terça-feira, 11 de março de 2014

Lembranças


Quando a saudade aperta
É só fechar bem forte os olhos
Que logo ela escorre de mim.
Lucão

Enquanto, da minha janela, eu o observava ir embora na manhã de quinta-feira, também senti uma vontade enorme de fugir; queria ter pra onde me esconder, queria ter alguém que me mostrasse que caminho tomar: eu seguia meu caminho tortuoso e as circunstâncias me obrigavam a pegar um atalho inesperado. Na minha inocência apaixonada ou na minha paixão inocente fiz planos, e diante dos seus cacos espalhados no chão, pensei que esse seria o meu maior tormento... Mas as lembranças são ainda mais cruéis com os amores feridos.

Quando percebi, as lembranças já me engoliam, me levantavam e depois me afogavam como aquelas ondas do mar que enfrentamos de mãos dadas: assim como eu não conseguia resistir à força do oceano, meu fôlego era pouco para driblar as lembranças. Lembranças tão vívidas que eu podia sentir seus cheiros, suas texturas, seus sabores. Ainda posso.

Elas me atacavam no meio da tarde ou durante o sono trazendo a sua imagem diante dos meus olhos marejados. Lembrava-me de como era vê-lo todos os dias e, mesmo assim, ter a sensação de que era a primeira vez; de como eu nunca soube lidar com o seu cheiro inebriante, eu embriagado, sorrindo bêbado apaixonado.

As lembranças me mostravam seu sorriso de timidez que semicerrava os olhos e escondia os dentes; depois, sorriso branco iluminado. E ainda os sussurros com aquela voz grave e macia como lençóis limpos, que acariciavam meus ouvidos: e eu mais uma vez estonteado, trocando os passos. A mesma voz, que mais tarde embriagada, gritava meu nome no metrô, na calçada, de braços abertos olhando pro mar: o mesmo mar que sempre me trará tais lembranças. Como não ter saudade também dos silêncios, das intenções combinadas que dispensavam as palavras, que nos desobrigavam das roupas, que nos envolviam em suores.

Os cabelos bem cortados, a nuca, a única parte do corpo que eu admirava enquanto o olhava de longe; a blusa marrom que pedia pra enfiar-me debaixo dos seus abraços; à distância, os seus beijos de lembrança no fim das minhas tarde eram como borrifadas de um perfume bom: fugazes e prazerosas.

Minha memória estupidamente perfeita me lembrava da mão carinhosa sob meu queixo, escondida pela meia-escuridão do cinema, que me deixou com a mão suada, incapaz de ler as legendas do filme. Aquele dia quente que teve gosto de chocolate, de novidade, de vinho e de confissões.

E os beijos... Inéditos. Foi com ele que descobri como comunicar-me pelos lábios, mostrar-lhe os meus sentimentos pelos beijos: desde os mais puros, delicados como uma flor, até os mais atrevidos, com muita língua e pouco fôlego. Beijos salgados e cheios de areia, beijos tímidos cochichados, beijos desesperados pelas despedidas, beijos com o gosto do café da manhã. Beijos roubados, trocados, pedidos, vendidos e comprados, tendo outros como moeda. E na quinta-feira pela manhã... Eu teria me demorado mais se eu soubesse que aquele seria nosso último beijo.

Atormentado, não conseguia avaliar o tamanho do meu esforço para apagar todas essas lembranças: tentando me consolar, eu já conseguia enxergá-las, ali num futuro próximo, todas acinzentadas, incapazes de me causar qualquer dano. Depois de horas de suor frio e banhos quentes, soube que eu não seria capaz. Eu não conseguiria e não quereria apagar as lembranças mais doces desses tempos. Eu não saberia como esquecer a camiseta laranja do nosso primeiro beijo e do nosso último abraço: eu não quero esquecer. Não me deixe esquecer. Eu não vou me deixar esquecer. Eu não vou deixar de sentir isso que eu sinto por você. Deixa eu segurar sua mão.

3 comentários:

Roger.R.A.Raimundo disse...

Belo texto, Lucas.

Skyline Spirit disse...

pretty nice blog, following :)

Anônimo disse...

To chorando...