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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Eu não concordo


Dessa vez, eu não aguentei ficar calado.

Pela internet, eu acompanho a repercussão da morte de um menino de 18 anos, homossexual assumido, brutalmente assassinado em Inhuma, cidade do interior de Goiás. Um recado com a mensagem “vamos acabar com essa praga” foi encontrado na boca do rapaz e a polícia diz ser um POSSÍVEL caso de homofobia (http://migre.me/lApM7). Ao mesmo tempo, pela televisão, eu acompanhei as notícias sobre o incêndio criminoso no Centro de Tradições Gaúchas em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul, motivado pela realização de um casamento comunitário que incluiria um casal lésbico na celebração (http://migre.me/lApMK). Muita indignação e comoção nas redes sociais. E com razão!

A homofobia no Brasil não é crime e os gays ainda são acusados de sensacionalismo. Os crimes homofóbicos são tratados como crimes comuns, enquanto o número de morte dos LGBT só aumenta (Quem a homotransfobia matou hoje? - http://homofobiamata.wordpress.com/). As estatísticas nos saltam aos olhos, ao mesmo tempo em que somos colocados como uma MINORIA de rebeldes promíscuos lutando contra a família.

Os anos de opressão, os casos de violência, os assassinatos: tudo isso mete medo, faz a gente engolir seco. E esse medo, que nos relega aos guetos e aos becos escuros, nos faz ficar em silêncio e compactuar com um monte de argumentos homofóbicos, como o “eles podem fazer o que quiser, mas não na minha frente”. Esse é o objetivo desse texto.

Restringir a vivência da minha sexualidade às quatro paredes do meu quarto é como se eu desse razão ao indivíduo que diz “meus filhos não estão preparados pra ver isso”. Eu sei que não é fácil, não é simples — a família, os amigos podem colocar uma infinidade de obstáculos (cada um sabe das suas condições) —, mas é extremamente importante ter consciência do valor de sair do armário. Não para darmos satisfações da nossa vida sexual ao público, mas no sentido de dizer: eu não concordo com você!

Pode parecer implicância, mas algumas simples ações se tornam atos políticos. Dar um beijo em público, caminhar de mãos dadas pelo shopping, marcar relacionamento sério no Facebook com um rapaz é um gesto carinhoso, mas também uma resposta aos meus colegas de escola que me trataram por “boiola” e “bicha” como se eu tivesse alguma doença; é uma resposta a um homem que me jogou uma lata pela janela do carro me chamando de “veadinho”; é uma resposta a um rapaz que, no ano passado, ameaçou me agredir depois de me dizer que eu não merecia respeito por ser gay. É dizer que, por mais que eles se sintam incomodados com a minha presença, eu continuarei vivendo a minha vida.

Ser gay apenas dentro de quatro paredes (do quarto ou das boates escuras) é dizer que, sim, seus filhos não estão preparados pra lidar com isso, vou continuar escondido nas sombras, e levar uma vida dupla, sendo o heterossexual que todos querem que eu seja. Viver uma vida dupla (assim como o Cláudio, personagem do José Mayer na novela “Império”) me transformaria num sujeito fragmentado. Não ter medo de expor a minha sexualidade é um ato significativo para mostrar que nós também devemos ter os mesmos direitos dos casais heterossexuais. É ser capaz de me posicionar de maneira MADURA e CONSCIENTE e poder combater cada um desses pequenos atos de homofobia (às vezes, em formato de piadas “inocentes”). É mostrar que não somos uma minoria qualquer que luta por privilégios, mas por cidadania.


Acho que esses pequenos atos de resistência, esses atos de “eu não concordo!”, são apenas o início do combate. É NÃO TER MEDO e escancarar a violência diária que sofremos. Combate à impunidade em favor da proteção à minha cidadania. E a minha vida. E a vida dos meus amigos, do meu namorado, dos meus conhecidos e dos desconhecidos. 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Insuportáveis olhos castanhos


Que não seja imortal posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure
Vinicius
E, apesar de todo esse amor que eu sinto, você se transformou num pesadelo que me persegue à luz do dia, num fantasma que me atormenta, me acompanha como uma sombra. Não consigo me desvencilhar dessa perturbação...
Você sempre tão silencioso, chegou timidamente na minha vida por obra do acaso e se transformou no símbolo do meu egoísmo e da minha vaidade. Nossa amizade que durou alguns dias trouxe cortes profundos na sua pele, mas deixou rasgos dentro de mim: feridas que não cicatrizaram mesmo depois de todos esses anos. Você é a lembrança do quanto eu sou capaz de me preocupar apenas comigo mesmo, não me importando com a dor que eu causava ao ignorar seus sentimentos, passando por eles como que pisando em flores num jardim bem cuidado.
O que eu senti por você, naquele momento, foi uma pequena afeição que pouco significava pra mim. O seu sofrimento não me comovia; não sentia nenhuma gota de compaixão pela sua dor. Se você tomava antidepressivos pra conseguir dormir por causa das suas dores de amor... Pouco me importava.
Mas o seu silêncio, suas poucas palavras, sua timidez e esses seus insuportáveis olhos castanhos voltariam pra se vingar.
Você reapareceu com tatuagens no braço, com um sorriso radiante e de óculos de aro grosso. Sua beleza e o seu jeito tímido me deixavam encantado, mesmo que, naquela época, você não fosse tão hábil com as palavras. Nossa, naquela época... Ah, eu queria voltar à minha vida naqueles momentos antes de te conhecer, antes de ter sido enfeitiçado e ter caído apaixonado. Eu queria nunca ter te conhecido!
Eu poderia voltar no tempo e fazer tudo diferente: ter sido mais cauteloso; em último caso, nem ter te conhecido, nem ter feito esforço para te conhecer. Eu não teria sofrido tanto, eu não teria me jogado apaixonado no mesmo tempo que você, friamente, se afastava e eu me deixava com o rosto no asfalto: ou no chão sujo daquela boate. Todo esse sofrimento e essa dor que me incomodam não existiriam. Escrevi isso no meu diário uns meses atrás.
Nos dias em que eu chorava estirado na minha cama, só conseguia me lembrar da sua camisa suja de mostarda. Os seus olhos castanhos amendoados, enormes que me observavam e sorriam num movimento sincronizado ao dos seus lábios. Você aparecia nos meus sonhos e desaparecia. Tentou voltar, mas eu fui mais forte: resisti às suas investidas e me vinguei me entregando a outros corpos mais interessantes.
E eu não imaginava que poderia existir uma vingança ainda maior da sua parte...
Voltou tímido, silencioso (como de costume), de blusa marrom e sorriso largo na época que você estava lendo Jack Kerouac. O trauma da minha decepção anterior me deixou com os passos inseguros: fui pisando em ovos; fui cauteloso, com medo de escorregar nos cacos da minha vida espalhados no chão e cair mais uma vez.
O seu autocontrole e a maneira como você retribuía o meu carinho me deixaram mais confiante. E eu estive cego; na verdade, ainda não consigo ver muito bem atrás dessa neblina que embaça as lentes dos meus óculos. De um afeto inocente e egoísta, passando por uma paixão desenfreada e irracional, agora eu me encontrava completamente submerso num amor confortável, uma rotina que dava sentido aos meus dias, um fogo brando que, com muito esforço, conseguiu se manter aceso durante um tempo; esse calor que conseguia suprir todas as minhas carências, satisfazia todos os meus desejos...
E você preferiu jogar um pano grosso em cima dessas brasas. Mas teria sido melhor se você jogasse logo um balde cheio d’água: a coberta grossa controlou o essa chama durante um tempo, mas, depois, uma arfada de ar fez com que o fogo se espalhasse, queimasse o pedaço de pano e ficasse mais forte, incontrolável, insuportável... como seus olhos.
Eu poderia voltar no tempo e fazer tudo diferente: ter sido mais cauteloso; em último caso, nem ter te conhecido. Eu não teria sofrido tanto... Ai, não teria sofrido, mas também não teria amado. Não teria conhecido as nuanças do seu mal-humor matinal e não saberia do seu amor por sorvete de abacaxi e por Amélie Poulain; não teria te visto cantando uma música brega enquanto dançava nem teria sentido a emoção de sair daquela festa de mãos dadas com você; e também não teria aquelas lembranças da praia e não teria aprendido com você as belezas dos road-movies.
Eu te amo, mas eu amaria se eu deixasse de te amar. 

terça-feira, 11 de março de 2014

Lembranças


Quando a saudade aperta
É só fechar bem forte os olhos
Que logo ela escorre de mim.
Lucão

Enquanto, da minha janela, eu o observava ir embora na manhã de quinta-feira, também senti uma vontade enorme de fugir; queria ter pra onde me esconder, queria ter alguém que me mostrasse que caminho tomar: eu seguia meu caminho tortuoso e as circunstâncias me obrigavam a pegar um atalho inesperado. Na minha inocência apaixonada ou na minha paixão inocente fiz planos, e diante dos seus cacos espalhados no chão, pensei que esse seria o meu maior tormento... Mas as lembranças são ainda mais cruéis com os amores feridos.

Quando percebi, as lembranças já me engoliam, me levantavam e depois me afogavam como aquelas ondas do mar que enfrentamos de mãos dadas: assim como eu não conseguia resistir à força do oceano, meu fôlego era pouco para driblar as lembranças. Lembranças tão vívidas que eu podia sentir seus cheiros, suas texturas, seus sabores. Ainda posso.

Elas me atacavam no meio da tarde ou durante o sono trazendo a sua imagem diante dos meus olhos marejados. Lembrava-me de como era vê-lo todos os dias e, mesmo assim, ter a sensação de que era a primeira vez; de como eu nunca soube lidar com o seu cheiro inebriante, eu embriagado, sorrindo bêbado apaixonado.

As lembranças me mostravam seu sorriso de timidez que semicerrava os olhos e escondia os dentes; depois, sorriso branco iluminado. E ainda os sussurros com aquela voz grave e macia como lençóis limpos, que acariciavam meus ouvidos: e eu mais uma vez estonteado, trocando os passos. A mesma voz, que mais tarde embriagada, gritava meu nome no metrô, na calçada, de braços abertos olhando pro mar: o mesmo mar que sempre me trará tais lembranças. Como não ter saudade também dos silêncios, das intenções combinadas que dispensavam as palavras, que nos desobrigavam das roupas, que nos envolviam em suores.

Os cabelos bem cortados, a nuca, a única parte do corpo que eu admirava enquanto o olhava de longe; a blusa marrom que pedia pra enfiar-me debaixo dos seus abraços; à distância, os seus beijos de lembrança no fim das minhas tarde eram como borrifadas de um perfume bom: fugazes e prazerosas.

Minha memória estupidamente perfeita me lembrava da mão carinhosa sob meu queixo, escondida pela meia-escuridão do cinema, que me deixou com a mão suada, incapaz de ler as legendas do filme. Aquele dia quente que teve gosto de chocolate, de novidade, de vinho e de confissões.

E os beijos... Inéditos. Foi com ele que descobri como comunicar-me pelos lábios, mostrar-lhe os meus sentimentos pelos beijos: desde os mais puros, delicados como uma flor, até os mais atrevidos, com muita língua e pouco fôlego. Beijos salgados e cheios de areia, beijos tímidos cochichados, beijos desesperados pelas despedidas, beijos com o gosto do café da manhã. Beijos roubados, trocados, pedidos, vendidos e comprados, tendo outros como moeda. E na quinta-feira pela manhã... Eu teria me demorado mais se eu soubesse que aquele seria nosso último beijo.

Atormentado, não conseguia avaliar o tamanho do meu esforço para apagar todas essas lembranças: tentando me consolar, eu já conseguia enxergá-las, ali num futuro próximo, todas acinzentadas, incapazes de me causar qualquer dano. Depois de horas de suor frio e banhos quentes, soube que eu não seria capaz. Eu não conseguiria e não quereria apagar as lembranças mais doces desses tempos. Eu não saberia como esquecer a camiseta laranja do nosso primeiro beijo e do nosso último abraço: eu não quero esquecer. Não me deixe esquecer. Eu não vou me deixar esquecer. Eu não vou deixar de sentir isso que eu sinto por você. Deixa eu segurar sua mão.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Livros, livrarias e librianos


Era uma livraria imensa: lombadas de todas as cores e tamanhos me observavam enquanto eu caminhava entre as prateleiras. Muitos (a maioria!) pouco me atraíam, mas, pelo contrário, alguns eram extremamente sedutores: uma capa bonita, um título sugestivo ou um nome conhecido me faziam parar e olhar com mais atenção. Um detalhe faz toda a diferença!

Eu estava com pouco dinheiro no bolso e, desde o início, eu sabia que só poderia sair dali com um livro. Apenas um. No meio de toda aquela variedade de opções e tamanhos e formas e cores e cheiros... eu deveria escolher apenas um. Que dúvida cruel!

Eu já estava meio decidido quando pus meus pés ali, mas eu acho que gosto de sofrer. A dúvida me consome até a última gota da minha sanidade. Dizem que isso é um mal dos librianos, mas eu ainda não consigo aceitar que apenas nós, pobres mortais dos meses de setembro e outubro, soframos com tal aflição, com tamanha indecisão. E naquele infinito de livros, dois deles me atraíram desde o início.

Um deles era um clássico da literatura inglesa. Maravilhoso! Digo isso com todas as letras porque ele já esteve em minhas mãos e pude saboreá-lo palavra por palavra. Quantos momentos de prazer! Ele não é um desses livros que logo te chamam a atenção: ele estava escondido lá na penúltima prateleira, com seus delicados detalhes verdes, perto dos inúmeros volumes do George Orwell. Já estava bem desgastado por causa dos anos de manuseio, mas estava com as páginas inteiras, com as letras legíveis. Oh, e quantas palavras bonitas!

O segundo livro era visível lá da calçada, antes de entrar na livraria. Um best-seller, também inglês, colocado bem na entrada da livraria. Aquilo formava uma pirâmide de livros. Era impossível passar por ele e não olhar. O nome do autor chamava a atenção, o layout da capa era atraente e moderno daqueles que poderiam servir para decoração na mesinha de centro e, eu sabia... todos desejavam aquele livro. Todos!

Eu queria os dois, mas... só podia levar um.

O primeiro livro é um daqueles que você guarda num lugar mais baixo da estante porque ele não combina com sua decoração, mas, no dia-a-dia, você sempre recorrerá a ele. Vendo um filme, conversando com uns amigos ou apenas pensando na vida, você vai se lembrar das palavras bonitas e dos conselhos sábios que aquele livro te deu.

O segundo livro não era bem assim: eu teria uma leitura gostosa e ficaria deliciado com o enredo, mas não sei se é um livro que me incomodaria, que poderia me ensinar coisas novas... O seu ponto mais forte era a novidade: o prazer de tê-lo comigo ao meu lado todas as noites, a satisfação de ouvir suas palavras doces, de tê-lo nos meus braços, de folheá-lo e sentir o seu cheiro agradável, de sentir que eu o tinha enquanto outros o desejavam.

Eu não emprestaria nenhum dos dois! Os dois tem importância para mim, mas em medidas diferentes. O primeiro livro seria capaz de me satisfazer sempre: se ele permanecesse comigo pelos próximos vinte anos, eu sei que ainda assim ele teria algo a me acrescentar. Por outro lado, o segundo livro é de um escritor contemporâneo que eu gosto muito e não emprestaria com ciúmes de amassar a capa ou marcar a lombada. Sei que, para o resto da minha vida, vou me lembrar do deleite de tê-lo comigo, dos prazeres íntimos que ele foi capaz de me proporcionar, mas não tenho certeza se ele poderá me dizer muitas coisas depois de um tempo. Tenho medo de não mais gostar dele depois que suas páginas amassarem ou amarelarem quando alguém lhe colocar a mão suja de mostarda.

Tenho os dois na minha mão agora! Racionalmente, a conclusão é óbvia: o primeiro livro é bem melhor; mas meu coração dispara quando eu me lembro do segundo livro e sofro de pensar que terei que deixá-lo para outra hora. Quem me dera não ser um libriano!

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Do encontro


escrito em 04 de fevereiro de 2013

Telefonema
Cinema
Poema

Dedos
Enredos
Brinquedos

Toque
Choque
Enrosque

Cheiro
Faceiro
Passageiro

Lábio
Sábio
Hábil

Beijo
Trecho
Desfecho

Conselheiro


— Não deixe que o entusiasmo faça vocês gastarem tudo de uma vez.

— O problema é que eu sempre fui racional até o último nível. Fico me gabando do meu autocontrole. É a primeira vez que eu fico assim. É a primeira vez que eu me apaixono com essa força. Não tenho prática em administrar isso.

— Não estou falando pra não sentir, não pensar, não se aventurar. O que eu quero dizer é: não ponha o carro na frente dos bois. E outra: ninguém sabe administrar. Não importa quantos namoros a pessoa já teve, nem quantos encontros... Você é você agora e está em constante mudança, assim como a outra pessoa. Nunca se encontra uma mesma pessoa duas vezes, a gente só não estranha porque acompanhamos a mudança um do outro. Quando o coração pulsa num determinado encontro, ele pulsa de forma única. Única porque é você naquele momento, porque é por aquela pessoa naquele momento, naquele dia... Acho que aquele negócio da conquista ser diária tem a ver com isso. Agora pensa: pra que correr? Os momentos acontecem quando tem que acontecer. 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Por que não me cativas?


“Mas aconteceu que o pequeno príncipe [...] descobriu, enfim, uma estrada. [...]

Bom dia! disse ele.

Era um jardim cheio de rosas.

Bom dia! disseram as rosas.

Ela as contemplou. Eram todas iguais à sua flor.

Quem sois? perguntou ele, espantado.

Somos as rosas. responderam elas.

Ah! exclamou o principezinho...

E ele se sentiu extremamente infeliz. Sua flor lhe havia dito que ela era a única de sua espécie em todo o universo. E eis que havia cinco mil, iguaizinhas, num só jardim!

‘Ela teria se envergonhado’, pensou ele, ‘se visse isto... Começaria a tossir, simularia morrer para escapar ao ridículo. E eu seria obrigado a fingir que cuidava dela; porque senão, só para me humilhar, ela seria bem capaz de morrer de verdade...’

Depois, refletiu ainda: ‘Eu me julgava rico por ter uma flor única, e possuo apenas uma rosa comum. [...] Isso não faz de mim um príncipe muito poderoso...’

E, deitado na relva, ele chorou.

E foi então que apareceu a raposa: [...]

A gente só conhece bem as coisas que cativou disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo já pronto nas lojas. Mas, como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. [...]

Depois ela acrescentou:

Vai rever as rosas. Assim compreenderás que a tua é única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te presentearei com um segredo.

O pequeno príncipe foi rever as rosas:

Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes ninguém [...] Sois belas, mas vazias continuou ele. [...] Um passante qualquer sem dúvida pensaria que a minha rosa se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que todas vós, pois foi ela que eu reguei. Foi ela que pus sob a redoma. Foi ela que abriguei com o para-vento. Foi por ela que eu matei as larvas (exceto duas ou três, por causa das borboletas). Foi ela que eu escutei se queixar ou se gabar, ou mesmo calar-se algumas vezes, já que ela é a minha rosa.

E voltou, então, à raposa:

Adeus... disse ele.

Adeus disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. [...] Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante. [...] Os homens esqueceram essa verdade disse ainda a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...

Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, para não se esquecer.”

terça-feira, 30 de julho de 2013

Livre pra voar


Era um pássaro lindo que estava sempre a mudar de cor. A primeira vez que eu o vi, tinha penas de um amarelo pálido, suave e macio; nos dias em que o sol queimava mais ardente no céu, ele aparecia com o topo da cabeça pintado de laranja e a calda esfumaçada de vermelho; mas nada se comparava aos dias frios em que ele aparecia com o peito verde e estufado: pinceladas esverdeadas tão delicadas que me traziam calafrios todas as vezes que eu encarava tamanha singeleza.

Quando eu o conheci vestindo seu traje amarelo pálido, como eu já disse , ele apareceu rápido na minha janela e se foi sem nem mesmo cantar-me algumas notas. No entanto, aquele movimento fugaz chamou-me a atenção. No dia seguinte, ele voltou no mesmo horário e eu pude deslumbrar-me com aquelas penas por mais tempo. Nos poucos segundos em que ele permaneceu ali, eu pude notar o que tanto o atraia: farelos que caiam no umbral da janela quando eu comia, observando o movimento da rua lá embaixo.

No outro dia, bem cedo, eu deixei que as migalhas caíssem com mais frequencia: e, mais tarde, lá estava ele ciscando os restos de bolos e biscoitos. Comprei-lhe comida de pássaro e, daquele dia em diante, alimentei-o como deveria ser. Religiosamente, ele aparecia sempre no meio da tarde, batendo o bico alaranjado na estrutura de metal.

Com o passar do tempo, ele foi se demorando e soltando suas asinhas; cantava suas canções de passarinho, enquanto eu me entretinha com um livro ou com minha gaita. Arrisquei-me a colocar os farelos na palma da minha mão para que nosso contato fosse mais próximo; no início, ele pareceu tímido na verdade, até eu estava um pouco temeroso , mas no fim ele se acostumou.

As pessoas que apareciam no meu quarto me viam acariciando a cabeça multicor de um pássaro tão mágico e diziam para que eu não mais o alimentasse, enquanto outros diziam que eu deveria prendê-lo numa gaiola para que pudesse exibir aquele belo exemplar da espécie. Não fiz nem uma coisa nem outra: nossa relação estava ótima do jeito que estava.

Algumas vezes eu tinha que viajar por obrigações familiares, mas sempre deixava um pote com farelo para o meu passarinho; quando eu voltava, o pote estava vazio. Talvez tivesse sido outro pássaro, mas isso não me importava. O que me interessava era que o passarinho colorido pelo qual eu tinha me apaixonado sempre aparecia de volta.

Quando ele demorava, eu me preocupava. Passava dias sem aparecer. Houve também o dia em que ele ficou preso no espaço apertado de uma calha: sempre que ele se aproximava de lá, eu tentava tirá-lo, mas ele era muito teimoso e sempre voltava. Depois do dia em que ficou com as asas sem movimento e eu tive que tirá-lo com muito esforço, ele não mais se atreveu a voltar lá.

Ele partia todos os dias e sempre voltava. Sempre voltava. Dessa vez, porém, ele não voltou. Meu coração se esmaga só de pensar que aqueles dias em que ele comia na minha mão nunca mais voltarão; o meu coração chora de pensar que ele nunca mais voltará aos meus cuidados. 

Ele alçou voos mais longos, agora está percorrendo caminhos diferentes... Não o culpo! Ele é livre. Eu tentava me enganar dizendo que ele era meu passarinho, mas ele nunca foi meu: ele sempre foi e sempre será livre para ir onde suas asas puderem levá-lo.

Eu vou sofrer muito eu estou sofrendo muito , mas eu sei que algumas coisas são inevitáveis. Só queria ter a oportunidade de acariciá-lo pela última vez. Mas se, mesmo eu lhe dando todas as chances de ser feliz comigo, ele ainda cometer atos irresponsáveis e desaparecer durante muito tempo, eu sempre estarei aqui esperando pela sua volta.  

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Uma história de amor


Nos últimos meses tenho lido e refletido bastante sobre o desenvolvimento de roteiros e livros justamente pela minha pretensão em me enveredar por esses caminhos num futuro não muito distante. É claro que enquanto penso em minhas pretensões literárias, sonho em ser um grande escritor. Ninguém sonha em ser um profissional medíocre: queremos fazer algo diferente; queremos que, de alguma maneira, tenhamos algum destaque no meio da multidão. E eu, como qualquer um, não sonho em ser um escritor esquecido na prateleira de um sebo.

Dessa maneira, vejo o quanto é importante entender o mundo para o qual queremos vender nossa obra. Se dermos sorte (na verdade, eu não sei se devo usar essa palavra), nossa ideia perdurará séculos e fará a alegria de gerações posteriores: Romeu e Julieta, do Shakespeare, A Escrava Isaura, do Bernardo Guimarães, e Titanic, do James Cameron, estão aí para não me deixar mentir.

Penso que essas são obras que emocionam geração após geração justamente pelo fato de conseguir traduzir com habilidade sentimentos muito próprios que, de certa maneira, permaneceram intactos com o passar dos anos. E que meus professores de História não leiam isso!

São histórias que tratam de questões próprias de seus tempos, mas que conseguiram ser tão universais que continuam nos convencendo até hoje. Acho que esse é o ponto-chave de um roteiro, livro ou qualquer outra obra literária ou audiovisual. Conseguir entender e traduzir sentimentos de uma época é uma habilidade imprescindível para quem produz histórias. Nesse sentido, preciso elogiar o trabalho encantador produzido no horário nobre da TV Globo.

A Globo talvez seja essa potência televisiva justamente pelo fato de conseguir dar conta dessas questões contemporâneas às suas produções: não só os medos, desejos e ambições de uma época, mas também preocupações sociais como a dependência química, o alcoolismo, a esquizofrenia e, mais recentemente, o tráfico de pessoas. A nova novela das nove, Amor à Vida, ainda não mostrou esse seu lado característico das novelas do horário, mas já teceu uma linda história de amor. Linda e, ainda mais importante, convincente!


Não posso desconsiderar que uma novela é uma obra coletiva, mas o trabalho de roteiro do Walcyr Carrasco é sublime. Carrasco é o responsável por fazer com que eu me apaixonasse pelos clichês em suas novelas das seis; errou um pouco a mão em suas novelas das sete, mas voltou com diálogos profissionais em Gabriela.

Amor à vida é cheia de clichês, mas, nas mãos certas, eles ganham outro tempero: o vilão ambicioso que tem inveja da irmã; essa irmã, uma moça rica e infeliz, cansada de sua vida monótona, se apaixona e foge com um hippie que ela conhece no Peru; esse ato causa o descontentamento (isso é eufemismo!) da mãe autoritária... 

Uma história de amor protagonizada por Paola Oliveira, a nova Regina Duarte das novelas, Malvino Salvador, que mostrou um profissionalismo surpreendente no papel do recém-viúvo Bruno (alguém sabe se ele entrou numa fonoaudióloga?), Juliano Cazarré, que emplaca o terceiro sucesso consecutivo no horário das nove com três textos excelentes, Mateus Solano, que tirou a sorte com o personagem mais interessante dos últimos anos, e Suzana Vieira, que está tendo a oportunidade de mostrar que é uma atriz de primeira linha depois de tantos anos fazendo personagens espalhafatosos (e chatos) do Aguinaldo Silva.


Walcyr Carrasco, assim como o aclamado João Emanuel Carneiro, tem senso de humor e uma habilidade com tiradas e situações inusitadas que me deixa eufórico no sofá. Consegue mostrar em Amor à Vida a classe C que é tão aguardada na recente dramaturgia, mas coloca o núcleo rico da novela no centro da história; o que já me fazia falta. É uma novela ágil, com enquadramentos de câmera que eu nunca tinha visto em novelas e que, como disse um crítico, promete consolar os viúvos da Carminha de Avenida Brasil.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Déjà vu



“Se lembra quando a gente chegou um dia
acreditar que tudo era pra sempre?
Sem saber que o pra sempre sempre acaba”

Eu já tive uma amizade de duas semanas. É uma das coisas mais vívidas e mais felizes impregnadas na minha memória. Foram duas semanas incrivelmente intensas, com encontros no meio da tarde, abraços apertados e sorvetes de abacaxi. Uma amizade que teve uma vida útil de duas semanas: de um domingo à noite de uma semana até um sábado à tarde na outra. Com direito à despedida!

Que momentos encantadores! Foi uma amizade intensa, forte, rápida como fogo na grama seca. E, como esse fogo, queimou até onde pôde, mas depois se apagou.

Foram duas semanas muito felizes pra mim. Pra ele também. As consequências dessa amizade é que talvez tenham sido dolorosas pra ele. Talvez, não; tenho certeza que foram dolorosas, traumatizantes até. Nesse pouco tempo juntos, ele me contou que, às vezes, precisava de antidepressivos para dormir e, pelas olheiras, eu sabia que suas noites não estavam sendo tão agradáveis.

Eu também sabia de um amor que ele sentia; eu sabia que era um amor sincero. Eu, sempre descuidado, cheguei pisando nas flores que estavam no caminho. Destruí todo o jardim, mas eu nem me dava conta do quanto aquilo era doloroso pra ele. Eu vi que ele estava triste, que seus olhos estavam cheios de lágrimas; e, no fundo, eu sabia que aquela dor era culpa minha. Por isso eu ofereci um abraço... que foi recusado. Mas não guardo mágoas por isso! Talvez eu merecesse.

Acho que eu sempre dei mais valor ao jogo do que às peças. Não entendia muito bem que as peças tinham sentimentos, que elas sofriam; eu jogava sem me dar conta disso tudo. Eu queria era jogar: ganhar ou perder pouco importava; as peças é que se movam da maneira que acharem melhor. Eu queria jogar!

Que jogo agourento!

As lembranças vieram como um tsunami e me derrubaram. O jogo se repete, o presente imita o passado e eu tenho essa sensação de déjà vu. Tudo parece se repetir. A minha alegria, a minha vontade de jogar e, do meu lado, o esforço, a dor velada, o amor maltratado. Eu queria poder mudar tudo isso, mas eu não consigo. As coisas mudam, tudo muda. Alguns são capazes de se moldar como o barro do artesão; ao passo que eu me sinto como um bloco de gelo impenetrável.

Acho que as feridas do meu amigo já cicatrizaram. As minhas talvez estejam apenas no início: mesmo assim, elas serão muito pequenas perto do sofrimento que eu o fiz passar. Queria poder retomar a amizade, mas... prefiro deixar como está. Deixe que o jogo continue e quem sabe essas duas peças não voltem a se encontrar.

domingo, 21 de abril de 2013

Verdade e consequência


Lidar com pessoas sempre foi difícil pra mim. Quando eu era criança, eu tinha tanta dificuldade em me relacionar com outras pessoas que minha mãe achou que eu fosse anti-social. Minha dificuldade em me relacionar vinha não só da minha aversão a qualquer tipo de sociabilidade relacionar-me com os livros era bem menos complicado , mas também por eu ter certa repulsa por manter contatos “íntimos”: aperto de mão, abraço, beijo no rosto... Beijo na boca e sexo, mesmo na adolescência, eram coisas completamente fora de questão!

Com o tempo eu fui aprendendo a superar essas paranoias; o mundo me fez aprender. Quando se tem 18 anos e sua pretensão é sair da casa dos pais e mudar para outra cidade sozinho, você é obrigado a dar conta dos seus próprios problemas. Sendo curto e grosso: você tem que aprender a conversar com as pessoas! Deixar de ser aquele bicho do mato que se esconde debaixo do vestido da mãe quando encontra alguém desconhecido.

Hoje em dia, eu acho até divertido criar novos laços com as pessoas à minha volta. Gosto de criar técnicas para me sair bem num primeiro contato com as outras pessoas, por exemplo: que tipo de piadas contar, que assuntos tratar num jantar, o que falar num primeiro encontro. Eu amo fazer novas amizades. Não estou falando de fazer novos “amigos de infância”, mas de criar vínculos amigáveis com pessoas diferentes. Isso é um desafio que eu me proponho todos os dias!

Além disso, e eu já disse isso em outra ocasião, eu sinto a necessidade de ser lembrado. Eu não gosto de ser apenas mais uma pessoa que os outros conhecem e logo será esquecido. É claro que eu não consigo mudar a vida de todas as pessoas à minha volta, mas só um ato de gentileza nesse mundo repleto de pessoas cinzas já faz uma grande diferença. As pessoas vão se lembrar daquele que te mandou flores, que te deu um cartão de aniversário ou que ouviu suas lamúrias num momento difícil.

Pensar como fazer a diferença na vida das pessoas e como fazer novas amizades tornou-se a parte mais divertida do meu dia-a-dia. E nesses últimos meses, a vida deu-me a oportunidade de fazer uma autoavaliação: na verdade, eu fui obrigado a rever meus conceitos do que é ser amigo, filho, namorado, afilhado, sobrinho, irmão, colega de trabalho... Acho que depois dessa avaliação eu estou muito mais consciente das minhas ações e já estou muito mais seguro para os próximos relacionamentos que virão. Já consigo argumentar melhor e traduzir em palavras muitas coisas que eu vinha refletindo desde sempre.

Mas a maior conclusão de todas é: as pessoas não gostam da verdade. É impressionante o quanto todos nós julgamos as pessoas por elas serem exageradas, mentirosas, falsas, mas nós não aguentamos a verdade. Eu já menti muitas vezes para evitar a fadiga, mas hoje eu já consigo tomar as rédeas das situações e acho muito melhor ser sincero. Mas ninguém quer ouvir a verdade! As pessoas querem ouvir as “verdades” que são confortáveis: mesmo que essas “verdades” não sejam verdadeiras. Ser sincero é correr o risco de ser chamado de rude, inconveniente, insensível e mais um milhão de termos negativos. Você é julgado por mentir, e condenado por falar a verdade.

Mesmo eu tendo tanta experiência com relacionamentos humanos, eu fui surpreendido com um pensamento: se as pessoas gostam apenas das “verdades” que gostam de ouvir, todos os relacionamentos duradouros são baseados na mentira? Eles tem que ser baseados na mentira?

Eu não soube responder a essas questões. Só sei dizer que eu continuarei falando a verdade quando eu achar que deva dizer a verdade. E eu também sei ser falso, mas a minha máscara cai se você souber onde desamarrar.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Entrelinhas



Quantos anos? Se alguém me perguntasse, eu saberia dizer com exatidão que foram quatro anos e três meses desde o dia em que ele tinha partido para estudar em Lisboa.

Ele enviava-me cartas mensalmente: a maioria delas  muito animadas, por sinal  descrevia os costumes europeus, as paixões passageiras e a vida boêmia na noite lisboeta. Quão feliz ele estava! Dava-me a impressão de que ele gozava de uma felicidade plena do outro lado do Atlântico.

Nas minhas respostas, eu não abria mão de demonstrar o quanto as conquistas dele me causavam satisfação e deleite. Mas a tristeza, impregnada de saudade, estava sempre ali entre as páginas, entre as manchas de tintas, entrelinhas. Era inevitável!

Na noite em que ele partiu, enquanto ele embarcava num navio no porto, eu encostei a cabeça no travesseiro e tentei entender o que eu sentia. Era uma angústia sem tamanho: uma sensação que trespassava o meu peito como uma lâmina, fechava a minha garganta e não me deixava controlar as lágrimas que saiam desimpedidas. Um murro no estômago, a imobilidade das pernas...

E, naquele momento, ele descia do trem e firmava os pés no chão da estação! A barba crescera-lhe pelo rosto outrora tão infantil e agora ele parecia um homem: engravatado, roupas alinhadas, chapéu e sapatos engraxados. Por trás das lentes diminutas dos seus óculos, consegui vislumbrar o prazer de reconhecer o meu rosto; essa felicidade traduzida num sorriso largo e ensolarado.

Durante esses quatro anos, eu tive inúmeros momentos de alegria e divertimento, nos cafés e nos bares, nas livrarias e nas esquinas; tudo aquilo me fizera esquecer, mesmo que temporariamente, a angústia da ausência. Mas aquelas eram sensações secundárias. Foi apenas com a visão daquele homem na minha frente é que eu senti o peso da dor esvaindo-se junto à fumaça da locomotiva.

Quando ele segurou sua mala com firmeza e colocou-se em passos largos na minha direção eu senti... Junto ao burburinho dos encontros saudosos ao nosso redor, eu entendi que eu o amava. Sempre o amei desde o primeiro momento em que coloquei os meus olhos sobre ele. Eu o amava mais do que pela sua aparência inclusive, ele era possuidor de uma beleza sutil , mais do que por tudo que ele tinha feito por mim durante todos aqueles esquecidos anos da mocidade, mais do que pelas cartas, mais do que por qualquer outra coisa que vivêssemos dali pra frente. Eu o amava apenas pelo simples fato de ele existir. Sua existência era essencial para a minha.

Ele era o meu mundo! Eu o amava mais do que a mim mesmo.

Todos os sentimentos que eu tinha esquecido para que a minha vida ou essa sobrevivência a que eu chamei de vida durante esses anos pudesse caminhar, correram de volta às minhas veias como um tiro de um mosquete. E o meu choro caiu incontrolável pelos ombros dele quando eu o abracei, quando eu abracei o meu mundo. A minha vida estava segura entre os meus braços e eu não deixaria que ela fugisse mais uma vez de mim; não queria tornar-me um jovem pálido e cadavérico, entregue aos vícios e aos erros. Eu segurava meu mundo e ele retribuiu com vigor. Sem entender.

sábado, 16 de março de 2013

Numa curva da estrada




"Viajando solitário
Mergulhado na tristeza
Numa curva da estrada
Eu tive uma surpresa
Uma loira encantadora
Bonita por natureza
Me pediu uma carona
Eu atendi com destreza
Sentou bem pertinho de mim
Com muita delicadeza
O meu carro foi o trono,
Eu passei a ser o dono
Da rainha da beleza
Foi o dia mais feliz
Que o meu coração sentiu
Mas meu mundo encantado
De repente destruiu
Ao ver a loira tremendo,
Gemendo e suando frio
Parei o carro depressa
Na travessia de um rio
Enquanto eu fui buscar a água,
Que tão triste ela pediu
Ouvi cantar os pneus
E me dizendo adeus
Com meu carro ela sumiu
Somente um bilhetinho
Na estrada eu encontrei
Quando acabei de ler
Emocionado eu fiquei
No bilhete ela dizia
Por você me apaixonei
Só peço que me perdoe,
O golpe que eu lhe dei
Para alimentar a esperança
O seu carro eu levarei
Me procure por favor,
Quando me der seu amor
O carro lhe entregarei
Quem estiver me ouvindo
Preste muita atenção
O meu carro não tem placas
Mas vou dar a descrição
É branco e tem uma loira
Charmosa na direção
Dou o carro de presente
A quem fizer a prisão
Por ela ter roubado o carro
Já dei a absolvição
Mas vou lhe dar um castigo
Vai ter que viver comigo,
Por roubar meu coração."
Uma história linda que merece ser compartilhada pelo simples fato de ter sido contada com tanta simplicidade.