia em progressão geométrica e nada mais lhe cabia depois de um mês de uso. O uso do mictório nem era uma escolha; os reservados eram minúsculos.

Com dificuldade, tentando mexer os seus braços presos pelo pouco tecido, ele conseguiu arreganhar a braguilha e respirar aliviado.

Os dois ficaram ali em silencio: olhar de peixe morto para a parede, lábios cerrados e a respiração controlada. No mictório existem mais regras de etiqueta do que num jantar real. E qualquer erro pode ser fatal.

O primeiro era subordinado do segundo, mas ali eles não se conheciam; o seu chefe até preferia que nenhuma palavra fosse trocada. Era melhor que deixassem assuntos inúteis para a hora do cafezinho. Ali, os olhos não podiam se desviar um centímetro sequer.

O de terno surrado terminou primeiro, fechou o zíper e não lavou as mãos. O de vestuário exclusivo até preferiu que o outro saísse primeiro: além de não conseguir mover seus braços dentro daquele terno — que, no momento de aperto, se tornava uma camisa de força — precisou fazer um exercício com o diafragma para diminuir a barriga e fechar a braguilha. 

sábado, 24 de dezembro de 2011

Pedido de Natal


Entrar no shopping era como mergulhar num mar de luzes coloridas que piscavam esquizofrenicamente. As lojas oferecem as melhores condições de pagamento, querem aproveitar o seu 13º e estão todas decoradas de verde e vermelho.

Um Papai Noel está sentado no centro do shopping esperando que as crianças se postem ao seu lado (ou sentem no seu colo), façam seu pedido, tirem uma foto e saiam satisfeitas com o seu Ho-ho-ho!

Um menino de cabelos enrolados, olhos esbugalhados e um sorriso babão estava encantado com a chance de poder fazer seu pedido direto para o Papai Noel.

— Pai, ele veio do Pólo Norte?

— Veio, meu filho — o pai respondeu.

Era a vez do menino subir no colo do Papai Noel. Ele correu e deu um salto que foi amortecido pelo enchimento na barriga do ator contratado: um estudante de teatro que dividia o quarto da república com três colegas e tentava sobreviver com os auxílios da universidade.

— Papai Noel, eu fui obediente o ano inteiro! — o menino disse orgulhoso.

— Ho-ho-ho! Então, essa é a hora de você fazer o seu pedido. Quem sabe eu não entrego o seu presente pessoalmente na noite de Natal!

O menino ficou calado.

— Diga, meu filho — o Papai Noel o incentivou —, qual é o seu pedido?

— Papai Noel, eu quero mil reais!

— Ho-ho-ho! — Foi uma risada sincera. Aí, o Papai Noel ficou sério e disse pro menino: — Todos querem, meu filho. Todos querem...

O menino saiu do shopping com uma foto na mão sem entender o que o Papai Noel quisera dizer.