sábado, 23 de junho de 2012

Not Today


“— Esquerda — Syrio cantou. — Baixo — sua espada era uma mancha indistinta, e o Pequeno Salão ecoava com os clac, clac, clac. — Esquerda. Esquerda. Alto. Esquerda. Direita. Esquerda. Baixa. Esquerda!

A lâmina de madeira a atingiu na parte superior do peito, num súbito golpe que era mais doloroso por ter vindo do lado errado.

— Au — ela gritou. Teria ali um novo hematoma quando fosse dormir, em algum lugar no mar. Um hematoma é uma lição, disse a si mesma, e todas as lições nos melhoram.

Syrio deu um passo para trás.

— Agora está morta.

Arya fez uma careta.

— Você me enganou — disse com veemência. — Disse esquerda e foi pela direita.

— Precisamente. E agora é uma garota morta.

— Mas você mentiu!

— Minhas palavras mentiram. Os olhos e o braço gritaram a verdade, mas você não estava vendo.

— Estava, sim — Arya rebateu. — Observeio-o segundo a segundo!

— Observar não é ver, garota morta. O dançarino de água vê. Anda, deixe a espada, agora é tempo de escutar.

Arya o seguiu até junto da parede, onde ele se instalou num banco.

— Syrio Forel foi a primeira espada do Senhor do Mar de Bravos, mas saberá você como isso aconteceu?

— Você era o melhor espadachim da cidade.

— Precisamente. Mas por quê? Outros homens eram mais fortes, mais rápidos, mais jovens. Por que Syrio Forel era melhor? Vou lhe dizer — tocou ligeiramente a pálpebra com a ponta do mindinho. — Ver, ver realmente, é o coração de tudo. Escute-me. Os navios de Bravos navegam até tão longe quanto os ventos sopram, até terras estranhas e maravilhosas, e quando regressam, seus capitães trazem animais bizarros para a coleção do Senhor do Mar. Animais como você nunca viu, cavalos listrados, grandes coisas malhadas com pescoços longos como pernas de pau, ratos-porcos peludos do tamanho de vacas, manticoras com espinhos, tigres que transportam as crias numa bolsa, terríveis lagartos que caminham com foices no lugar das garras. Syrio Forel viu estas coisas. No dia do qual falo, a primeira espada tinha morrido havia pouco tempo e o Senhor do Mar mandou me chamar. Muitos espadachins tinham sido levados à sua presença e a todos mandara embora, sem que nenhum soubesse por quê. Quando foi a minha vez, encontrei-o sentado com um gordo gato amarelo ao colo. Disse-me que um dos capitães lhe tinha trazido o animal de uma ilha para lá do sol nascente. ‘Já viu algum animal como ela?’, ele perguntou. E eu lhe disse: ‘Todas as noites, nas vielas de Bravos, vejo mil como ele’, e o Senhor do Mar riu e nesse mesmo dia fui nomeado primeira espada.

Arya contraiu o rosto.

— Não entendi.

Syrio rangeu os dentes.

— O gato era um gato comum, nada mais. Os outros esperavam um animal fabuloso, e era isso que viam. Era tão grande, diziam. Não era maior que qualquer outro gato, tinha apenas engordado devido à indolência, pois o Senhor do Mar o alimentava de sua própria mesa. Que curiosas pequenas orelhas possuía, diziam. Suas orelhas tinham sido roídas em lutas entre crias. E era claramente um macho, mas o Senhor do Mar dizia ‘ela’, e era isso que os outros viam. Está ouvindo?

Arya refletiu sobre aqui.

— Viu o que havia para ver.

— Precisamente. Abrir os olhos era o quanto bastava. O coração mente e a cabeça usa truques conosco, mas os olhos veem a verdade. Olhe com os olhos. Ouça com os ouvidos. Saboreie com a boca. Cheire com o nariz. Sinta com a pele. E então, depois, que chega o tempo de pensar e de, assim conhecer a verdade.”

Diálogo entre Syrio Forel e Arya Stark em "A Guerra dos Tronos".

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